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Segurança Pública

Perigo ao volante: motoristas de aplicativo a constante rotina do medo

Tiago Souza | Publicado em:

Marcelo Tavares

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Por ser uma alternativa para driblar a crise e conseguir o sustento de muitas famílias, a rotina de motoristas de aplicativo rapidamente se popularizou e ao menos contribuiu em meio a índices tão altos do desemprego. A atividade vem se mostrando, em muitos casos, a principal fonte de renda de pessoas que estão em busca de recolocação formal no mercado de trabalho. 

Segundo o IBGE, a taxa de desempregados recuou para 11,2% no último mês de janeiro, melhor marca desde 2016, de acordo com pesquisa divulgada na semana passada. Já a população subutilizada, ou seja, os que estão desempregados, aqueles que trabalham menos do que poderiam, e as pessoas que poderiam trabalhar mas não procuram emprego, chegou a 27,8 milhões de pessoas, quedas de 7,2% (menos 2,2 milhões) frente ao trimestre anterior e de 15,5% (menos 5,1 milhões) na comparação anual.

Dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), divulgados até outubro de 2021, apontam que exista, aproximadamente, 1,4 milhão de trabalhadores em atividade no setor de transporte de passageiros e de mercadorias no Brasil, que estão inseridos na chamada Gig economy, termo que caracteriza relações laborais entre funcionários e empresas que contratam mão de obra para realizar serviços esporádicos e sem vínculo empregatício, principalmente por meio de aplicativos.

Com mais horas dedicadas à atividade, o trabalho ao volante trouxe, como efeito rebote, outro passageiro indesejado: o medo. Apesar do trabalho sobre quatro rodas, colaboradores revelam que tiveram a rotina alterada por conta dos constantes assaltos e da violência. 

Estratégia

Morador de Maricá, Francisco Avelino, de 42 anos, ficou desempregado durante a pandemia e a única opção que encontrou para seu ganha-pão foi ser colaborador de duas plataformas. Há dois anos cadastrado nas empresas, ele não esconde o pânico de trabalhar no período da noite. 

“As ações dos criminosos não têm hora para acontecer, mas à noite é ainda mais arriscado. Eu tive que montar estratégicas para evitar ser alvo. Durante o dia eu faço viagens longas para diferentes cidades, mas à noite fico trabalhando só em Maricá, só faço viagens para outras cidades quando o cliente já é conhecido. Sempre comunico meus familiares onde estou indo e quando posso, compartilho a minha localização, não posso arriscar minha vida, pois a renda que eu sustento a minha família vem das corridas que eu faço”, explicou. 

 





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Recentemente a morte do motorista de aplicativos André Luiz da Rocha Guimarães, chocou a cidade de Maricá. Ele trabalhava quando foi sequestrado por criminosos no dia 26 de janeiro deste ano. O veículo foi encontrado na noite do mesmo dia abandonado na BR-101, na altura do Salgueiro, em São Gonçalo. Já o motorista foi encontrado morto quatro dias depois em uma região de mata no bairro Caxito, em Maricá. Segundo a Polícia Civil, um dos autores já foi preso e outros três, sendo uma mulher, ainda estão soltos. 

Em São Gonçalo, o motorista de aplicativos Thiago Aguiar, de 36 anos, já é um veterano no ramo. Trabalhando há mais de 4 anos, ele chega a entrar em comunidades, mas não em todas. O motorista fica atento para não ter o veículo ou outros pertences roubados. 

“Antes de aceitar a viagem eu vejo para qual região é o destino do passageiro. Quando entro em alguma comunidade fico atento às ordens impostas pelo tráfico, como ascender a luz interna do carro, ligar o pisca alerta e abaixar os vidros”, disse. 

Especialistas

Para o professor de sociologia e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniel Hirata, os crimes dentro dos veículos de aplicativos só vão parar quando a cidade como um todo estiver mais segura. 

“Isso é parte da segurança pública em geral. Por outro lado, como o próprio estatuto desse tipo de trabalho é ambíguo, porque não é transporte público, nem mesmo transporte formalmente, a situação fica ainda mais delicada”, disse.

Já para o especialista em segurança pública e professor da UFF Lenin Pires, os motoristas de aplicativos são muito explorados em termos econômicos, o que cria um círculo vicioso, medida que acaba por expor ainda mais os profissionais nas ruas. 

“Uma das empresas de aplicativo não reconhece as pessoas que trabalham para ela como profissionais sob sua responsabilidade e eles tampouco lograram uma organização política sequer para enfrentar os problemas trabalhistas, quem dirá as implicações de sua vulnerabilidade, em função de uma série de fatores. Logo, a fragilidade que eles enfrentam tanto tem a ver com a precariedade de sua condição laboral, como também em função da desorganização política que ainda viceja entre estes profissionais. Está mudando, porém, a passos lentos”, conclui. 

Debate na Câmara dos deputados 

No ano de 2019 o deputado Luiz Miranda (DEAM-DF) solicitou a audiência na comissão para facilitar uma aproximação entre empresas do setor e representantes da área de segurança. Para ele, os aplicativos precisam oferecer mais interação com as secretarias de Segurança Pública dos estados. 

Polícia Militar

Procurada, a Polícia Militar informou que a Corporação atua de forma ostensiva empregando o policiamento diuturnamente em todo o território do estado, distribuídos estrategicamente de acordo com a análise da marcha criminal das regiões, a partir de dados oficiais compilados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), com o objetivo de reprimir quaisquer ato delituoso nas áreas de atuação de seus batalhões, sendo eles 7º BPM (São Gonçalo), 12º BPM (Niterói) empregando equipes no policiamento do perímetro urbano nos municípios de São Gonçalo, Niterói e Maricá de maneira estratégica e planejada.

A PM informou ainda que, em São Gonçalo equipes do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv) e do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (RECOM) também atuam em patrulhamento de áreas próximas às rodovias. Os policiais militares são distribuídos em equipes motorizadas e a pé, realizando abordagens de maneira contínua e prisões em flagrante. E que é de suma importância que a população colabore realizando denúncias através do Disque-Denúncia (21) 2253-1177 ou, para casos urgentes, através da nossa Central 190. Os registros em delegacias são essenciais, pois colaboram com a revisão do planejamento operacional na área onde a mancha criminal é mais acentuada.

Empresas 

Procurada, a Uber informou que segurança é prioridade para a empresa e que está sempre buscando, por meio da tecnologia, fazer da sua plataforma a mais segura possível, de uma forma escalável. Hoje uma viagem pelo aplicativo já inclui ferramentas de segurança antes, durante e depois de cada viagem, tanto para os usuários quanto para os motoristas parceiros. Por isso o aplicativo já exige do usuário que não adiciona meio de pagamento digital (cartão de crédito ou débito) que insira o CPF e data de nascimento, dados que são checados na base de dados do Serasa. Também está disponível no aplicativo o recurso de checagem de documentos de usuários, ferramenta inédita no Brasil por meio da qual alguns dos usuários que optarem por pagar sua primeira viagem em dinheiro, sem fornecer dados do meio de pagamento digital (cartão de crédito ou débito), precisarão fornecer um documento de identidade, como RG ou CNH. os motoristas parceiros podem cancelar as viagens sinalizando motivo de segurança sempre que não se sentirem confortáveis, sem qualquer impacto para eles. O aplicativo também possui um recurso de machine learning para impedir que viagens potencialmente arriscadas aconteçam. 

A Uber informou também que lamenta profundamente que motoristas parceiros sofram com a violência e brutalidade que permeiam na sociedade, e que no caso do motorista André Luiz da Rocha Guimarães, a empresa esteve em contato com as autoridades e permanece à disposição para apoiar as investigações, nos termos da lei. A empresa manteve contato com a família para prestar solidariedade e informar sobre a disponibilidade do seguro de acidentes pessoais. 

Já o aplicativo 99 informou que segurança é prioridade da empresa e que, com investimentos de R$ 70 milhões em sistemas de proteção, a plataforma reduziu em 35%, por milhão de corridas, os casos graves contra motoristas no estado do Rio de Janeiro, no ano de 2021. 

A 99 informou ainda que a os motoristas parceiros da 99 contam ainda com câmeras de segurança e o Assistente de Segurança, disponível no escudo azul diretamente no app, que permite o compartilhamento de rotas com contatos de confiança e a ativação da gravação de áudio e do botão para ligar direto para a polícia. Em caso de necessidade, a 99 oferece uma central telefônica que funciona 24h e oferece apoio imediato e atendimento humanizado. Além disso, todos os usuários são cobertos por um seguro contra acidentes pessoais, válido do começo ao fim das corridas.

 

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