Três anos após o lançamento, o que começou como o sonho da casa própria virou um terreno vazio e sem qualquer perspectiva de mudança no bairro Antonina, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O empreendimento Jardim Central 3, da MP Construtora, vendido como oportunidade de acesso à moradia, hoje é alvo de denúncias de abandono, falta de transparência e prejuízos financeiros por parte dos compradores.
No local, não há sinal de obra. Tapumes estão danificados, placas deterioradas e o terreno foi tomado pelo mato. Moradores da região relatam ainda a presença de pessoas em situação de rua e uso irregular do espaço, cenário que contrasta com o projeto apresentado no lançamento, em julho de 2023.
Enquanto isso, clientes afirmam que continuam recebendo cobranças mensais, mesmo sem qualquer avanço concreto.
Promessas não cumpridas
Um dos principais pontos de reclamação é o financiamento habitacional, que seria feito pela Caixa Econômica Federal. Segundo os compradores, a assinatura do crédito foi prometida poucos meses após o lançamento, mas nunca ocorreu.
Ao longo do tempo, clientes relatam terem sido acionados diversas vezes por correspondentes bancários para envio de documentos, como comprovantes de renda e declarações. Em alguns casos, o processo foi interrompido sem explicação.
Diziam que estavam na fase final, que iam chamar a gente, mas isso nunca aconteceu”, — Mayara Lima, de 23 anos, enfermeira.
Ela e o marido, o professor Diego Lima, de 24, compraram uma unidade ainda na planta e já pagaram cerca de R$ 40 mil. Segundo Mayara, a falta de respostas fez o casal interromper os pagamentos no ano passado.
“O que mais revolta é a incerteza. A gente não sabe se vai ter obra, se vão devolver o dinheiro ou se vão empurrar isso até o fim do contrato”, diz.
Clientes relatam que, mesmo após contato direto com a Caixa, não encontraram informações sobre o empreendimento vinculado ao banco.

Obra parada e prejuízos
De acordo com os compradores, dados disponibilizados pela própria construtora, o empreendimento atingiu apenas 0,49% de execução até janeiro de 2025. Desde então, não houve novas atualizações.
As chamadas “obras preliminares” teriam começado em agosto de 2024, mas se limitaram a estruturas básicas, sem continuidade. Desde o início de 2025, não há qualquer movimentação no terreno.
A faturista hospitalar Marina da Glória, de 57 anos, que também adquiriu o primeiro imóvel no local, acompanha a situação de perto.
“Eu moro próximo e vejo que não tem ninguém trabalhando ali. O mato tomou conta de tudo. A gente investe o que tem e não recebe nenhuma satisfação. Já mandei e-mail, já tentei contato e ninguém responde”, relata.
Mesmo sem respostas, ela segue pagando as parcelas. “Está tudo em dia, mas a dúvida é: como vão entregar isso até 2027 desse jeito?”
Entre os compradores, há relatos de prejuízos que variam de acordo com o valor investido. Alguns afirmam ter pago entradas elevadas ou até valores à vista. Em casos de distrato, dizem que a devolução prevista pode ser inferior a 50% do total pago.
Falta de atendimento e incerteza
Além da paralisação da obra, clientes denunciam dificuldades para obter atendimento. O estande de vendas no Centro de São Gonçalo foi fechado, e tentativas de contato por canais digitais, segundo eles, raramente têm retorno.
Há também relatos de erros em dados cadastrais, acordos não concluídos e chamados encerrados sem solução.
A gente abre atendimento, demora dias para responder e, quando responde, não resolve. Em alguns casos, fecham o chamado sem retorno”, afirma Mayara.
Segundo os relatos, funcionários evitam assumir responsabilidades e direcionam os clientes para diferentes setores, sem solução definitiva.
Outros empreendimentos e crise
A situação se agrava com informações sobre dificuldades financeiras da construtora. Ainda de acordo com relatos, em comunicado anterior, a empresa citou aumento de custos, atrasos em outras obras e limitações de crédito.
Compradores afirmam ainda que parte dos empreendimentos foi repassada para outra incorporadora, mas o Jardim Central 3 ficou de fora, sem qualquer explicação.
Também há menções a atrasos salariais e saída de funcionários, além de corretores que deixaram a empresa. Alguns clientes relatam ter sido impactados por problemas anteriores da construtora e migrado de outros projetos que não foram concluídos.

Medo de perder tudo
Sem definição, muitos compradores dizem viver um dilema: continuar pagando sem garantias ou interromper os depósitos e correr o risco de negativação. O técnico de enfermagem Walter Escaleira Jr., de 58 anos, afirma que segue pagando por falta de alternativa.
Se parar (de pagar), o nome fica sujo. Se continuar, não sei se vou ter o imóvel. Já paguei mais de R$ 40 mil. E, se cancelar, recebo muito menos”, diz.
Segundo os clientes, a MP Construtora informou que deve apresentar uma devolutiva até o fim do primeiro semestre de 2026. Até lá, os compradores seguem sem respostas concretas.
Para quem apostou no projeto, o sentimento é de frustração. O que era planejado como o primeiro imóvel virou um impasse sem prazo para terminar.
O que dizem os envolvidos
Procurada pela reportagem, a Caixa Econômica Federal informou que o empreendimento não possui qualquer vínculo de financiamento com o banco. Segundo a instituição, eventuais contratos firmados por compradores são de caráter individual, sem relação direta com o projeto.
A MP Construtora responsável pelo Jardim Central 3 ainda não se pronunciou sobre as acusações, o andamento das obras, e a relação com a Caixa Econômica Federal.