O choro das crianças na porta da creche passou a ganhar outro significado para um grupo de pais de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O que antes era interpretado como dificuldade de adaptação à rotina escolar virou sinal de alerta depois que vídeos, áudios e relatos começaram a circular entre famílias de alunos da Creche Cantinho do Céu, no bairro Pacheco. As denúncias envolvem agressões físicas, humilhações, falta de estrutura e condições consideradas precárias dentro da unidade particular.
Mães afirmam que os filhos passaram a apresentar medo de frequentar o local, mudanças bruscas de comportamento e até marcas
pelo corpo. Parte das acusações veio à tona após testemunhas decidirem relatar o que diziam presenciar diariamente dentro da creche.
Conversas obtidas pela reportagem mostram relatos de tapas na cabeça, puxões de cabelo, crianças colocadas de castigo e situações de negligência.
“Meu filho começou a chorar sempre que eu o deixava lá. Eu achava estranho, mas nunca imaginei que pudesse estar acontecendo uma coisa dessa gravidade”, contou uma mãe ao ENFOCO. Segundo ela, um dos filhos chegou em casa dizendo que uma “tia puxou a orelha” dele e bateu no irmão mais novo.
Em uma troca de mensagens, uma testemunha relata ter ficado nervosa após ver uma criança levar “duas chineladas na cabeça”. Em seguida, diz que outra criança teria sido puxada pelas tranças do cabelo.
Outra mãe contou que recebeu o filho sonolento em um dia da semana e estranhou o comportamento da criança. Segundo ela, o menino parecia sem forças para ficar em pé. O caso aumentou a preocupação da família porque, de acordo com o relato, uma outra criança da creche utilizava medicação controlada.
“Meu filho nunca acorda daquele jeito. Em casa ele sempre levanta sorrindo. Naquele dia ele estava mole, sem reação”, afirmou.
Há ainda denúncias envolvendo uma criança autista que aparece em um dos vídeos recebendo um tapa na cabeça. Em outro vídeo enviado pelas mães, uma criança foi sufocada com um travesseiro. As famílias afirmam que começaram a trocar informações depois que vídeos chegaram aos grupos de responsáveis.
Uma das mães disse que o comportamento do filho mudou completamente depois da saída de uma funcionária pela qual a criança tinha forte apego dentro da creche. Segundo ela, foi a partir das conversas com testemunhas que passou a desconfiar do que acontecia no local.
“A revolta foi crescendo porque a gente começou a entender o motivo das mudanças no comportamento das crianças”, disse.
Unidade sem estrutura
Os relatos não se limitaram às agressões. Antigos funcionários passaram a descrever um ambiente sem estrutura para receber crianças pequenas. Segundo eles, faltavam colchões para descanso, brinquedos e itens básicos de higiene.
Uma testemunha contou ao site, detalhando o que afirma ter encontrado ao chegar à unidade. Ela falou que ficou chocada com a situação do imóvel e disse que o espaço causava desconforto até nos adultos. Segundo o relato, crianças dormiam em lençóis improvisados no chão e bebês não tinham colchão adequado para descansar.
“Eu olhava aquilo e pensava nas crianças. Não tinha brinquedo, não tinha conforto, não tinha quase nada. Parecia um lugar abandonado”, afirmou.
Ainda segundo o depoimento, havia momentos em que utensílios da cozinha precisavam ser lavados com sabonete líquido e shampoo infantil porque faltava detergente. Ela também descreveu o acúmulo de sujeira e afirmou que tentou alertar a direção sobre os problemas.
“Eu discutia porque achava errado. Não conseguia fingir que estava tudo normal”, disse.
Manifestação
As denúncias provocaram revolta entre os pais, que passaram a organizar um protesto em frente à creche, nesta segunda-feira (18). Muitos afirmam que, até agora, não receberam contato direto da direção da unidade para esclarecer o caso. “Só queremos justiça pelos nossos filhos”, desabafou uma mãe.

Segundo os responsáveis, muitas crianças passavam praticamente o dia inteiro na unidade, chegando ainda pela manhã e só retornando para casa no início da noite. Pais relatam que pagavam mensalidades entre R$ 400 e R$ 450 acreditando estar deixando os filhos em um ambiente seguro, mas hoje dizem conviver com culpa, revolta e medo após a descoberta das denúncias.
Na última sexta-feira (15), as monitoras denunciadas foram levadas para a 74ª DP (Alcântara) para prestar depoimento sobre o caso e foram liberadas após serem ouvidas.
Procurada pela reportagem, a direção da creche informou, por meio de nota, que “não compactua com os fatos ocorridos” e afirmou que “as funcionárias envolvidas foram afastadas”. O comunicado acrescenta que a unidade “se coloca à disposição para colaborar com as autoridades” e declara “total apoio às mães”.
A administração também afirmou que “as providências já estão sendo tomadas” e informou que “os pais que quiserem o ressarcimento dos valores pagos” poderão receber a devolução “até sexta-feira, dia 22 de maio de 2026”.
O que dizem as autoridades
De acordo com a Polícia Civil, o caso foi registrado na 74ª DP. Os agentes analisam imagens e realizam diligências para esclarecer o que aconteceu.
Já a Prefeitura de São Gonçalo informou que “a creche não possui convênio com o município e disse que irá acionar o Conselho Municipal de Educação para que medidas sejam tomadas diante das denúncias”. O município, no entanto, não esclareceu se a unidade possui registro regular de funcionamento.