Mensagens insistentes, convites para sair, promessas de presentes e o pedido para que uma adolescente vítima de assédio convencesse outra a não denunciar um suposto abuso relacionado a vídeo íntimo estão entre as acusações atribuídas a um professor de Educação Física investigado por crimes sexuais envolvendo uma estudante do 9º ano e uma ex-aluna do Colégio M3, em Alcântara, São Gonçalo.
O caso é apurado pela Polícia Civil. O professor foi demitido pela instituição, teve o celular apreendido para perícia e já há duas vítimas identificadas, embora novas denúncias não estejam descartadas. Ele chegou a ser conduzido à delegacia, mas foi liberado por não haver situação de flagrante.
As duas adolescentes vítimas, ambas de 14 anos, devem prestar depoimento na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de São Gonçalo (DEAM-SG) ainda nesta semana.
“Ele filmou e enviou um vídeo íntimo para minha filha, mas ela apagou. Na conversa com a amiga, ele menciona o vídeo e, com o policial, também admite que gravou. Ele disse: ‘dei mole, teve sexo oral, mas não teve penetração’ e ainda afirmou que queria falar com os pais”, relata um pai, de 35 anos, responsável por uma das vítimas.
Por envolver menores, a reportagem não identificará os denunciantes.
A ocorrência inicialmente registrada na 74ª DP como importunação sexual foi encaminhada à DEAM-SG, que também ficará responsável pela apuração do caso de estupro de vulnerável.
A defesa do investigado não foi localizada pela reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
“Fiquei muito desanimado [por ele ter sido liberado] porque tudo que fazemos parece que não valeu a pena. Um crime contra criança, ele confessou, várias provas… isso só dá forças para quem pratica o crime. O delegado falou que o ato tem que ser no dia, para ser preso em flagrante”, lamentou o pai.
Relatos das famílias
A mãe de outra adolescente de 14 anos afirmou ter descoberto as mensagens de assédio contra a filha após relatos da outra família. Segundo ela, a aproximação do suspeito começou no ano passado, quando as meninas tinham 13 anos. “Ele começa como amigo”, disse.
De acordo com a denúncia, o professor mantinha contato frequente, criava vínculo de confiança e insistia para que a adolescente retornasse à escola após a troca de unidade. A família afirma ainda que ele oferecia não só presentes, mas também pagamento de serviços e ajuda financeira.
Após a recusa de um convite para sair, a adolescente teria sido cobrada pelo professor. No dia seguinte, segundo o relato, ele pediu que ela convencesse uma amiga a não relatar o caso supostamente cometido contra a outra menina.
“Ele não chegou a dar presente para minha filha, mas ele falava para ela que ia pagar a unha dela, que pagaria as coisas para ela, que ia na escola nova dela entregar um presente surpresa, mas minha filha desconversava e ele nunca foi. Se eu soubesse dos casos antigos nunca teria colocado minha filha nessa escola”, conta a mãe.
Descoberta do outro caso
O pai da outra adolescente relatou ter tomado conhecimento do caso após comentários no condomínio onde mora. Segundo ele, a filha teria mencionado o envio de um vídeo pelo professor.
“Essa conversa na quadra do condomínio foi antes do aniversário dela… que ela passou a semana na minha casa, entre os dias 9 e 12 de junho. Ele ameaçava as crianças falando que iria ajudar passar e iria dar presentes, chamava pra sair. A escola se quer perguntou se precisamos de alguma coisa. Não falaram nada e o diretor ficou com cara de deboche. Até discuti com ele. Enquanto falei com ele lá fora, porque ele me atendeu fora da escola, o safado estava dentro da escola. Quando fiquei sabendo disso, chamei a polícia”, contou.
Ele afirma que o conteúdo teria sido apagado pela menor por medo, mas que mensagens ainda fariam referência ao material. O responsável também reafirma que o professor teria admitido a gravação durante abordagem policial na escola.
A menor já foi retirada da escola e recebe acompanhamento psicológico. A outra vítima já não estuda lá desde o ano passado.
Em um print, obtido pela reportagem, o investigado diz para uma adolescente que ela “nunca tem tempo para me encontrar” e pede para ela conversar com a amiga “e não fazer besteira, se não vai dar uma merda federal”.

Depoimentos e investigação
Ao ENFOCO, o delegado Marcello Maia já havia informado na última sexta-feira (19) que o professor confessou os fatos relacionados ao registro feito na delegacia, mas foi liberado – uma vez que, segundo a autoridade policial, não havia flagrante.
“O investigado foi conduzido à 74ª DP, confessou os fatos, mas não ficou preso porque não havia situação flagrancial”, afirmou o delegado.
Segundo Marcello Maia, um inquérito policial foi instaurado para aprofundar as investigações e o telefone celular do professor foi apreendido para perícia.
“O telefone do professor foi apreendido para perícia, já que há relatos de que havia conteúdo sexual infantojuvenil nos arquivos”, acrescentou.
O delegado esclareceu, ainda, que o caso ficará a cargo da DEAM-SG.
Escola e andamento do caso
O Colégio M3 confirmou a demissão do professor após as denúncias e informou que colabora com as investigações. A instituição disse ainda que presta apoio a alunos e familiares.
“O Colégio M3 confirma o desligamento do professor do seu quadro de funcionários e está à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações. O Colégio M3 teve conhecimento das denúncias a partir da informação de familiares e a chegada da Polícia Militar no dia 18 de junho à tarde nas dependências da instituição de ensino. As medidas de acolhimento aos estudantes e famílias adotadas envolveram a necessária transparência por parte da equipe do M3, ampliação da escuta ativa e diálogo com os alunos e seus familiares, reafirmando o compromisso institucional com um ambiente escolar seguro para todas as pessoas. A direção da escola estará sempre a disposição quando necessário”, finaliza a nota.