Enquanto muitos ainda dormiam, e outros se preparavam para sair de casa para trabalhar ou caminhar, a Praia de Icaraí, em Niterói, foi cenário de um encontro raro entre fotógrafos e a Lua cheia, na madrugada da última segunda-feira (29).
Às 5h53 em ponto, o fotógrafo Marcelo Tchebes registrou o clique da ‘Lua de Morango’ que viralizou nas redes sociais e chamou atenção até por ser confundido com inteligência artificial. Mas é tudo real. Na areia, cerca de dez fotógrafos, incluindo um profissional vindo do Peru especialmente para o registro, viviam a ansiedade de um trabalho planejado há meses.
Para a imagem, Marcelo utilizou uma câmera Nikon z8, uma lente teleobjetiva de longo alcance, a sigma 150-600mm, apelidada por ele de “bazucona”, além de um tripé, em meio a uma operação precisa de enquadramento e técnica.
Apesar do resultado parecer espontâneo, Marcelo explica ao ENFOCO que nada ali foi improviso. A fotografia fazia parte de um planejamento iniciado meses antes, com estudo da posição da Lua, condições do céu e o melhor ponto de observação.
“Essa foto já estava planejada há alguns meses. O que mais demora é chegar o dia. A gente fica ansioso para saber se as condições meteorológicas vão estar a nosso favor. Às vezes você espera cinco ou seis meses e, quando chega o dia, está chovendo ou o tempo fecha. Aí não tem foto”, conta.
Desta vez, porém, o céu colaborou. Uma leve névoa próxima à Lua ajudou a criar um efeito dramático e de grande impacto visual.
“Foi suficiente para dar uma dramaticidade à fotografia e fazer uma dispersão da luz. O efeito ficou muito bonito”, reforça.
Segundo o profissional das lentes, a Lua cheia é a que costuma atrair maior atenção de fotógrafos.
“Todas as Luas são especiais, cada uma tem sua poesia, e é possível produzir imagens lindas compondo a com cartões-postais de Niterói, do Rio ou de qualquer lugar do mundo”, garante.
Um passo errado muda tudo

Marcelo reforça que fotografar a Lua exige precisão absoluta. Antes de sair para a praia, ele utiliza aplicativos de monitoramento astronômico para prever com exatidão o trajeto do astro e definir o posicionamento ideal da câmera.
“É extremamente preciso. Se você der literalmente um passo para o lado, a foto já não sai como foi planejada. Existe toda uma questão de triangulação, altura, posicionamento e vários outros fatores”, conta.
Ele também explica a origem da chamada ‘Lua de Morango’, que não tem relação com a cor do satélite.
“Muita gente acha que ela fica vermelha, mas não é isso. Ela fica amarelada quando está próxima ao horizonte e vai ficando branca conforme sobe. A origem do nome é porque neste período de junho, no hemisfério norte, coincide com o período da colheita do morango”, explica.
Correria na areia de Icaraí
Assim que a Lua começa a surgir no ponto esperado, a calma dá lugar à correria. Após cada clique, Marcelo diz que desmonta rapidamente o tripé, ajusta a câmera Nikon com a pesada lente teleobjetiva, e se desloca pela areia em busca de novos enquadramentos antes que o alinhamento se perca.
“Eu faço uma foto, pego o tripé e saio literalmente correndo para outro ponto. Faço umas cinco imagens diferentes. Tudo acontece na adrenalina, mas é divertido.”
Ele revela que nem sempre é possível registrar tudo o que foi planejado.
“Às vezes você perde um enquadramento porque tudo acontece muito rápido, mas consegue recuperar no seguinte”.
Quando o resultado sai como esperado, a emoção aparece na hora.
“Quando você vê que fez o clique certeiro, com foco, conseguiu captar tudo certinho, às vezes grito de emoção, vibro, né?!”, diz empolgado.

Na mesma madrugada, Marcelo Tchebes ainda registrou outra imagem considerada extremamente difícil: a Lua alinhada ao bondinho do Pão de Açúcar, a partir de Botafogo, na Zona Sul do Rio.
“Na minha opinião, é até mais difícil do que fotografar o Cristo. Você depende do bondinho passar exatamente no momento certo. Se ele atrasar ou adiantar alguns segundos, você perde a foto. Essa eu gritei mesmo com muita emoção lá em Botafogo”, contou.
Quando dizem: “é IA”
Depois da publicação, a imagem feita em Icaraí viralizou e passou a ser alvo de dúvidas nas redes sociais. Muitos usuários afirmaram que o registro parecia inteligência artificial. Marcelo diz que leva a situação com leveza, mas reconhece o impacto desse tipo de comentário.
“Eu brinco que, quando a pessoa fala que é IA, no fundo está dizendo que a foto ficou tão perfeita que parece impossível”, opina.
Ao mesmo tempo, ele afirma que há falta de compreensão sobre o processo por trás da imagem.
“As pessoas não imaginam que existe um profissional apaixonado pelo que faz, que passou meses esperando aquele momento e ficou a noite inteira acordado para conseguir aquela fotografia.”
Para responder às críticas, ele passou a divulgar os bastidores em suas redes sociais, mostrando desde o planejamento até o clique final.
“Convidei essas pessoas para conhecerem meu trabalho. Eu prezo muito pelos bastidores e pela emoção do momento da captação. No meu Instagram, as pessoas conseguem ver que existe muito estudo, conhecimento, esforço pra conseguir esses registros”, diz.
Técnica acima de tudo
Segundo o fotógrafo, esse tipo de registro não pode ser feito no modo automático. “Você precisa conhecer profundamente o equipamento. Fotografia é, tecnicamente, captar luz. Se você não souber fazer a fotometria corretamente, a fotografia não acontece”, ensina.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está a imagem em que o Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, parece o personagem Pac-Man “engolindo” a Lua. Outra fotografia do museu chegou a ser compartilhada pela atriz Juliana Paes, ampliando ainda mais a repercussão do seu trabalho.