O avanço de doenças crônicas como diabetes e hipertensão no Brasil tem colocado o acompanhamento regular da saúde no centro das estratégias de prevenção. Dados do Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde realizado nas capitais e no Distrito Federal, mostram que a parcela de adultos que declarou ter diabetes passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024, uma alta de 135% em 18 anos.
A hipertensão também apresentou crescimento no período. O percentual de adultos que relataram diagnóstico subiu de 22,6% para 29,7%. Os indicadores de excesso de peso e obesidade avançaram ainda mais: o primeiro passou de 42,6% para 62,6%, enquanto o segundo aumentou de 11,8% para 25,7%.
Parte da elevação pode estar relacionada ao envelhecimento da população e à ampliação do diagnóstico. Ainda assim, os números reforçam a necessidade de identificar fatores de risco antes do aparecimento de complicações. Nesse cenário, a atenção primária, considerada a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), tem papel estratégico.
Para Roberto Rangel, médico, professor e presidente da RioSaúde, doenças como hipertensão e diabetes podem permanecer durante longo período sem manifestações evidentes. Por isso, segundo ele, o cuidado não deve ser iniciado somente diante do surgimento de sintomas.
“Diabetes e hipertensão podem permanecer por muito tempo sem provocar sintomas claros. Por isso, o acompanhamento não deve começar apenas quando a pessoa se sente mal. A atenção primária permite avaliar riscos, orientar mudanças e identificar alterações no momento adequado”, afirma Rangel.
Doenças podem evoluir sem sintomas
A hipertensão é um dos exemplos de condições que podem avançar de forma silenciosa. Sem controle adequado, a doença aumenta o risco de problemas cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC), infarto e doenças renais.
No caso do diabetes, sinais como sede excessiva, maior frequência urinária, cansaço e perda de peso sem explicação podem aparecer, mas não necessariamente estão presentes nas fases iniciais. Por isso, sentir-se bem não significa, por si só, estar livre de fatores de risco.
A avaliação feita nas unidades de atenção primária considera diferentes aspectos da vida do paciente. Idade, histórico familiar, alimentação, atividade física, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, peso e outras condições de saúde podem influenciar a avaliação individual.
Rangel destaca que a prevenção não deve seguir uma fórmula única para todos os pacientes. “Não existe uma única recomendação que sirva para toda a população. Duas pessoas da mesma idade podem apresentar riscos diferentes. O cuidado precisa considerar o histórico, os hábitos e as condições de vida de cada paciente”, ressalta.
O acompanhamento pode envolver consultas, vacinação, aferição da pressão arterial, avaliação da glicemia, orientação sobre hábitos saudáveis, cuidados de saúde mental e monitoramento de pacientes que já convivem com doenças crônicas.
A continuidade também permite verificar se o tratamento está funcionando, identificar dificuldades no uso dos medicamentos e definir quando é necessário encaminhar o paciente para atendimento especializado.
Excesso de exames também pode trazer problemas
Prevenir doenças, porém, não significa necessariamente realizar o maior número possível de exames. A indicação de testes e rastreamentos deve levar em conta as características e os riscos individuais de cada pessoa.
Exames feitos sem indicação podem encontrar alterações sem relevância clínica e provocar uma cadeia de novas investigações. O resultado normal de um teste também não elimina todos os riscos e não substitui a avaliação médica.
“Prevenção não é pedir todos os exames disponíveis. É saber quais cuidados e avaliações fazem sentido para aquela pessoa, naquele momento. A decisão precisa ser baseada em evidências e tomada a partir de uma conversa entre o paciente e o profissional de saúde”, explica Rangel.
A lógica também vale para os programas de rastreamento, voltados à identificação precoce de determinadas doenças em pessoas que ainda não apresentam sintomas. A periodicidade e a necessidade dos exames dependem da doença investigada, da idade, do histórico familiar e de outros fatores.
Atenção primária acompanha paciente ao longo do tempo
No SUS, a atenção primária não se limita ao atendimento de problemas pontuais. Uma de suas principais funções é acompanhar o paciente ao longo do tempo e organizar, quando necessário, o acesso a outros serviços da rede.
Assim, mesmo quando uma pessoa é encaminhada para um especialista, realiza exames ou inicia outro tipo de tratamento, a equipe de atenção primária pode continuar acompanhando sua evolução.
“Uma consulta isolada registra uma parte da história. Quando existe acompanhamento, é possível entender o que mudou, comparar informações e perceber situações que poderiam passar despercebidas. Esse vínculo também ajuda o paciente a não se perder entre diferentes atendimentos”, afirma Rangel.
A estrutura da atenção primária também apresentou expansão nos últimos anos. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o país terminou 2025 com 60,4 mil equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária, 15% acima do número registrado em 2022.
No mesmo período, eram 277,4 mil agentes comunitários de saúde, enquanto mais de 80% dos municípios utilizavam prontuário eletrônico.
Em abril de 2026, outros 2.801 serviços, equipes e programas ligados à atenção primária foram credenciados em 823 municípios. As iniciativas incluem ações de promoção da atividade física, saúde bucal, qualificação profissional e atendimento a grupos em situação de maior vulnerabilidade.
Para Rangel, o crescimento da rede precisa vir acompanhado da capacidade das equipes de conhecer os pacientes e manter o vínculo ao longo do tratamento.
“Uma atenção primária forte não espera a doença se agravar para começar a agir. Ela orienta, acompanha, identifica riscos e encaminha quando necessário. Esse trabalho protege o paciente e também ajuda a utilizar melhor toda a estrutura de saúde”, conclui.