Três histórias, três famílias e uma mesma angústia: a espera por respostas que não chegam. Na Região Metropolitana do Rio, casos de desaparecimento e mortes permanecem sem solução definitiva da Justiça transformando a rotina de mães, pais e familiares, que convivem com a dor da perda, em incerteza. Há uma mãe que espera reencontrar a filha desaparecida há mais de uma década e famílias que tentam encontrar forças para seguir em frente enquanto aguardam a identificação dos responsáveis e a responsabilização pelos crimes.
No dia 2 de abril de 2015, Polyanna Ketlyn da Silva Ribeiro, então com apenas 10 anos, saiu de casa para comprar um fósforo em uma mercearia próxima, em Piratininga, na Região Oceânica de Niterói. Desde então, nunca mais voltou.

Onze anos depois, a mãe, Marcele Silvério Moreira da Silva, ainda vive na expectativa de receber alguma notícia sobre a filha. O desaparecimento mudou completamente a rotina da família e até a relação com o lugar onde mora. Marcele conta que não consegue se mudar porque a residência é a única referência que Polyanna teria para encontrá-la. Também evita frequentar a ciclovia e não gosta de deixar os outros filhos brincarem no quintal.
“Estou sobrevivendo há 11 anos com a expectativa de receber uma notícia boa ou ruim e até mesmo com o medo de deixar de viver sem nunca ter uma resposta. Eu queria que a sociedade enxergasse que a minha família está destruída, despedaçada, mutilada. Eu não posso nem me mudar daqui. Aqui é um lugar maravilhoso. A única referência para que minha filha possa me encontrar é aqui. Eu quase não vou à ciclovia e não gosto de deixar meus outros filhos brincarem no quintal. Eles não têm vida. Destruíram a nossa vida.”
Para Marcele, o desaparecimento de Polyanna afeta todos os integrantes da família. Ela afirma que segue em frente pelos outros dois filhos, que também precisam dela, mas reforça que a ausência da menina continua sendo uma dor impossível de ignorar.
“Eu sobrevivo porque não tenho só a Polyanna, tenho outros dois filhos que precisam de mim, mas eu também preciso da minha filha. A Polyanna não é um número, ela é um ser humano, é a minha filha. Eu preciso ter uma resposta, preciso saber o que aconteceu com a minha filha”, afirmou Marcele.
Em janeiro de 2022, Polyanna deu nome à Lei nº 3.687. A legislação institui um alerta para agilizar o resgate de pessoas desaparecidas, com o objetivo de tornar mais rápida a busca por crianças e adolescentes.
A Prefeitura de Niterói foi procurada para esclarecer questões sobre a implementação, a regulamentação e o funcionamento da lei, mas o Executivo não respondeu aos questionamentos até a publicação desta matéria.
A luta de um pai por justiça
Para a família de Bruno Rodrigues Ventura, a espera é diferente. Aos 29 anos, ele morreu em 8 de setembro de 2025, após ser contaminado por ácido peracético durante uma sessão de hemodiálise em uma clínica particular de São Gonçalo.

Márcio Luiz dos Santos, pai do jovem, ainda precisa conviver com a perda do filho. Ao falar sobre a Justiça, demonstra o tamanho de sua revolta e diz não acreditar que ela seja feita. Para ele, a expectativa é que a lei seja aplicada e que outras famílias não passem pela mesma situação.
“Justiça eu acredito que não seja feita, porque Justiça seria se eles pagassem do mesmo jeito. A gente espera que a lei seja aplicada. Espero também que o que aconteceu com a minha família não aconteça com mais ninguém”, disse.
Para Márcio Luiz, não basta saber que Bruno morreu. É preciso esclarecer o que aconteceu, identificar os responsáveis e saber se haverá consequências. Segundo ele, já se passaram 14 meses sem que o caso tenha sido resolvido. O delegado encaminhou o procedimento à promotoria, mas a denúncia ainda não foi aceita.
“A princípio, está tudo do mesmo jeito. Já se passaram 14 meses e nada foi resolvido. O delegado já passou o caso para a promotoria, mas a denúncia ainda não foi aceita. A promotoria está esperando um ofício do Cremerj”, contou.
Uma família à espera de respostas
A praça do Rio do Ouro, em São Gonçalo, era um dos locais onde Jennifer Vieira Barbosa, de 27 anos, gostava de passar parte do dia. A jovem, que tinha Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi encontrada morta no dia 22 de abril deste ano, após sair da igreja que frequentava. Até hoje, os familiares aguardam respostas.

Prima de Jennifer, Thamires da Costa lembra que a jovem era uma menina alegre e muito querida por quem convivia com ela. A ausência também é sentida pelas pessoas da vizinhança, que frequentemente perguntam à família se há novidades sobre o caso.
“Jennifer era praticamente uma criança. Era uma menina especial. Transmitia alegria para todos. Todo mundo sente falta dela. Na rua, quando as pessoas me veem, perguntam como estão as coisas e se já temos respostas, mas, até agora, não tivemos nenhuma.”
A família afirma que procura constantemente a Delegacia de Homicídios, mas ainda não recebeu informações que ajudem a esclarecer o que aconteceu. Segundo Thamires, a justificativa apresentada é a falta de testemunhas dispostas a prestar depoimento.
“Estamos sempre indo à Delegacia de Homicídios, mas ainda não recebemos nenhuma informação. Eles só falam que não há testemunhas dispostas a comparecer à delegacia para prestar depoimento e que precisam de mais testemunhas para incluir no inquérito. A investigação está difícil, ainda mais por causa do local onde ela foi encontrada”, contou.
Por que a Justiça demora?
Para entender por que alguns casos demoram a ser solucionados, o advogado Daniel Vargas explicou os aspectos jurídicos que envolvem as investigações.
Segundo ele, o inquérito policial é um procedimento administrativo, de natureza pré-processual, que ocorre antes do processo propriamente dito e tem como objetivo reunir elementos informativos e provas que possam fundamentar, ou não, o oferecimento de uma denúncia pelo Ministério Público.
“O primeiro ponto que deve ser sempre lembrado é que o inquérito policial é um procedimento administrativo, de natureza pré-processual. Ou seja, ocorre antes do processo propriamente dito e tem como objetivo reunir elementos informativos e provas que possam fundamentar, ou não, o oferecimento de uma denúncia pelo Ministério Público”, diz.
Em regra, conforme o Código de Processo Penal, quando o investigado está preso, o inquérito policial deve ser concluído em 10 dias. Quando está solto, o prazo é de 30 dias. Daniel ressalta, entretanto, que esses períodos podem variar conforme a legislação aplicável e que a complexidade da investigação pode justificar a prorrogação do prazo quando o investigado está solto.
“Esses prazos, entretanto, podem variar conforme a legislação aplicável. Nos procedimentos que tramitam na Justiça Federal, por exemplo, existem regras específicas. Além disso, nos casos em que o investigado está solto, a complexidade da investigação pode justificar a necessidade de prorrogação do prazo. Nessas situações, a autoridade policial pode solicitar mais tempo para concluir as diligências, desde que apresente fundamentação específica para justificar a prorrogação”, completou.
Nos casos de pessoas desaparecidas, o advogado destaca que existe uma particularidade: a necessidade de proteger a vida e a integridade física da pessoa. Por isso, a investigação não fica necessariamente limitada ao prazo ordinário de 30 dias e deve continuar pelo tempo necessário até que a pessoa seja localizada ou surjam elementos que permitam a adoção de medidas judiciais.
“O bem jurídico que precisa ser protegido é, sobretudo, a vida e a integridade física da pessoa. Por isso, a investigação não fica necessariamente limitada ao prazo ordinário de 30 dias. O inquérito deve permanecer em andamento pelo tempo necessário à realização das investigações, até que a pessoa seja localizada ou que surjam elementos que permitam a adoção das medidas judiciais cabíveis”.
Daniel também esclarece que a morte presumida somente pode ser reconhecida pelo Poder Judiciário, observadas as hipóteses e os requisitos legais. Portanto, enquanto não houver uma definição judicial, a investigação deve continuar.
“É importante destacar que a morte presumida somente pode ser reconhecida pelo Poder Judiciário, observadas as hipóteses e os requisitos legais. Portanto, enquanto não houver uma definição judicial, a investigação deve continuar, com a realização de diligências, a apuração de novas informações e a verificação de eventuais elementos que possam esclarecer o desaparecimento”, afirmou.
O que dizem as autoridades
Segundo o Ministério Público, a 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Territorial do Núcleo São Gonçalo informou que o inquérito que investiga a morte de Bruno está em diligência, com o objetivo de esclarecer os fatos e identificar a autoria.
A Polícia Civil informou que o caso de Polyanna já foi encaminhado ao Ministério Público. Procurado, o órgão não conseguiu fornecer informações sobre o andamento do procedimento.
Sobre o caso de Jennifer, a Polícia Civil informou que diligências estão sendo realizadas por agentes da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo.