Cresce o número das damas do tráfico no estado do Rio

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“Não adianta colocar a culpa da prisão na falta de oportunidade. O que falta para quem, assim como eu, entrou no crime organizado é vergonha na cara e saber que não dependemos de homem, ainda mais sendo traficante. Na hora de ganhar as roupas da moda é fácil, todo mundo é feliz”.

V.A.P.S, 27 anos, ex-detenta acusada de tráfico de drogas em São Gonçalo
Carteado do crime: cresce o número das damas do tráfico no estado do Rio
Número de mulheres detentas em todo o país aumentou em 560% nos últimos vinte anos. Foto: Divulgação

Fama, ostentação, roupas de grife, carros de luxo e a falsa ilusão de uma vida digna. Quem são as mulheres, cada vez mais reféns da vaidade oferecida por criminosos, que vêm provocando uma verdadeira avalanche ‘cor de rosa’ nas penitenciárias do Brasil?

Dados divulgados pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen) revelam que, nos últimos 20 anos, o número de pessoas do sexo feminino reclusas em presídios espalhados por todo o país aumentou 560%. No final de 2020, mais de 36,9 mil mulheres constavam no sistema carcerário, número bem maior as 5.601 existentes no ano de 2000.

Uma das mulheres que contribuíram para esse crescimento é V.A.P.S, de 27 anos, presa em setembro de 2015, durante uma incursão policial na comunidade da Viúva, em São Gonçalo. Ela, que mantinha uma relação amorosa com um dos traficantes da comunidade na época, acabou sendo surpreendida por policiais militares do Batalhão de São Gonçalo (7ºBPM) e teve a vida de luxo substituída pela miséria em um presídio localizado em Bangu, na Zona Oeste do Rio.

“Não posso negar, tive o que eu não teria trabalhando de carteira assinada. Mas do que vale? Acabei ficando presa por dois anos e meio e quando saí encontrei um mundo fechado para mulheres que saíram da cadeia. Desde então, penso sobre o meu passado e tento buscar forças para seguir. Na hora de colocar uma pistola na cintura e falar: ‘sou mulher do chefe e sou intocável’ ,é fácil. Agora quero ver assumir a culpa e batalhar por uma vida correta, e sem ter medo de ser surpreendida pela polícia dentro da própria casa”

Atualmente V.A.P.S se sustenta vendendo produtos de beleza.

Cartas na mesa

aumento de mulheres na cadeia
Mais de 67% das presas tinham a cor de pele preta ou parda, o que representa mais de cerca de 25 mil mulheres. Foto: lucas benevides

Das quase 37 mil mulheres que constavam no sistema carcerário do Brasil no final de 2020, mais de 21 mil estavam reclusas pelo crime de tráfico de drogas, o que representa cerca de 58% das prisões. Na sequência, vinham roubos com 14% das presas (5.179), homicídios com 8% (2.959) e os outros crimes, juntos, somavam 20% das detentas de todo o país. Outro dado relevante feito pelo Depen revelou que mais de 67% das presas tinham a cor de pele preta ou parda, o que representa mais de cerca de 25 mil mulheres que se denonimam como sendo dessas raças reclusas em penitenciárias. Pessoas do sexo feminino de cor de pele branca somavam 32% (11.839 brancas presas), amarelas com 1% (370 presas) e 0,3% de cor indígena (110).

Educação

Com relação ao nível de escolaridade, as mulheres que não concluíram o Ensino Fundamental representam a grande maioria das reclusas no país com cerca de 44%, o equivalente a mais de 16 mil mulheres que não chegaram até o 9º ano do Ensino Fundamental. Em seguida, estão as pessoas do sexo feminino que conseguiram concluir o Ensino Fundamental com 31% (11.469), Ensino Médio Completo (18%), Alfabetizada Sem Cursos (3%), Superior Completo (2%) e Analfabeta (2%).

O sociólogo Rafael Mello da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acredita que existem diversos fatores que contribuem para esclarecer o fenômeno da migração de mulheres para o crime organizado.

“Acredito que devem exister medidas socioeducativas, políticas públicas de incentivo, ensino sobre educação sexual, empoderamento, etc. A partir do momento que as mulheres começarem a ter esses ‘ensinamentos’ na sua menoridade, esse fenômeno de migração para o crime acaba diminuindo, pois a própria mulher saberá os seus direitos e deveres. É preciso entender que até o próprio meio em que a pessoa vive acaba por influenciar nessas escolhas, isso vai da questão do genêro até a falta de empregabilidade”

Diferentes naipes

Engana-se quem pensa que a participação de mulheres esteja restrita apenas ao tráfico de drogas e submissão a líderes do crime organizado. Segundo o especialista e comentarista em Segurança Pública, José Ricardo Bandeira, mulheres também podem exercer diversas funções, na grande maioria de forma coadjuvante, sendo utilizadas para transportar drogas e armamentos, por exemplo, além de funcionarem como espécie de ligação entre os criminosos presos e traficantes soltos.

“A forma com que é recrutada acontece em razão de uma possível miserabilidade e dificuldades financeiras, principalmente mulheres negras que formam a maioria nas comunidades. Além disso, algumas delas acabam criando um laço afetivo com os criminosos, o que acaba dificultando sua saída do crime”

Mulher presa transportando drogas do Complexo da Penha para Rio das Ostras, em junho. Foto: PMERJ

Outra forma de atuação feminina na criminalidade é o tráfico de drogas internacional, quando a mulher acaba atuando de forma igualitária com os homens. Segundo Bandeira, nesses casos, não existe a questão emocional e essas criminosas acabam por se utilizar de uma característica física e psicológica para o transporte de grande quantidade de drogas no interior do corpo e em malas.

“Nesse quesito do tráfico internacional e entre estados, as mulheres acabam por lucrar bastante. Elas mesmas criam a ligação e são responsáveis pelo transporte, obtendo lucro total da prática ilegal. É importante ressaltar que, além disso, existem mulheres que possuem outras funcões como contabilidade do tráfico, responsabilidade por cobranças sobre serviços irregulares, entre outras atividades”

As cartas procuradas

Pelo menos 24 mulheres, entre os 369 cartazes de traficantes no estado, são listadas no portal Procurados. Entre elas, está Eduarda dos Santos Lopes, a Duda da Rocinha, filha de Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, acusada de tentar retomar pontos de drogas da comunidade que rende apelido do pai, na Zona Sul do Rio. Outras mulheres procuradas pela polícia são Amanda Oliveira de Almeida, a Chefinha, e Richele da Silva Neres, a Chefona, sogra e nora, que integram uma das maiores organizações criminosas em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

No Leste Metropolitano, cinco mulheres são procuradas pela polícia em São Gonçalo, Niterói e Itaboraí. No Morro do Cavalão, em Icaraí, na Zona Sul de Niterói, duas integrantes do tráfico de drogas são investigadas pela Polícia Civil. São elas, Jaqueline Tavares de Medeiros, a Jaqueline, de 37 anos, e Ana Mary Tavares Medeiros, a Ana Mary, de 38 anos, esposa e cunhada de Anderson Rodrigues França, o Goelão, preso em junho de 2019. As duas seriam responsáveis por auxiliar as lideranças do tráfico naquela região na parte da administração de finanças da criminalidade de uma das principais comunidades do município.

morro do cavalão
Duas criminosas são investigadas pela polícia no Morro do Cavalão, em Icaraí. Foto: Vítor Soares

Também, em Niterói, Tatiana de Azevedo Maciel, a Tati, é acusada de ligação com o traficante Antônio Jorge Gonçalves dos Santos, conhecido como Tony ou Senhor das Armas. Ele foi preso em 2009, dentro de um shopping na cidade de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Ele era considerado um dos principais fornecedores de armas para as favelas cariocas.

Em São Gonçalo, a procurada é Cristiane Ferreira, a Cristiane do Jardim Catarina, acusada de ser a tesoureira de traficantes de drogas do Jardim Catarina. Segundo a polícia, ela tinha ligações com um comerciante do bairro, preso em junho de 2019, sob acusação de ser um dos responsáveis por ‘lavar’ o dinheiro de diferentes comunidades do tráfico em São Gonçalo.

Em Itaboraí, Rosane Moreira da Silva da Conceição Almeida, a Tia, é acusada de ter ligação a um grupo paramilitar que age no bairro Porto das Caixas, em Itaboraí. Ele é acusada de gerenciar a milícia do bairro de Visconde. O posto de chefe da quadrilha pertencia ao miliciano Renato Nascimento dos Santos, o Renatinho Problema, até sua prisão em dezembro de 2018. Depois, comparsas começaram a disputar o posto de chefe.