Criação de liga no futebol nacional pode ser divisor de águas – para o bem ou para o mal

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Fluminense foi o primeiro campeão da fracassada Primeira Liga do Brasil. Foto: Mailson Santana/FFC

Surgiu nos últimos dias, através dos noticiários do mundo da bola, a possibilidade da criação de uma liga independente, administrada pelos clubes, para gerenciar o futebol brasileiro. No mundo ideal, esta seria a melhor das ideias; mas será que funcionaria na prática dentro do complexo cenário nacional?

A intenção de descentralizar o poder passa necessariamente por tirar o destino do futebol nacional das mãos da Confederação Brasileira de Futebol – e isso é excelente. Não é de hoje que a evolução coletiva do esporte deixou de ser prioridade dentro da CBF. Poder, negócios, interesses, lucro… Tudo isto vem antes na cabeça de nossos cartolas; o que tem, como consequência, a enorme e inescrupulosa briga política – da qual só enxergamos a pontinha do iceberg.

A união dos clubes através do viés profissional também é uma urgência para desestagnar todo o potencial que possuímos dentro e fora de campo. Jogadores, arenas, técnicos, diversidade. Tudo no Brasil é uma mina de ouro para o esporte. Mas falta maturidade e, sobretudo, visão de futuro. Nossas instituições, principalmente as grandes, não conseguem dar passos lado a lado sem ter vontade de passar a perna no vizinho. É inerente à nossa cultura enquanto sociedade.

O grande exemplo disso é a Primeira Liga, competição que teve seu embrião parido em 2015, ainda como Copa Sul-Minas-Rio, reunindo todos os insatisfeitos com a condução do Campeonato Brasileiro – mas foi incapaz de sobreviver por tempo suficiente para ser relevante, anunciando o seu encerramento em 2019. Apelidado carinhosamente de “Primeira Ninguém Liga”, o torneio chegou ao fim por conflito de interesses nos bastidores, já que os clubes são incapazes de dialogar, querendo puxar para si as maiores fatias ao invés de pensar na competitividade.

Olhando em macro, podemos enxergar o efeito da Premier League sobre o futebol inglês. Um projeto absolutamente revolucionário, lucrativo e globalizado – mas que só foi à frente diante do interesse geral em um campeonato igualitário, com uma divisão justa de todas as rendas, possibilitando que até as equipes menores possam competir em pé de igualdade. Houve sabedoria. Houve inteligência. Houve fair play. Tudo o que não há em solo brasileiro.

Segundo a ESPN Brasil, já há um documento assinado por 19 das 20 equipes do Brasileirão – com exceção do Sport, que ainda não rubricou por problemas jurídicos em sua cadeira presidencial. Ou seja: inicialmente, todos são a favor. Mas até quando? Sob quais perspectivas? Quem irá organizar? De onde vem o dinheiro?

Enfim, o debate é muito mais amplo do que “vamos implodir esta instituição falida moral e politicamente que é a CBF”. É preciso ter um plano muito bem desenhado e condições explícitas para que ninguém saia prejudicado depois – senão, na prática, apenas pularemos de um buraco para o outro, vendo a luz do sol por apenas alguns segundos.

A criação de uma liga independente pode ser a solução – mas também pode ser o fim de tudo. Não há mística e tradição suficientes que segurem uma crise política e identitária após a quebra do protocolo. Em caso de rompimento com a CBF – e consequentemente com as falidas federações estaduais – o caminho não terá volta. E a sobrevivência do futebol brasileiro dependerá unica e exclusivamente da organização entre as diferentes camisas. E este é justamente o problema.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneiros regionais.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneios regionais.