Skip to content
Julinho Nascimento é mestre-sala da Viradouro. Foto: Arquivo pessoal

Mesmo de luto, Julio Nascimento, o Julinho, promete entrar na Marquês de Sapucaí com a alma inteira no samba, no próximo dia 16. Aos 52 anos, o mestre-sala da Viradouro tem transformado a dor em entrega e faz do Carnaval um ato de amor, fé e resistência.

Este ano, a escola de Niterói vai transformar a avenida em palco para celebrar a trajetória, a ousadia e o legado de Mestre Ciça, um dos maiores nomes da história do samba.

Às vésperas de um dos momentos mais importantes da temporada, o Julinho recebeu a notícia que nenhum irmão está preparado para ouvir: Edson Ney da Conceição Nascimento, de 54 anos, morreu no último domingo (1º) após uma parada cardiorrespiratória, em decorrência de pneumonia bacteriana associada à diabetes mellitus.

Cena repercutiu nas redes sociais. Vídeo: Reprodução / Mayara Melo

Faltavam poucos minutos para o artista pisar na Passarela do Samba, no ensaio técnico do dia 1º, quando o telefone tocou. Mesmo devastado, ele não hesitou: cumpriu a agenda profissional e foi aplaudido pelo profissionalismo e pela postura exemplar.

“Esse meu Carnaval será pela memória do meu irmão, grande amigo. Que Deus me permita realizar com êxito essa homenagem. Quero dar 101% por ele, mesmo diante de qualquer circunstância que venha surgir. Ele merece”, disse Julinho ao Enfoco.

O mestre-sala da Viradouro confessa não estar sendo fácil encarar a perda do irmão, conforme lembra, “que foi um grandioso diretor de harmonia, e bem conhecia o que representa essa festa e esse período de preparação”, acrescenta.

Julinho destaca a parceria que tinha com Edson Ney:

“Meu grande amigo, um pedaço de mim que se foi pra junto de Deus, de maneira tão inesperada”, desabafa.

Desde aquele dia, Julio vive um turbilhão de sentimentos:

“Tenho vivido uma dor muito grande, a tentativa de assimilar esse golpe duro da vida, mas ao mesmo tempo um turbilhão de emoções que somente o Carnaval é capaz de proporcionar.”

Trajetória

Morador de Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio, ele é marido de Vanessa Antunes, de 49 anos. Julio é pai de Jorge Henrique, de 17, e Pedro Henrique, de 13, frutos de outro relacionamento. Fora da avenida, é um homem de família. Dentro dela, é sinônimo de tradição, respeito e devoção ao samba.

O vínculo com o Carnaval vem de longe. Julio desfila desde 1986, quando ainda menino estreou como mestre-sala na escola mirim Corações Unidos do CIEP.

Desde então, construiu uma trajetória marcada por estudo, disciplina e entrega total à arte. Formado em Licenciatura Plena em Educação Física e Desportos pela UERJ, ele levou o samba para a academia: seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi sobre “A Dança do Samba”.

“Acredito que a dança é reflexo da alma, quando há uma verdadeira entrega artística, pessoal e espiritual”, define.

Essa formação influencia diretamente sua atuação na avenida, onde desfila ao lado da porta-bandeira Rute Alves. Para Julio, ser mestre-sala vai muito além do figurino e dos passos ensaiados.

Dança que liberta

Mesmo em meio ao luto, ele segue firme na rotina intensa de ensaios.

“Ao mesmo tempo que se torna difícil dar conta de tantos compromissos em meio a uma perda irreparável, vivo momentos de inteira satisfação quando estou dançando. Isso alimenta minha alma e diminui essa dor no peito.”

A força também vem do carinho recebido. Desde o ensaio técnico, Julio tem sido acolhido por mensagens de apoio e respeito.

“Isso tem me dado forças para superar os momentos difíceis. Meu irmão não admitiria de forma alguma que eu esmorecesse nessa reta final de preparação.”

Edson Ney, apesar de afastado das atividades carnavalescas por motivos pessoais, foi diretor de harmonia e conhecia profundamente o peso e a grandeza do Carnaval, conforme lembra Julio.

Arte de ensinar

Além da avenida, Julio atua na coordenação do Projeto Samba Pass, através da Secretaria Municipal de Esportes do Rio e Fundação João Goulart. Para ele, a arte ensina todos os dias e o samba eleva. “É uma troca mútua de formações, vivências pessoais e profissionais”, acrescenta.

Desfile oficial

Agora, todas as emoções se concentram no desfile oficial da Viradouro, marcado para o dia 16 de fevereiro. A Vermelho e Branco de Niterói será a terceira agremiação a desfilar.

“Creio que Deus está me preparando mais uma vez para viver uma entrega emocional e espiritual naquele solo sagrado, levando uma mensagem de respeito e entrega absoluta, de paz, de amor, de felicidade a quem me assistir, e que meu bailado em minha passagem, possa confirmar a missão enquanto guardião direto de minha Porta-bandeira [Rute Alves] e de meu Pavilhão, os honrando e os protegendo, na tentativa de preservar um legado tão importante de nossa cultura”, finaliza Julio Nascimento.

Ezequiel Manhães

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3