Manguezal de sangue em SG: ‘Nessa guerra quem perde são as famílias’

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Publicada ás 17h24… Atualizada ás 19h54….

Manguezal de sangue
Familiares fizeram o reconhecimentos dos corpos. Foto: Marcelo Tavares

A forma como se deram as mortes no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, é apenas uma das etapas para trazer à tona o que realmente aconteceu na noite deste domingo (21). Até o inicio da tarde desta segunda-feira (22), oito homens foram encontrados mortos em área de manguezal, na localidade conhecida como Palmeira, após o intenso confronto envolvendo policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (BOPE).

Entre os mortos já foram identificados Elio da Silva Araújo, de 53 anos, David Cunha, de 23 anos, Jhonathan Klando Pacheco de 27 anos,David Wilson de Oliveira ce 22 anos, Rafael Menezes Alves de 27 anos, K.B.G.M de 17 anos, Carlos Eduardo Curado de Almeida, de 31 anos e Itálo George Barbosa Gouveia Rosse de 32 anos.

De acordo com a Polícia Civil, dos sete identificados, apenas dois não tinham anotações criminais. Um deles era o adolescente de 17 anos.

Um dos primeiros a chegar no local e se deparar com os corpos amontoados foi um leiturista, de 51 anos, que preferiu ter a identidade preservada. Ele afirmou que entre os mortos, estavam envolvidos com tráfico de drogas e outros que não possuíam qualquer ligação com o crime.

“Meu cunhado foi retirado de casa e brutalmente assassinado no manguezal. Ele era inocente e não tinha porque fazer isso com ele. Queremos justiça! Isso não pode ficar assim”

O eletricista Elio Araújo também está entre os alvos que moradores garantem ser inocente. Ele morava na região há mais de dez anos. A irmã da vítima, a dona de casa Cleonice Araújo saiu de Maricá para reconhecer o corpo do próprio irmão, que estava ao lado das outras sete pessoas cobertas por um lençol, na Rua Pedro Anunciato da Cruz.

depoimento da familiar de David Cunha, encontrado morto no manguezal

“Até quando seremos vítimas de uma polícia que serve para dar segurança e acaba ceifando a vida de inocentes, trabalhadores? Meu irmão era muito conhecido aqui e quem sofre é a família. Não adianta falar que teve troca de tiros, não houve troca de tiros. Quem morreu, morreu com medo da polícia e ficaram presos no manguezal. É muito triste ter que conviver com isso tudo. Famílias choram enquanto as forças de segurança ‘celebram’ a revanche pela morte do PM”

Outra vítima é o garçom Rafael da Silva que, segundo os moradores, também não possuía qualquer ligação com o tráfico de drogas do Complexo do Salgueiro. Durante a manhã desta segunda-feira (22), a irmã, Milena Damasceno, esteve no local para fazer o reconhecimento do corpo e não conteve às lágrimas.

“Meu irmão era trabalhador e nada tinha com o tráfico. Nem todo mundo que mora na comunidade deve ser tratado como lixo. Aqui moram pais de famílias, gente do bem. Nessa guerra entre a PM e o tráfico quem perde são as famílias. Não existe fazer uma operação dessa e tirar a vida de pedreiros, eletricistas, gente do bem. Não aceitamos covardia. O Complexo do Salgueiro pede paz”

Com a vaquinha de vizinhos, a irmã do adolescente Kauã Bremer Gonçalves Miranda de 17 anos um dos mortos, precisou pedir dinheiro emprestado para ir até a Divisão de Homicídio de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) prestar depoimento.

“Eu não estou acreditando que fizeram isso com meu irmão. Minha mãe está grávida de quatro meses e ficou desesperada. Além dela, tem o meu irmão mais novo de 12 anos que acabou vendo aquela cena com umas das pessoas que ele mais amava. Imagina o impacto disso na vida de uma criança. Nós não estamos acreditando que ele se foi. È preciso que o estado entenda que na favela, também vive gente do bem. O que as pessoas não sabem é que lá dentro os moradores sofrem consequências de uma guerra que não é nossa”, disse a adolescente de 15 anos que teve a sua identidade preservada.

Desaparecidos

Manguezal de sangue
Número de mortes pode subir, já que moradores afirmam existir desaparecidos na região. Foto: Marcelo Tavares

Além dos corpos encontrados, familiares denunciam pelos menos dez pessoas desaparecidos na área do manguezal. Entre eles o pai de uma jovem, de 21 anos, que, desesperada, buscava informações. Emocionada e esperançosa, a jovem, que preferiu ter a identidade preservada, afirmou que ainda acredita que o pai esteja vivo.

Perícia

Outro ponto levantado pela comunidade é sobre a demora para remoção dos corpos das vítimas. Segundo moradores, o Corpo de Bombeiros foi acionado ainda no fim da noite deste domingo (21), mas informaram que não poderiam entrar pela área estar em recente período de conflito bélico. A associação de moradores da região divulgou nota cobrando por um posicionamento dos Bombeiros sobre a falta de solução para o problema.

Uma outra reclamação dos moradores diz respeito a depredações em um estabelecimento comercial da Palmeira. Denúncias apontam que após a operação, um grupo de policiais militares do Bope teria arrombado a porta de um bar, consumido bebidas e deixado um recado com dizeres referentes a outros grupos criminosos.

Investigação

Manguezal de sangue
DH descarta hipótese de tortura, Foto: Arquivo

Por volta das 11h45, uma megaoperação entre as polícias Militar e Civil foi realizada para a entrada de policiais da Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo (DHNISG) realizarem a perícia no local onde os corpos foram despejados pelos próprios moradores, após serem encontrados no manguezal.

Responsável pela investigação, o delegado Bruno Cleuder descartou a possibilidade de ter ocorrido tortura. Familiares chegaram na tarde desta segunda, na sede da Divisão de Homicídios para prestar depoimento.

Segundo a distrital, algumas das vítimas tinham passagem pela polícia, no entanto os nomes não foram confirmados.

Sobre as lesões nos corpos, a polícia informou que pela perícia a maioria das lesões seria resultado de armas de calibre 762.

A polícia no entanto, disse que vai trabalhar para identificar quais os policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar estiveram no local. Posteriormente, eles (policiais) serão convocados a prestar depoimento. A Polícia diz que também vai ouvir testemunhas e que todos esses elementos ajudam a reconstruir o cenário e entender como tudo aconteceu.

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro instaurou inquérito para apurar as mortes na comunidade. Segundo a polícia, quatro dos oito corpos encontrados são ligados a criminalidade e usavam roupas camufladas, vestimenta utilizada por criminosos para se esconder em áreas de mata, controlada pela facção criminosa Comando Vermelho (CV).

Bruno Cleuder, delegado titular da especializada disse que ainda essa semana o laudo das roupas que vai apontar quem estava usando traje camuflados deve ficar pronto.

Colaborou Lislane Rottas