Precisamos falar sobre o Botafogo e seu profissionalismo gourmet

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
O Alvinegro tem, hoje, uma equipe pouquíssimo competitiva. Foto: Divulgação

Hoje é dia de falar do Botafogo de Futebol e Regatas. Um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro, base das seleções brasileiras que ajudaram a construir o DNA nacional, dono de uma historia riquíssima em ídolos e que, hoje, definha ao viver alguns de seus anos mais obscuros, dramáticos e sofridos.

Particularmente, tenho prioridade para falar do assunto. Sou torcedor do clube desde que me entendo por gente. Mas nem precisaria ser; qualquer um que seja apaixonado por futebol tem consciência de que a Estrela Solitária já não brilha mais da mesma forma há, pelo menos, duas décadas. E, mesmo para um clube tão supersticioso, não é possível basear este fracasso apenas no sobrenatural. Longe disso.

O Alvinegro tem, hoje, uma equipe pouquíssimo competitiva. Uma base de torcedores fanáticos cada vez menor, pois, logicamente, a arquibancada não se renova sob fracasso constante. Um panorama que o coloca atrás de todos os outros 11 grandes em representatividade – e até de clubes emergentes, como Athletico-PR, Red Bull Bragantino, Chapecoense, Ceará e Fortaleza.

Desde o último título de expressão do clube, em 1995, seu povo assistiu, calado, pelo menos uma conquista marcante de cada um dos gigantes brasileiros; além deles, Juventude, Paulista Jundiaí, Santo André e Sport também foram campeões. Como bem diz uma faixa, exposta por torcedores há alguns anos no Estádio Nilton Santos, “Não há clube que resista a tamanha falta de ambição”.

Faixa já ocupa as arquibancadas há mais de dez anos. Foto: Reprodução

Nesta virada de ano, porém, venceu a chapa que defendia o profissionalismo. A última esperança, o último resquício de oxigênio do Botafogo seria abandonar o amadorismo através de uma ruptura forte, que não deixasse mais nenhum vínculo. E essa era a promessa do presidente Durcésio Mello e seus comandados.

A torcida acreditou. Abraçou a ideia. Sonhou, diante das tratativas pela transformação em clube-empresa, com dias melhores. Equipes fortes, campanhas consistentes, conquistas de títulos; o tradicional Botafogo pelo qual se apaixonaram mas que, há muito tempo, simplesmente deixou de existir. Desintegrou, esfarelou, se decompôs em ruínas. E, em seis meses, tiveram seu delírio furtado.

Na exata primeira oportunidade de provar que as coisas vão mudar, logo no início de uma longa reconstrução, o torcedor vê o jovem Paulo Victor, o PV, recém-chegado e já dono da lateral-esquerda, um dos melhores jogadores de um elenco nada mais que aceitável, ir embora por troco de pão. Da mesma forma como os novos dirigentes, vulgo “profissionais”, prometeram não repetir.

Preço de banana

Vou usar a frase do dirigente: “O Durcesio [Mello] fala que acabou a época de vender um jogador por duas mariolas e uma paçoca no Botafogo. E por que isso? É o imediatismo. Nós estamos precisando de dinheiro igual às outras gestões, urgente. Aí o mercado olha para isso, oferece duas mariolas. A gente sabe que precisa, mas precificamos o elenco. Nós temos um parâmetro de venda dos principais jogadores, uma ideia”, disse o vice-presidente geral do clube, Vinicius Assumpção, na cerimônia de posse da nova gestão.

O jovem foi vendido ao Internacional por R$ 5,2 milhões – valor a ser dividido meio a meio com o Nova Iguaçu, dono de parte do passe. Ou seja, R$ 2,6 milhões para os cofres alvinegros. Quantia que mal paga um mês de folha salarial, mas deixa um buraco enorme no grupo comandado pelo técnico Marcelo Chamusca.

Em paralelo, o clube também se desfez do zagueiro Sousa, outra cria das categorias de base, por cerca de 500 mil euros (cerca de R$ 3 milhões) pelo empréstimo ao Cercle Brugge, da Bélgica. Titular em diversos momentos da temporada, o garoto era o reserva imediato da dupla Kanu e Gilvan – que, agora, fica desguarnecida dentro de um longo campeonato de 38 rodadas.

Essa é só a ponta do iceberg. O ponto aqui é: que profissionalismo é este que sequer mede os problemas imediatos criados por novas vendas irresponsáveis? Quem são esses profissionais que repetem os erros de 2020, 2019 e 2018, criando rombos no elenco através de vendas a preço de banana? Onde estão todas as promessas, relegadas na primeira oportunidade assim como sob os (des)mandos dos tão criticados amadores?

Sequer sabem o significado do termo “profissional”. São apenas mais alguns aventureiros, bem como os que ajudaram a destruir completamente o clube de General Severiano desde o início do século XXI. São todos iguais. Durcésio Mello, Vinícius Assumpção, Nelson Muffarrej, Ricardo Rotenberg, Carlos Augusto Montenegro, Carlos Eduardo Pereira, Luiz Fernando Santos, Maurício Assumpção e todos os outros. Que sejam lembrados, um por um, como responsáveis pelo naufrágio de uma das maiores instituições esportivas do Brasil.

Loucos apaixonados

O Botafogo, hoje sub a conduta do profissionalismo gourmet, em nada lembra o Glorioso de João Saldanha, Bebeto de Freitas, Túlio Maravilha, Garrincha, Nilton Santos, Armando Nogueira, Heleno e tantas outras figuras emblemáticas. O duro é aceitar este processo e, pior, explicá-lo aos mais novos. Como fazê-los entender que este amontoado de incompetentes dos dias atuais já foi, em longínquos tempos, um dos maiores clubes do país do futebol?

Renunciem. A vergonha será menor a cada dia a menos com vocês no salão nobre da sede alvinegra. Em meio a uma guerra a ser lutada contra tantos adversários, cruel em alguns momentos, impiedosa em outros, diante de uma Série B amarga e complexa, o Botafogo não precisa também de cavalos de tróia.

O Alvinegro respira por aparelhos, mas ainda não precisa desligá-los. Ao lado do leito está seu povo. Irrepreensível, leal, probo, honrado. Não são apenas apaixonados, são loucos. Não são somente fiéis, são intrínsecos. Jamais desistiriam. Não por vocês, mas pela Estrela. A historia há de conspirar.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneiros regionais.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneios regionais.