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Niterói

Projeto de professora em comunidade de Niterói ganha prêmio nacional

André Silva | Publicado em:

Projeto social do Morro do Palácio ganha prêmio nacional e amplia atuação em Niterói
Oficina Nossa surgiu na pandemia para combater defasagem escolar e hoje atende dezenas de famílias - Foto: Divulgação

No alto do Morro do Palácio, em Niterói, Região Metropolitana do Rio, um projeto que começou de forma improvisada para ajudar crianças fora da escola atravessou a pandemia, cresceu dentro da própria comunidade e agora ganhou reconhecimento nacional. A ‘Oficina Nossa’ foi uma das iniciativas premiadas no Prêmio Periferia Viva 2025, do Ministério das Cidades, voltado a ações que transformam territórios populares.

Criada pela professora e moradora Walkiria Nictheroy, a iniciativa surgiu no período em que escolas estavam fechadas e muitas famílias não tinham acesso ao ensino remoto. Diante do aumento da defasagem escolar, a educadora mobilizou voluntários e organizou atividades de reforço dentro da favela. O primeiro espaço foi o salão de festas da comunidade, adaptado para receber as crianças.

Com o tempo, o projeto deixou de ser uma resposta emergencial e passou a atuar de forma estruturada. Hoje, a Oficina Nossa funciona em um espaço comunitário ligado à ONG A Base Cultural do Palácio, atendendo cerca de 60 famílias e já com atuação em dois territórios, incluindo um novo polo no Viradouro, no bairro Santa Rosa.

Educação e cultura na periferia

Além do reforço escolar, a iniciativa reúne atividades culturais, ações educativas e propostas voltadas ao fortalecimento da identidade local. A ideia, segundo a fundadora, é que o aprendizado dialogue com a realidade das crianças da periferia.

“A gente queria garantir um espaço seguro de aprendizagem, onde elas pudessem se reconhecer e aprender com referências próximas da própria vivência” — Walkiria Nictheroy, educadora.

Reconhecimento nacional

O reconhecimento veio em meio a uma disputa nacional. Nesta edição do prêmio, foram mais de 2,5 mil projetos inscritos em todo o país, com 178 selecionados. A cerimônia ocorreu durante o Encontro Nacional de Periferias, em São Paulo, que reuniu representantes de centenas de comunidades.

“Para as crianças da periferia, muitas vezes a escola regular não consegue dar conta de tudo. A gente não culpabiliza a escola, mas entende que é preciso olhar para a realidade de cada aluno, para o território onde ele vive, e trabalhar a partir disso”, completou.

Apoio a Oficina Nossa

Projeto educacional de favela de Niterói ganha destaque nacional
Premiada pelo Periferia Viva, iniciativa atua com crianças e jovens – Foto: Instagram

Para a educadora, a premiação representa mais do que um título. “Receber o prêmio é um reconhecimento da cidadania do projeto. A gente enfrenta muitas dificuldades para manter tudo de pé. Isso mostra que é um trabalho sério, com metodologia, com planejamento e que tem impacto real”, disse.

Ela também destacou que o apoio financeiro e a visibilidade ajudam a garantir a continuidade das atividades. “Foi um respiro. A gente vive de editais, de doações, de mobilização coletiva. Esse reconhecimento abre portas e fortalece a confiança de quem apoia”, afirmou.

A trajetória da Oficina Nossa também inclui parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), iniciada em 2023, que ampliou as ações em áreas como arte, juventude, memória e organização comunitária.

Mesmo com a expansão, o projeto mantém a lógica de atuação baseada na mobilização local. Campanhas de arrecadação, contribuições via Pix e apoio de parceiros são as principais formas de financiamento.

Walkiria afirma que a proposta vai além da sala de aula. “A gente quer discutir a educação na periferia, mostrar que é preciso olhar para a realidade dessas crianças. Não é sobre substituir a escola, mas sobre complementar e trazer outras possibilidades”, explicou.

Impacto da premiação

A premiação também aumentou a responsabilidade da equipe. “Agora a gente precisa mostrar ainda mais consistência. É manter o rigor pedagógico e seguir ampliando o impacto”, disse. “A partir do momento em que um órgão nacional reconhece o projeto, a gente passa a disputar outros espaços, com mais legitimidade. Isso muda o cenário para quem constrói o projeto e para quem apoia.”

O reconhecimento nacional, segundo ela, também reforça a importância das iniciativas que nascem dentro das próprias comunidades. “Quando a gente encontra outros projetos, vê que não está sozinho. Existe uma rede tentando transformar a realidade da periferia”, afirmou.

A Oficina Nossa segue em expansão, com a meta de alcançar outros territórios. Para a fundadora, o caminho passa por estudo, articulação e persistência. “A gente precisa entender como acessar recursos, construir parcerias e ocupar espaços. É assim que a periferia consegue avançar”, concluiu.

André Silva

Bastante ativo na cobertura cultural, ja foi contemplado com o Prêmio Themis de Jornalismo, concedido pelo TJRS. Além da cultura, caminha por várias editorias, inclusive em cobertura de eventos internacionais, como a Cúpula do G20 e o encontro dos Brics. Instagram: @andrre.sillva

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