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Bactéria resistente a antibióticos é encontrada em produtos da Ypê

Redação | Publicado em: - Atualizado 5 meses atrás

Bactéria encontrada em produtos da Ypê é resistente a antibióticos, alertam médicos
Anvisa determinou recolhimento de detergentes, desinfetantes e sabões líquidos com lote final 1 - Foto: Divulgação / Ypê

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de determinar o recolhimento de produtos da Ypê após a identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa acendeu um alerta entre especialistas sobre os riscos da contaminação, principalmente para pessoas com o sistema imunológico comprometido. A bactéria, segundo infectologistas e patologistas ouvidos pela Agência Brasil, tem alta resistência a antibióticos e pode provocar infecções graves em ambientes hospitalares.

A medida anunciada pela Anvisa nesta quinta-feira (7) atinge detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca com numeração final de lote 1. Os produtos não poderão mais ser utilizados pelos consumidores e deverão ser recolhidos.

O infectologista Celso Ferreira Ramos Filho afirmou que a Pseudomonas aeruginosa é considerada uma bactéria ambiental e consegue sobreviver em locais úmidos, como água, esponjas de cozinha e panos de limpeza. Segundo ele, embora raramente provoque doenças espontaneamente em pessoas saudáveis, o micro-organismo representa risco elevado em ambientes hospitalares.

“Ela costuma causar doenças em pacientes internados, pessoas com traqueostomia, respiradores ou cateter venoso. É uma bactéria muito resistente aos antibióticos”, explicou o médico à Agência Brasil.

Membro titular da Academia Nacional de Medicina e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Celso Ferreira disse ainda que a bactéria é de “vida livre”, diferente de outras que vivem naturalmente no organismo humano, como a Escherichia coli.

Característica

Segundo especialistas, a Pseudomonas aeruginosa pode causar desde infecções urinárias até complicações respiratórias em pacientes com doenças pulmonares crônicas, como enfisema. Pessoas em tratamento contra câncer, submetidas à quimioterapia ou que utilizam dispositivos invasivos também fazem parte do grupo de maior risco.

“Quando há um comprometimento prévio da saúde, a possibilidade de infecção aumenta”, afirmou Celso Ferreira.

A professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), Raiane Cardoso Chamon, destacou que o problema se agrava quando a bactéria circula em hospitais, onde há uso frequente de antibióicos e maior seleção de cepas resistentes.

Pessoas imunocomprometidas

Raiane Chamon explicou que pacientes imunocomprometidos estão mais vulneráveis às infecções causadas pela bactéria. Segundo ela, pessoas com fibrose cística, por exemplo, frequentemente desenvolvem quadros de pneumonia associados à Pseudomonas aeruginosa, que costumam ter tratamento complexo.

“Ela consegue causar infecções em pessoas com o sistema imune debilitado”, disse.

A especialista ressaltou, porém, que mesmo pessoas sem doenças prévias podem apresentar problemas dependendo da cepa da bactéria. Entre os quadros possíveis está a chamada “otite de nadador”, infecção relacionada ao contato com águas recreativas, como piscinas, rios e praias.

De acordo com a médica, o cenário considerado mais crítico ocorre quando o micro-organismo entra em unidades hospitalares e passa a atingir pacientes internados, sobretudo aqueles que utilizam ventilação mecânica, sondas urinárias ou estão com infecções na corrente sanguínea.

“Dentro do hospital, essa bactéria pode adquirir ainda mais resistência. Esse é o pior cenário”, afirmou.

Contaminação

Para Raiane Chamon, a contaminação dos produtos da Ypê pode ter ocorrido durante a etapa de fabricação, possivelmente por falhas no controle microbiológico.

“Algum reagente utilizado na produção pode ter sido contaminado, e a bactéria consegue se multiplicar em ambientes úmidos, inclusive em detergentes”, explicou.

Segundo ela, todos os produtos possuem níveis aceitáveis de contaminação microbiológica previstos em normas sanitárias. O problema ocorre quando há crescimento acima do limite considerado seguro, especialmente para consumidores mais vulneráveis.

Comunicado

Em nota divulgada nesta quinta, a Ypê informou que está colaborando com a Anvisa e realizando “todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.

A empresa afirmou ainda que conduz análises técnicas complementares, incluindo testes independentes, cujos resultados estão sendo apresentados à agência reguladora.

Segundo a fabricante, eventuais recomendações adicionais da Anvisa serão incorporadas imediatamente ao plano de ação e conformidade regulatória desenvolvido pela companhia desde dezembro de 2025.

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