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Niterói

Niterói prateada: o avanço da população 60+ e os desafios de consolidar a cidade como vitrine para o país

André Silva | Publicado em:

Niterói prateada: o avanço de idosos na cidade. Na foto, idoso atravessa a rua de bicicleta.
Políticas públicas voltadas ao público 60+ é fundamental para garantir uma cidade atrativa e acolhedora. Foto: João Victor Guedes / Enfoco

Aos 79 anos, a aposentada Ema Vieira de Oliveira acompanha de perto os desafios e as possibilidades de envelhecer em Niterói, Região Metropolitana do Rio. Moradora de Santa Rosa, ela participa de atividades voltadas para a terceira idade e mantém uma rotina de exercícios e convivência social. A história dela representa uma realidade cada vez mais presente na cidade: Niterói está entre os municípios brasileiros com maior proporção de idosos.

“Eu faço pilates, participo da associação de reabilitação e às vezes vou ao Campo de São Bento fazer ginástica. Eu me sinto muito bem lá”, afirma Ema, que completa: “É uma questão de saúde, de sair de casa e ver outros pontos. A gente se sente bem em um lugar como aquele”.

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Ema Vieira de Oliveira, 79 anos – Foto: João Victor Guedes / Enfoco

O envelhecimento da população também reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para saúde, convivência, acessibilidade e participação social, áreas que vêm ganhando espaço na cidade.

Números por bairros

Na Região das Praias, Icaraí desponta como símbolo desse novo perfil de população. O bairro aparece como o nono do Brasil com maior número de moradores acima dos 70 anos, com 14.026 pessoas nessa faixa etária, segundo o IBGE. A concentração de idosos na região somada a perspectiva de aumento da faixa etária desafiam o poder público a adotar políticas necessárias para garantir a manutenção de um novo ecossistema em formação.

No entanto, o fenômeno do envelhecimento se distribui por diferentes regiões do município. Atrás de Icaraí, bairros tradicionais como Santa Rosa e Fonseca também concentram grandes contingentes da população longeva em números absolutos.

Aos 79 anos, o aposentado Antônio Sérgio dos Santos, morador de Serra Grande, na Região Oceânica, acompanha as transformações da cidade ao longo das últimas décadas. Para ele, os avanços em infraestrutura contribuíram para melhorar a qualidade de vida dos moradores da chamada Terceira Idade.

De acordo com ele, ‘a Região Oceânica teve um avanço espetacular’.

“Hoje, toda aquela região tem água, esgoto e é asfaltada. É uma cidade que evoluiu muito nessa parte. Em termos de estrutura, a cidade mudou muito”, completou.

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Antônio Sérgio dos Santos, 79 anos – Foto: João Victor Guedes / Enfoco

Eu acho que Niterói é uma cidade bem mais tranquila que o Rio de Janeiro e outras cidades grandes. Ainda é uma cidade em que você tem uma certa tranquilidade. Então, acho que a base de tudo é isso”, — Antônio Sérgio, aposentado, aos 79 anos.


O X da questão

Para o arquiteto e urbanista Pedro da Luz Moreira, professor associado da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), o envelhecimento exige uma nova visão sobre as cidades.

Veja os 10 bairros do Brasil com mais idosos 70+

PosiçãoBairroMunicípio / EstadoPopulação 70+
1ºCampo GrandeRio de Janeiro / RJ29.063
2ºCopacabanaRio de Janeiro / RJ24.380
3ºTijucaRio de Janeiro / RJ23.578
4ºBarra da TijucaRio de Janeiro / RJ13.899
5ºBanguRio de Janeiro / RJ15.575
6ºBoa ViagemRecife / PE14.582
7ºBotafogoRio de Janeiro / RJ17.462
8ºJacarepaguáRio de Janeiro / RJ16.246
9ºIcaraíNiterói / RJ14.026
10ºCentralSão José do Rio Preto / SP13.714
Fonte: IBGE

Segundo ele, uma cidade amigável para idosos precisa estimular a circulação, a convivência e a autonomia. “Seria uma cidade que lhes desse acolhimento no seu caminhar, na vivência da cidade, instigando sua movimentação, sem se sentir ameaçado por veículos e vias de tráfego intenso”, afirmou.

O especialista explica que elementos como calçadas, travessias, arborização e segurança viária fazem parte de uma estrutura urbana que influencia diretamente a qualidade de vida da população idosa.

“Um dos parâmetros que baliza uma cidade acolhedora para os pedestres é exatamente a presença de calçadas, travessias e mecanismos de ‘traffic calming’, que acolham os idosos”, disse.

Segundo Moreira, bairros com grande concentração de moradores mais velhos precisam de atenção especial para garantir conforto e segurança nos deslocamentos.

“Há necessidade de promoção de um desenho de calçadas, travessias, arborização que transmitam conforto e segurança para o caminhar do idoso, além disso precisamos dar absoluta prioridade para um transporte público de passageiros que seja mais amigável para os idosos, facilitando seu acesso”, afirmou.

Niterói está pronta para os 60+?

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Icaraí desponta com maior número de moradores acima dos 70 anos, com 14.026 pessoas nessa faixa etária, segundo o IBGE. Foto: João Victor Guedes / Enfoco

Para acompanhar o crescimento da população idosa, a Prefeitura de Niterói garante que mantém iniciativas voltadas ao envelhecimento saudável. Um dos principais programas apontados pelo Executivo é o Niterói 60UP, que reúne mais de 5 mil participantes em 25 núcleos espalhados pela cidade.

O projeto oferece atividades como ginástica, dança de salão, coral, rodas de conversa, oficinas de arte e atendimento psicológico. A proposta é estimular a autonomia, fortalecer vínculos sociais e combater o isolamento.

A percepção dos participantes reforça a importância das iniciativas. Aos 80 anos, o aposentado Emir Campos Laranjeira, morador do Bairro de Fátima, destaca a oferta de atividades gratuitas voltadas à população idosa.

Confira o ranking dos dez bairros de Niterói com maior população de 70 anos:

RankingBairroMoradores com 70 anos ou maisPercentual da população do bairro
1ºIcaraí14.02617,9%
2ºSanta Rosa3.88212,6%
3ºFonseca3.5666,7%
4ºCentro1.86411,5%
5ºIngá1.80215,2%
6ºBarreto1.6478,5%
7ºItaipu1.3534,6%
8ºPiratininga1.2147,9%
9ºSão Francisco1.16113,3%
10ºCubango1.0097,0%

“Eu caminho por aqui (no bairro onde vive). Saio, vou até o Centro, compro alguma coisa, volto. Também vou até a Praia de Icaraí, que é pertinho, ando um pouco para dar uma volta”, relata o aposentado.

Além das atividades voltadas à Terceira Idade, Emir destaca a importância dos encontros de convivência. Morador de Niterói há muitos anos, ele participa de reuniões com um grupo formado por policiais militares aposentados, que se encontram regularmente na cidade para manter o contato e fortalecer os laços de amizade.

Paulo e Emir
Os amigos Paulo Roberto de Melo, 76 anos (esq), e Emir Campos Lajanreira, 80 anos (dir) – Foto: João Victor Guedes / Enfoco

Centro de Referência

A cidade também conta com o Centro de Referência em Atendimento à Pessoa Idosa Helena Tibau, que realiza acolhimento e orientação, além de ações culturais e esportivas, como o Coral Avós do Canto, a Corrida da Longevidade e a Arena Esportiva Ponto Cem Réis.

Na área da saúde, o município possui a Linha de Cuidado da Pessoa Idosa, com ações desenvolvidas na Atenção Primária, incluindo grupos de convivência, atividades físicas, estímulo cognitivo e educação em saúde.

De olho na longevidade da população municipal, sobretudo em Icaraí, o prefeito de Niterói Rodrigo Neves anunciu a construção de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) no bairro.

A medida foi oficializada por meio de uma portaria da Fundação Municipal de Saúde (FMS), que cria a chamada Equipe de Planejamento da Contratação (EPC). Na prática, esse grupo será responsável por revisar todo o processo de aquisição de um prédio na Rua Álvares de Azevedo, apontado como possível sede da futura unidade.

Cidades do Rio com maior percentual 60+, conforme população do município

RankingMunicípioPopulação com 60 anos ou maisPercentual do total da população
1ºMiguel Pereira (RJ)6.55524,7%
2ºItalva (RJ)3.37424,0%
3ºNiterói (RJ)114.82123,8%
4ºIguaba Grande (RJ)6.62023,7%
5ºItaocara (RJ)5.42623,7%
6ºCambuci (RJ)3.41323,4%
7ºSanta Maria Madalena (RJ)2.36423,1%
8ºMendes (RJ)4.03523,1%
9ºEngenheiro Paulo de Frontin (RJ)2.74122,4%
10ºValença (RJ)15.08722,2%
Fonte: IBGE

Mobilidade e acessibilidade

Com uma população idosa crescente, a acessibilidade se tornou prioridade para garantir que os moradores continuem circulando pela cidade com segurança.

Niterói conta com o Decreto de Calçadas Acessíveis, que estabelece regras para construção e adequação dos passeios públicos. A prefeitura também trabalha na atualização do Manual de Calçadas Acessíveis e no acompanhamento de demandas relacionadas à mobilidade.

O transporte municipal também possui adaptações para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, além de assentos preferenciais. Veículos que apresentam problemas em equipamentos de acessibilidade podem ser notificados ou retirados de circulação.

Uma cidade que incentive seus cidadãos a andarem e pedalarem é mais saudável. Ter uma cidadania mais ativa, mais arborizada, com regulação da velocidade excessiva de veículos e boas travessias de pedestres fomenta uma saúde física e mental muito melhor”, — Pedro da Luz Moreira, arquiteto e urbanista da UFF.

O urbanista também afirma que o crescimento da população idosa deve influenciar o planejamento das próximas décadas. “Há necessidade de reversão do projeto hegemônico da cidade brasileira, que privilegia um rodoviarismo desenfreado, em detrimento da prioridade que deve ser dada ao pedestre”, afirmou.

De olho na economia prateada

O crescimento da população 60+ também tem impulsionado a chamada economia prateada, segmento voltado ao público da Terceira Idade. No Brasil, esse grupo já reúne mais de 33 milhões de pessoas, impulsionando setores como farmácias, vestuário, academias especializadas, telemedicina, monitoramento remoto de saúde e turismo voltado para a terceira idade.

Para atender a esse mercado, empresas têm adaptado seus modelos de negócio, investindo em acessibilidade, melhor iluminação, sinalização mais visível, atendimento acolhedor e processos de compra simplificados. Em Niterói, município com a maior proporção de idosos do Estado do Rio, essa transformação já é percebida pelo comércio.

Segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Niterói (CDL), Luiz Vieira, os empresários têm acompanhado o crescimento desse público e buscado adequar produtos e serviços às suas necessidades.

“As empresas vêm percebendo que este público está crescendo e estão procurando cada vez mais atrair oferecendo produtos e serviços que venham atender às suas necessidades”, afirmou.

De acordo com Vieira, farmácias e o setor de vestuário estão entre os segmentos que mais sentem os efeitos do envelhecimento da população. Ele também destacou que empresas locais têm investido em mudanças para tornar o atendimento mais adequado aos consumidores mais velhos.

“Várias empresas já detectaram que precisam se moldar para atender esta demanda”, disse.

O presidente da CDL ressaltou ainda que a população idosa já representa uma parcela importante do consumo na cidade. “Sim, e não poderia ser diferente, uma vez que Niterói é o maior município do Estado com a maior proporção de idosos na sua população”, afirmou.

Sobre as perspectivas para o setor, Vieira avalia que a economia prateada cria oportunidades, mas também exige adaptação por parte do comércio. “É o comércio se adequar às necessidades da população mais idosa e atingir esta população não somente pelas lojas físicas, mas também pelo comércio digital”, conclui.

Niterói enquanto vitrine de longevidade para o país

Com quase um quarto da população acima dos 60 anos, Niterói mostra uma realidade que será cada vez mais comum no Brasil: cidades onde viver mais precisa estar acompanhado de viver melhor.

O desafio das próximas décadas será ampliar cada vez mais as oportunidades para que essa população continue ativa, independente e integrada à vida da cidade.

Para o urbanista da UFF, a construção de uma cidade preparada para o envelhecimento também passa pela convivência entre gerações.

“Fomentar equipamentos e instituições que promovam encontros intergeracionais, incentivando que as narrativas dos mais idosos cheguem às novas gerações”, disse.

Niterói, com sua população idosa crescente, passa a representar um cenário que aponta para o futuro do país: uma sociedade que vive mais e precisa garantir que essa longevidade venha acompanhada de participação, respeito e qualidade de vida.

André Silva

Bastante ativo na cobertura cultural, ja foi contemplado com o Prêmio Themis de Jornalismo, concedido pelo TJRS. Além da cultura, caminha por várias editorias, inclusive em cobertura de eventos internacionais, como a Cúpula do G20 e o encontro dos Brics. Instagram: @andrre.sillva

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