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Política

Presidente Lula é reeleito nas eleições 2026, mas e agora?

João Alves | Publicado em:

Lula é reeleito e encontra Congresso virado à direita e crise de ministros no Supremo
Esse é o quarto mandato de Lula, que assume como 40° presidente da República. Foto: Ricardo Stuckert / Reprodução

Eleito pela quarta vez presidente do Brasil, com pouco mais de 64 milhões de votos, Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), dará continuidade ao seu último mandato no Palácio do Planalto a partir do dia 5 de janeiro de 2027. Apesar da vitória, o petista deve enfrentar desafios bem mais complexos que simplesmente cumprir propostas de campanha: sobretudo por conta de um Congresso Nacional voltado à extrema-direita e a maior crise que o Poder Judiciário atravessa desde a redemocratização.

O 2° turno das eleições ocorreu domingo (25), mas parte do cenário que foi desenhado para o país nos próximos anos se materializou no último dia 4. Somando Senado Federal, Câmara dos Deputados e governos estaduais, o Partido Liberal (PL) formou uma bancada forte, elegendo candidatos em todo o Brasil, fator que desafiará ainda mais a capacidade de governança de Lula nas articulações para aprovar medidas.

Em paralelo à mudança no Congresso Nacional, outro desafio que o petista terá que lidar já nos próximos meses é a crise institucional no país, principalmente envolvendo a politização de ministros do STF. Até 2030, Lula terá nas mãos a indicação de mais quatros ministros da suprema corte, visto que Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes devem se aposentar, fator que pode contribuir para intensificar a reação da oposição a depender das escolhas do presidente. Além das três aposentadorias, a vaga de Luiz Roberto Barroso, que se aposentou em outubro de 2025, também segue aberta.

Tudo azul

Nestas eleições foram 19 senadores eleitos pelo PL que, ao lado dos reeleitos, passarão a ocupar 28 das 81 cadeiras do Senado Federal, mais de um terço da casa, a maior bancada de um partido desde 1988, segundo dados do próprio parlamento.

Atrás do PL, a maior bancada pertence ao PT, que conquistou 16 cadeiras. Já o ‘Centrão’, formado hoje pelo MDB, PSD, PP, Republicanos e União Brasil, formou uma bancada de 29 senadores eleitos, onde tanto candidatos quanto as lideranças das siglas rejeitaram apoio ao presidente durante as eleições.

Na Câmara dos Deputados, o cenário não é diferente. O PL bateu outra marca histórica e elegeu 121 deputados federais, alguns com recordes históricos de votação, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Ainda de acordo com os registros da Casa, essa é a maior bancada de um mesmo partido desde a redemocratização. Em paralelo, o Centrão continua sendo de maioria no parlamento, com 234 deputados eleitos.

Além do cenário já favorável no Congresso Nacional, a sigla também garantiu maioria de governadores eleitos nos estados brasileiros.

No quarto mandato, um dos desafios de Lula será garantir a continuidade do apoio do ‘Centrão’, e principalmente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), que já se uniu ao presidente para aprovar pautas de interesse do governo, como o fim da escala 6×1.

Tempestade perfeita

Para o doutor em sociologia e cientista político Brand Arenari, o presidete reeleito deve reassumir o governo encarando o que considerou ‘tempestade perfeita‘. Isso porque além de lidar com uma virada à direita por parte do parlamento, o petista ainda terá que lidar com a crise e descredibilização do poder judiciário, além da proximidade de uma crise econômica.

Segundo ele, previsões de analistas apontam um crescimento baixo da economia brasileira no próximo ano, fator que será usado arduamente pela oposição para criticar o próximo governo. Entre os fatores, Arenari destacou as guerras da Ucrânia e, principalmente, a do Irã que pressionam a inflação brasileira, atingindo, por exemplo, os combustíveis.

Em 2027, a continuidade do confronto entre iranianos e estadunidenses deve causar o fim do subsídio dos combustíveis e afetar o bolso de quem dirige pelo país, de acordo com o cientista político.

Tensão com o STF

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Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, do STF. Foto: Nelson Jr. / SCO / STF

Nos últimos meses, o Brasil assistiu conflitos entre ministros do STF se intensificar e atingir o auge da crise quando o ministro André Mendonça divulgou um relatório da Polícia Federal (PF) revelando conversas entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Desde 2019, Moraes passou a ser um dos alvos dos eleitores do PL.

Arenari aponta que Lula terá um grande desafio na forma como conduzirá a crise no Supremo, já que contorná-la se tornou impossível a essa altura.

Para o cientista político, a forma como Lula conduzirá a relação entre a crise no Supremo e o crescimento da oposição no parlamento será essencial para uma boa governança nos próximos quatro anos, ainda mais diante da indicação dos próximos ministros e a tensão sobre o impeachment de magistrados da corte.

Um povo dividido

Além de qualquer articulação nos salões do poder, Lula também ainda precisará lidar com cerca de 59 milhões de brasileiros que optaram por votar em Flávio Bolsonaro nas eleições. A divisão ideológica no país aliada ao descredito no petista promete dificultar ainda a gestão governamental.

‘Isso torna muito difícil a governança. Um país rachado ao meio por ideias relacionadas a comportamento, identitárias, valores e costumes, principalmente, fazem com que se crie um movimento de tensão muito grande. Para onde você ir, haverá uma resposta do outro lado’, pontua Arenari.

Sobre o parlamento, o sociólogo ainda apontou que existe uma insatisfação dos brasileiros com figuras velhas da política brasileira, e que isso justifica a eleição de parlamentares pouco experientes atingindo recordes históricos.

E as relações internacionais?

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Lula em encontro com Xi Jinping. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Adotada pelo Governo Federal desde 2022, o presidente Lula deve manter a postura positivo à aproximação de países da União Europeia, através do acordo com o Mercosul, e fortalecer as relações com seu principal parceiro comercial, a China.

Durante o ano, em mais de uma oportunidade, o petista aproveitou a visibilidade e encontros líderes do estrangeiro para reafirmar a ‘soberania nacional’ do Brasil, principalmente depois da pressão do tarifaço norte-americano sobre as importanções brasileiras impostas por Donald Trump.

Mesmo com o aceno do presidente dos Estados Unidos à família Bolsonaro, Lula deve continuar a manter a boa relação com o republicano. De acordo com Arenari, o impacto que as guerras globais causam na inflação brasileira deve se tornar um apelo de Lula ao exterior no próximo mandato.

Polarização tende a continuar

Sobre a relação com o exterior, Arenari também afirmou que a polarização na política brasileira caminha para refletir a polarização eleitoral norte-americana, onde o confronto entre PT e PL mostra semelhanças com o duelo entre Democratas e Republicanos.

‘Essa polarização tem muitas raízes, mas uma delas é a norte-americanização do Brasil. São eleições cada vez mais parecidas com as norte-americanas. As pautas do PT e do Psol são muito parecidas com as pautas da California, da ala progressista dos Democratas. E do outro lado tem uma tentativa de alinhamento do PL com o Trump’, avalia.

Segundo ele, autores competentes têm apontado um enfraquecimento da polarização na política, mas que o fator não se repete na polarização eleitoral. Com o fortalecimento do PL, a tendência é que o PT continue fazendo oposição à sigla, tendo que procurar outra referência de liderança depois de Lula.

Medo de mais quatro anos

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Marcos Roque, de 21 anos, é natural de São Paulo capital e declarou se identificar com um viés político alinhado à direita brasileira.

Filho de militar da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), ele declarou voto em Flávio Bolsonaro, segundo ele, por temer mais quatro anos de governo Lula. Para ele, foi ‘impossível’ votar no petista pelo ‘rastro de corrupção’ que o partido deixou ao longo das décadas no poder.

“Não sou o maior fã do Flávio, mas hoje ele é o que mais condiz com o que acredito. Sem dúvidas poderia ser alguém melhor’, explica.

Ao jusficar o voto no filho do ex-presidente Bolsonaro, o jovem também explicou que tem medo do que mais um mandato de Lula no poder pode deixar de legado para o próximo governante do Brasil.

‘Acredito que teremos um rombo fiscal muito grande, ainda mais com o final do mandato dele, onde decidiu distribuir dinheiro em troca de votos, caso isso se mantenha por 4 anos, terá uma bomba relógio para o próximo presidente depois dele’, analisa.

Medo pela desmobilização

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Lua Quinellato, de 22 anos, é estudante da Universidade Federal Fluminense (UFF) e uma das articuladoras que atuam na Rede Travesti da instituição. Ela declara voto em Lula por, segundo ela, ser a única opção alinhada com o campo progressista.

“Não acredito que hajam candidatos ideiais, mas acredito sim que o Lula realizou um trabalho essencial durante os seus mandatos, botando o filho do trabalhador dentro da universidade, investindo pesado em saúde pública e em educação”, justifica.

Com Lula reeleito, ela declarou que o que mais teme é a desmobilização da militância esquerdista.

“Temo que o povo se desorganize, porque precisaremos mais do que nunca estar organizades para garantir uma governabilidade e conquistar direitos”, conclui.

À esquerda ou à direita, o consenso entre ambos os eleitores é de que nenhum dos postulantes ao cargo mais importante do país representa verdadeiramente a própria esquerda e direita no Brasil.

João Alves

Amante do cinema, se descobriu no jornalismo através de conversas e boas histórias. É focado em contar os relatos de quem vive o dia a dia no Rio de Janeiro, sempre atento às denúncias dos leitores.

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