Skip to content

Saúde & Bem-Estar

Exclusivo: ex-ministra da Saúde Nísia Trindade abre o jogo sobre filas e atrasos para cirurgias e tratamentos pelo SUS

Ezequiel Manhães | Publicado em:

Nísia Trindade, ex-ministra da saúde
Segundo a ex-ministra, quando assumiu o Ministério da Saúde, sequer havia informações organizadas sobre o tamanho das filas em todo o país. Foto: Rede Social

As longas filas para cirurgias, exames e tratamentos de doenças graves continuam entre os maiores desafios do Sistema Único de Saúde (SUS). Para a ex-ministra da Saúde e ex-presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, porém, o principal problema vai além do número de pessoas aguardando atendimento.

Em entrevista exclusiva ao ENFOCO, durante agenda em Niterói, na Região Metropolitana do Rio – onde lançará um livro no final do mês, ela afirmou que o maior desafio é organizar melhor toda a rede pública de saúde para reduzir o tempo de espera dos pacientes, especialmente nos casos de câncer e doenças cardíacas.

“As filas são um gargalo, mas a gente só enfrenta a fila se organizar melhor o sistema como um todo, desde o posto de saúde, o ‘postinho’, como a população costuma chamar carinhosamente […] Não basta reduzir o tamanho da fila, é preciso reduzir o tempo de espera, principalmente para problemas mais graves, como os casos de câncer”, afirmou.

Segundo Nísia, embora o SUS tenha alcançado avanços nos últimos anos, como a realização de 14 milhões de cirurgias em 2024, ainda enfrenta um histórico de subfinanciamento e precisa aperfeiçoar a integração entre a atenção básica, os serviços especializados e os hospitais.

“Precisamos pensar desde a atenção primária em como organizar todo o acesso dos cidadãos ao sistema. Houve avanços importantes, mas eles acontecem em um momento de novos desafios, como a transição demográfica, o envelhecimento da população e as mudanças climáticas, que aumentam a pressão sobre o SUS”, explicou.

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Mestre em Ciência Política e doutora em Sociologia pelo antigo Iuperj, atual Iesp/Uerj, Nísia é pesquisadora da Fiocruz desde 1987 e professora da Uerj desde 1991. Entre 2017 e 2023 presidiu a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e, em 2023, assumiu o comando do Ministério da Saúde no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sendo substituída por Alexandre Padilha, em fevereiro do ano passado. A troca fez parte de uma reforma ministerial.

Por que as filas continuam?

hospital leito SUS ebc
Ex-ministra defende mais investimentos e uma reestruturação no Sistema Único de Saúde. Foto: EBC

Questionada sobre o motivo de pacientes aguardarem meses por cirurgias, exames e tratamentos de alta complexidade, a ex-ministra afirma que não existe um único responsável pelo problema.

Ela destaca a falta de especialistas em algumas áreas, a necessidade de ampliar a formação desses profissionais e, principalmente, melhorar o acompanhamento do paciente desde a Unidade Básica de Saúde.

“Foi por isso que estruturamos inicialmente o programa Mais Acesso a Especialistas, hoje chamado Agora Tem Especialistas. O mais importante é acompanhar o cidadão desde a unidade básica, integrar o atendimento e evitar que ele precise ir e voltar várias vezes até conseguir assistência”, justifica.

Prevenir é o melhor remédio

Nísia ressaltou que diversos investimentos foram realizados para ampliar o atendimento, incluindo mais cirurgias, ampliação do horário de funcionamento de unidades de saúde e fortalecimento da telessaúde, que nada mais é do que uma prestação de serviços de saúde à distância por meio de tecnologias de informação e comunicação.

Ela citou ainda a redução de 52% nos casos graves de bronquiolite causada pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR), resultado da vacinação de gestantes, como exemplo de que investir em prevenção também reduz a pressão sobre o sistema.

É na prevenção que também precisamos investir: na Saúde da Família e na vacinação, sempre que ela for indicada. Tudo isso reduz a pressão sobre o sistema. Não podemos analisar um problema de forma isolada”, — Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde.

Câncer e doenças cardíacas

cirurgia
Ex-ministra da Saúde atribui demora em cirurgias de alta complexidade à redução de investimentos em governos anteriores. Foto: Elza Fiuza / Agência Brasil

Ao comentar a demora para pacientes oncológicos iniciarem quimioterapia ou realizarem cirurgias, mesmo com leis que estabelecem prazos, Nísia reconhece que o sistema ainda precisa avançar.

A especialista lembrou que o SUS atende cerca de 200 milhões de brasileiros e que herdou um cenário de redução de investimentos em políticas públicas.

“Precisamos de mais recursos para o SUS. Mas, além do financiamento, precisamos fortalecer um modelo de atenção que vá da prevenção ao cuidado em todos os níveis. Quando há necessidade de tratamento, o tempo é um fator fundamental, e precisamos capacitar o sistema para cumprir esses prazos”, declarou.

A avaliação, segundo ela, também vale para pacientes cardíacos.

“A redução desse tempo foi exatamente o que motivou a criação do programa Agora Tem Especialistas. Precisamos acompanhar sua execução, garantir melhores condições de financiamento e organização do sistema para que a população seja atendida no tempo necessário”, destacou.

O SUS precisa mudar

Apesar de defender o sistema público de saúde, Nísia afirma que ainda existe uma visão equivocada de que todos os problemas serão resolvidos apenas com mais hospitais.

“Os desafios da atenção especializada e das cirurgias não serão respondidos apenas aumentando o número de hospitais ou de especialistas. É preciso organizar permanentemente todo o sistema, começando pela atenção primária, acompanhando o cidadão ao longo de toda a sua trajetória”, explicou.

Ela também defende a ampliação da Saúde Digital, da integração de dados e da telessaúde como ferramentas para acelerar diagnósticos e reduzir filas.

Segundo a ex-ministra, quando assumiu o Ministério da Saúde, sequer havia informações organizadas sobre o tamanho das filas em todo o país.

“Era difícil saber qual era a fila, qual era o seu tamanho e até mesmo a cobertura vacinal. Precisávamos organizar os dados para orientar melhor a gestão”, afirmou.

Ciência, envelhecimento e saúde mental

Na entrevista, Nísia também defendeu que a ciência volte a orientar permanentemente as decisões do Ministério da Saúde. Ela lembrou que, durante sua gestão, foram retomadas políticas de pesquisa, ampliadas coberturas vacinais, criada a Secretaria de Saúde Digital e fortalecida a produção nacional de medicamentos e vacinas. Outro alerta feito pela ex-ministra foi sobre o envelhecimento da população.

Segundo ela, o país precisa preparar o SUS para atender uma demanda crescente de idosos, fortalecer a integração com o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), ampliar o cuidado domiciliar e investir mais em saúde mental.

Também precisamos cuidar de quem cuida. O cuidado com os idosos ainda recai principalmente sobre mulheres e meninas. Precisamos de políticas públicas que apoiem essas famílias”, ressaltou.

Eleições 2026

A ex-ministra da Saúde pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições deste ano. Sem detalhar propostas de campanha, ela afirma que, caso seja eleita, pretende atuar no aperfeiçoamento da legislação e na construção de políticas públicas voltadas ao fortalecimento do SUS e da saúde pública.

“Quero contribuir para a defesa do SUS, avançando nesses pontos que nós colocamos aqui, propondo novas leis e aperfeiçoando a legislação existente. Também quero trabalhar para fortalecer a soberania na produção de medicamentos, vacinas e tecnologias em saúde, além de atuar em pautas como as emergências sanitárias e ambientais, a soberania digital, a promoção da saúde e os direitos das mulheres”, afirmou.

Ainda Há Tempo

Nisia
Livro autoral fala sobre o contexto da pandemia de Covid-19, que resultou em mais de 700 mil mortos no país. Foto: Divulgação / Ueslei Marcelino

A passagem de Nísia por Niterói também marca o lançamento do livro “Ainda Há Tempo: A Pandemia de Covid-19 e a Transformação do Futuro”, em que ela faz uma reflexão sobre os impactos da pandemia.

Segundo a ex-ministra, a obra é construída sobre três ideias centrais: lembrar, compreender e agir. O lançamento e a sessão de autógrafos acontecem no próximo dia 29, às 19h, na Livraria da Travessa, em Icaraí, na Região das Praias da Baía, em Niterói.

Precisamos preservar a memória da pandemia, entender por que o Brasil registrou mais de 710 mil mortes e agir para construir um futuro diferente, valorizando a ciência, a saúde pública e a democracia”, Nísia Trindade.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

Notícias Relacionadas

Últimas Notícias

Obras no Jardim Atlântico Leste, em Itaipuaçu
Maricá

Mais ruas de Itaipuaçu, em Maricá, recebem obras após anos de espera

Celebridades

Sasha Meneghel anuncia gravidez do 1º filho com João Lucas

Segurança Pública

Fim da linha para líder de quadrilha especializada em roubos de imóveis de luxo em Niterói

Niterói

‘Começar do zero’: mães temem prejuízos a terapias de crianças após mudança da Unimed em Niterói