Quando se fala em El Niño, é comum que a primeira preocupação esteja relacionada às chuvas, às temperaturas ou aos impactos sobre a população. Mas os eventos climáticos extremos também atingem os animais e podem produzir consequências que ultrapassam o campo do bem-estar animal. Enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e deslizamentos alteram ecossistemas, comprometem a disponibilidade de água e alimento, deslocam animais silvestres e podem favorecer a circulação de doenças. É nesse cenário que a Medicina Veterinária de Desastres precisa ser compreendida como parte da estratégia de proteção da sociedade.
O médico-veterinário tem uma atuação que começa antes da emergência. Cabe a esse profissional contribuir para planos de contingência, identificar vulnerabilidades, orientar tutores e produtores rurais, participar de treinamentos e ajudar a estabelecer protocolos para o manejo e a retirada segura dos animais. Durante um desastre, sua atuação vai muito além do atendimento clínico: envolve resgate, triagem, biossegurança, vigilância epidemiológica, controle de zoonoses, organização de abrigos e proteção da fauna. Depois, permanece o trabalho de recuperação e monitoramento dos impactos provocados pelo evento.
Saúde Única
Essa atuação está diretamente relacionada ao conceito de Saúde Única. Em uma situação de emergência, não é possível separar a saúde das pessoas da saúde dos animais e do equilíbrio ambiental. Uma família que se recusa a deixar uma área de risco porque não sabe o que acontecerá com seus animais, por exemplo, também está exposta ao desastre. Da mesma forma, o deslocamento de animais silvestres para áreas urbanas pode ampliar o contato entre espécies e aumentar determinados riscos sanitários.
Animais nos planos de emergência
Por isso, incluir os animais nos planos de prevenção e resposta não é uma questão secundária. É uma medida de proteção civil e de saúde pública. O Brasil avançou na construção de referências para a atuação da Medicina Veterinária em desastres, mas ainda precisamos transformar esse conhecimento em planejamento permanente nos municípios e estados. Médicos-veterinários precisam estar integrados às estruturas de gestão de riscos, e as comunidades precisam ser orientadas a incluir seus animais nos planos de emergência.
Também precisamos preparar melhor os próprios profissionais. A atuação em um cenário de desastre exige conhecimentos que vão além da formação clínica tradicional, como gerenciamento de riscos, Sistema de Comando de Incidentes, biossegurança, logística, manejo de diferentes espécies e trabalho integrado com Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e demais instituições. Treinamentos e simulações são fundamentais para que, diante de uma emergência real, a resposta não dependa de improvisação.
El Niño, um chamado à prevenção
O El Niño, portanto, deve ser encarado também como um chamado à prevenção. Independentemente da intensidade de um determinado fenômeno climático, precisamos estar preparados para os eventos extremos que já fazem parte da realidade de diferentes regiões do país. A Medicina Veterinária de Desastres tem papel fundamental nesse processo porque protege animais, mas também contribui para proteger pessoas, preservar o meio ambiente e reduzir impactos econômicos e sanitários.
Preparar-se antes do desastre é uma das formas mais eficientes de salvar vidas quando ele acontece. E, quando falamos em vidas, precisamos lembrar que os animais também fazem parte dessa equação.