A decisão de proibir a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets no Brasil provocou reações diferentes entre artistas, influenciadores e criadores de conteúdo. Anitta, Luana Piovani e Luisa Mell comemoraram a medida, enquanto Davi Brito, Rico Melquíades e Pedro Ortega fizeram críticas ou levantaram questionamentos sobre o fim do mercado regulamentado.
A medida foi determinada pela Medida Provisória nº 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (25). O texto proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, modalidade que inclui apostas esportivas e jogos on-line. A norma entrou em vigor após sua publicação, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional.
Famosos que comemoraram a decisão
Anitta comemorou a decisão nas redes sociais, mas aproveitou o momento para defender outra pauta. Nos Stories, a cantora escreveu: “Enquanto comemoramos o fim das bets, já podemos levantar nossa torcida para seguir a luta pelo fim da escala 6×1?”
Na sequência, ela fez uma crítica relacionada ao discurso político sobre defesa da família. “Seu candidato é a favor da família? Mas a família só pode estar unida 1 (um) dia na semana.”
Luana Piovani também reagiu à medida. A atriz compartilhou uma publicação que ironizava influenciadores envolvidos com o mercado de apostas. A mensagem dizia: “Influenciador de bet descobrindo que perder dinheiro dói: finalmente uma experiência real com o produto.”
Luisa Mell classificou a decisão como um “momento histórico” e criticou os efeitos que, segundo ela, as apostas provocam na sociedade.
A ativista mencionou famílias afetadas pelo problema e casos de dependência em jogos. “Bets estão destruindo nossa sociedade”, afirmou.
Famosos que questionaram a proibição
Entre os que criticaram a decisão está Davi Brito. O influenciador defendeu uma diferenciação entre empresas que atuam de forma regulamentada e plataformas consideradas ilegais.
“Eu não estou aqui para defender aposta irresponsável, irregular de ninguém. Quem tem problema com jogo (…) precisa se tratar, precisa ter limite, precisa ter acesso a ferramentas de bloqueio e tratamento imediato”, declarou.
Davi também afirmou que a proibição poderia fazer com que apostadores migrassem para sites clandestinos.
“Acabar com o mercado legal não significa necessariamente acabar com as apostas no Brasil. Pode significar apenas entregar o mercado para quem não respeita regra nenhuma”, disse.
O influenciador alagoano Rico Melquiades, que já fez publicidade para casas de apostas e chegou a depor na CPI das Bets do Senado sobre contratos de influenciadores com empresas do setor, anunciou que vai deixar o Brasil e passar a morar em Portugal a partir de outubro
Rico adotou uma posição semelhante à de Davi Brito e questionou se os problemas do país poderiam ser atribuídos às casas de apostas. “Será que tudo de ruim que acontece no Brasil é culpa das bets?”, perguntou.
O influenciador também criticou o silêncio de pessoas e empresas que mantinham contratos com plataformas de apostas e questionou se a proibição seria suficiente para impedir a prática.
“E vocês acham mesmo que proibindo as bets o Brasil vai melhorar? Vocês acham mesmo que proibindo as bets as apostas vão deixar de existir? Não vai, gente”, afirmou.
Pedro Ortega também comentou a decisão e levou o debate para o campo político. Sem mencionar diretamente o nome do candidato ao qual se referia, o influenciador afirmou que, caso ele “ganhe de novo”, o país poderia enfrentar uma piora no custo de vida.
Além dos posicionamentos individuais, artistas e criadores de conteúdo também têm participado de campanhas de conscientização sobre os possíveis impactos das apostas na vida financeira e na saúde mental dos apostadores.
Entre os nomes associados a iniciativas e campanhas de alerta estão Emicida, Camila Pitanga e Alinne Moraes.
O que muda com a proibição?
Com a publicação da Medida Provisória, as empresas que operavam legalmente no país deixam de poder oferecer apostas ou fazer publicidade da atividade.
A medida estabelece ainda um calendário para o encerramento das plataformas e a devolução dos valores que permanecerem nas contas dos apostadores.
- 25 de setembro: publicação da MP e início da proibição de novos aportes;
- 5 de outubro, às 23h59: termina o prazo para retirada voluntária dos valores;
- 6 de outubro: sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar;
- 7 e 8 de outubro: empresas deverão informar aos bancos os saldos remanescentes, discriminados por CPF;
- 9 a 14 de outubro: instituições financeiras deverão devolver os valores aos apostadores;
- A partir de 14 de outubro: em caso de impedimento para a devolução, a Caixa Econômica Federal receberá os recursos e fará o pagamento aos apostadores.
As empresas também terão de retirar anúncios e materiais de patrocínio. O prazo para a retirada voluntária termina em 5 de outubro e inclui publicidade veiculada em meios físicos e em peças de publicidade no exterior.
A partir da publicação da MP, não poderão ser feitas novas ações de divulgação das bets.
Haverá indenização?
Segundo o governo, a extinção das autorizações ocorre por motivo de interesse público. Por isso, a MP estabelece que as empresas não terão direito a indenização por:
- lucros cessantes;
- investimentos realizados;
- expectativa de continuidade da atividade;
- devolução, total ou parcial, dos valores pagos pelas outorgas.
Até o momento, foram concedidas 85 outorgas para exploração de apostas de quota fixa. Cada uma custou R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,55 bilhões pagos pelas empresas no processo de concessão.
E quem descumprir?
A MP prevê sanções administrativas para pessoas físicas e jurídicas que desrespeitarem as novas regras.
As punições podem incluir:
- advertência;
- multas de até R$ 2 bilhões;
- suspensão parcial das atividades;
- suspensão total das atividades, no caso de empresas.
Projeto prevê prisão
Além da medida provisória, o governo enviará ao Congresso projeto de lei para criar crimes específicos relacionados às apostas de quota fixa.
A proposta estabelece cinco condutas que poderão ser consideradas crimes e precisará ser analisada e aprovada pelo Congresso para entrar em vigor.
Entre as condutas previstas estão:
- Explorar apostas de quota fixa: pena de 4 a 6 anos de reclusão;
- Divulgar apostas ou captar apostadores: 2 a 4 anos e multa;
- Usar dados pessoais para captar apostadores: 2 a 4 anos e multa, com possibilidade de aumento da pena em situações específicas;
- Facilitar financeiramente a exploração: 2 a 4 anos e multa;
- Fornecer aplicação de internet para apostas: 2 a 4 anos e multa, com agravantes em determinadas situações.
O projeto também prevê agravamento quando houver uso de dados de saúde, histórico de apostas ou informações de crianças e adolescentes, além de situações em que mecanismos de verificação de idade ou localização sejam burlados.
Como será a fiscalização?
O governo afirma que pretende intensificar o combate ao mercado ilegal após o encerramento das plataformas autorizadas.
Os ministérios da Fazenda e da Justiça deverão atuar no bloqueio de sites irregulares. Entre as medidas previstas estão:
- bloqueio de domínios;
- remoção de aplicativos;
- restrição dos meios de pagamento;
- bloqueio de contas utilizadas ilegalmente;
- rastreamento de recursos movimentados pelas plataformas.
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda atualmente usa mecanismos de monitoramento do mercado ilegal.
A MP também cria um Comitê Institucional de Fiscalização e Combate à Exploração Ilegal de Apostas, coordenado pela Casa Civil.