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Saúde & Bem-Estar

Câncer de intestino dispara entre adultos com menos de 50 anos; entenda

Ezequiel Manhães | Publicado em:

Câncer de intestino dispara entre jovens adultos. Lua Blanco está entre as vítimas
A atriz e cantora Lua Blanco faleceu aos 39 anos, vítima de câncer no intestino. Foto: Reprodução / Instagram

A morte da atriz Lua Blanco, aos 39 anos, vítima de câncer de intestino, acendeu um alerta sobre uma doença que também ameaça jovens adultos. Apenas no estado do Rio de Janeiro, 1.107 pessoas com menos de 50 anos morreram de câncer colorretal nos últimos cinco anos, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) enviados ao Enfoco. Do total, 774 vítimas tinham entre 40 e 49 anos, faixa etária que concentra a maior parte dos óbitos entre os mais jovens.

No mesmo período, o estado registrou 14.399 diagnósticos e 13.614 mortes pela doença, considerando todas as idades. Os números reforçam a importância de reconhecer os sinais de alerta e investigar sintomas persistentes, mesmo quando o paciente ainda está longe da faixa etária tradicionalmente associada ao câncer de intestino.

Conhecida por interpretar Roberta Messi na versão brasileira da novela Rebelde, Lua recebeu o diagnóstico de câncer no intestino grosso cerca de dois a três meses antes de morrer. A doença já havia se espalhado para outros órgãos e para o osso úmero. Segundo a família, a atriz passou por uma cirurgia para retirar o tumor, mas apresentou piora clínica antes de retomar a quimioterapia.

Chadwick Boseman preta gil enfoco

A morte da artista se soma à de outras personalidades que enfrentaram a doença, como a cantora Preta Gil, que morreu aos 50 anos, em julho de 2025, e o ator americano Chadwick Boseman, popularmente conhecido pelo papel de protagonista no filme Pantera Negra, que morreu aos 43 anos, em agosto de 2020. Os casos chamam atenção para o câncer colorretal em pessoas mais jovens, tendência que também vem sendo observada em diferentes países.

Mortalidade cresce entre pessoas de 40 a 49 anos

Dos 1.107 óbitos registrados entre pessoas com menos de 50 anos no estado do Rio, 56 ocorreram na faixa dos 20 aos 29 anos, 277 entre pessoas de 30 a 39 anos e 774 entre adultos de 40 a 49 anos.

De acordo com a SES-RJ, a mortalidade aumentou especificamente na faixa dos 40 aos 49 anos, passando de 5,4 para 7 mortes a cada 100 mil casos. Segundo a secretaria, a variação corresponde a um crescimento anual de aproximadamente 7,6%. Já entre pessoas de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos, a mortalidade permaneceu estável.

Outro dado que preocupa é o tempo para iniciar o tratamento. Conforme as informações fornecidas pela secretaria ao Enfoco, apenas 43% dos pacientes com menos de 50 anos começaram a tratar a doença em até 60 dias.

RJ tem estimativa de quase mil novos casos em menores de 50 anos

A falta de dados recentes e específicos sobre a incidência por idade dificulta medir com precisão como o câncer colorretal tem evoluído entre os jovens fluminenses.

Em resposta ao ENFOCO, Julio Fernando Pinto Oliveira, porta-voz da Divisão de Vigilância e Análise da Situação do Instituto Nacional de Câncer (INCA), informou que a estimativa para 2026 é de 6.520 novos casos de câncer de cólon e reto no estado do Rio de Janeiro, sendo 3.020 em homens e 3.500 em mulheres. Desse total, a estimativa é de 990 novos casos em pessoas com menos de 50 anos: 430 em homens e 560 em mulheres.

O INCA ressalta, porém, que esses números são estimativas, e não uma contagem consolidada de diagnósticos efetivamente realizados. Para calcular a distribuição por faixa etária, o instituto utilizou a mediana das proporções observadas nos Registros de Câncer de Base Populacional da Região Sudeste.

“Para realizar uma análise sobre a evolução dos novos casos de câncer de cólon e reto, precisaremos de uma série histórica de, no mínimo, 10 anos. Esse período é necessário para avaliarmos adequadamente o comportamento da tendência do câncer estudado. Infelizmente, o Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) Rio de Janeiro encontra-se inativo desde 1999, com expectativa de retomada das atividades em 2027”, pontua.

Aumento também é observado em outros países

Apesar de dados locais ainda preliminares, pesquisas internacionais já apontam crescimento do câncer colorretal de início precoce em diferentes partes do mundo.

Na Inglaterra, por exemplo, dados do Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer indicam que a frequência de diagnósticos da doença entre pessoas com menos de 50 anos dobrou entre 2001 e 2023. No início do período, cerca de uma em cada 26 mil pessoas nessa faixa etária recebia o diagnóstico. Em 2023, a proporção chegou a aproximadamente uma em cada 12 mil.

Outro estudo, publicado em 2025 e baseado em registros de 50 países e territórios, identificou aumento da incidência de câncer colorretal de início precoce em 27 localidades analisadas. Na América Latina, foram observadas altas no Chile, na Argentina, no Equador, na Costa Rica e em Porto Rico.

Qual é a causa do câncer no intestino?

O câncer colorretal afeta o intestino grosso, que inclui o cólon e o reto. Arte: Divulgação

Ainda não existe uma explicação definitiva para a enfermidade. Entre os fatores investigados estão mudanças na alimentação, consumo de carnes processadas e alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade, ou fatores hereditários. Os pesquisadores, no entanto, ainda buscam entender como esses fatores contribuem para o aumento dos casos e qual é o peso de cada um.

A maior conscientização sobre a doença e a ampliação da capacidade de diagnóstico também podem influenciar os números. Entretanto, pesquisas que identificam aumento de casos avançados entre pessoas jovens reforçam a preocupação com a tendência.

Perigos e a prevenção

Luciana Grucci Maya Moreira, chefe da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do INCA, explica que o aumento de casos em pessoas mais jovens vem sendo investigado a partir de diferentes fatores, incluindo mudanças no estilo de vida e nas exposições ambientais.

Segundo a especialista, existem fortes evidências de que o consumo excessivo de carne vermelha e de carnes processadas aumente o risco de desenvolver câncer de intestino.

“Existem fortes evidências apontadas pelo Fundo Mundial de Pesquisa em Câncer e pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, de que o consumo excessivo de carne vermelha (quantidade superior a 500 gramas de carne cozida por semana) e o consumo de carnes processadas (bacon, salsicha, linguiça, presunto, mortadela…) aumentam o risco de desenvolver câncer de intestino”, afirma.

O excesso de gordura corporal e o consumo de bebidas alcoólicas também estão associados ao desenvolvimento da doença.

Por outro lado, a prática regular de atividade física e o consumo de alimentos ricos em fibras, como cereais integrais, além de frutas, verduras e legumes, contribuem para a prevenção.

A especialista destaca que a exposição crescente dos jovens a fatores de risco, como alimentação inadequada, consumo de álcool e sedentarismo, pode ter papel importante nesse cenário, especialmente quando contribui para o ganho excessivo de peso.

Quais são os sinais de alerta?

O câncer colorretal afeta o intestino grosso, que inclui o cólon e o reto. Um dos desafios é que a doença pode não provocar sintomas em fases iniciais. Quando os sinais aparecem, eles podem ser confundidos com problemas intestinais comuns.

Os sinais e sintomas do câncer colorretal não se distinguem por faixa etária e são considerados inespecíficos, podendo estar associados a outras condições de saúde. Ainda assim, os sinais de alerta a seguir devem tratados com atenção, inclusive em adultos jovens”, — Renata Oliveira Maciel dos Santos, chefe da Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do INCA.

Principais sinais de alerta:

  • Mudança do hábito intestinal (diarreia ou constipação);
  • Anemia;
  • Perda de peso sem causa aparente;
  • Fezes escuras ou com sangue visível;
  • Massa abdominal;
  • Dor ou desconforto abdominal persistente.

Estratégias de prevenção:

  • Consumir alimentos de origem vegetal in natura e minimamente processados, ricos em fibras, como arroz, feijão, cereais integrais, frutas, verduras e legumes.
  • Evitar carnes processadas, como salsicha, linguiça, presunto, bacon, salame, mortadela e peito de peru. Limite a carne vermelha a 500 g cozida por semana, de preferência assada, cozida ou ensopada.
  • Movimentar o corpo. Mesmo atividades cotidianas, como caminhar, já trazem proteção.
  • Manter o peso saudável.
  • Não fumar e evitar bebidas alcoólicas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), não existe dose segura de álcool.

No que se refere ao histórico familiar ou outros fatores de risco, classifica-se como de alto risco para câncer colorretal as seguintes pessoas:

  • História familiar de câncer colorretal, incluindo síndromes hereditárias como polipose adenomatosa familiar e síndrome de Lynch;
  • História pessoal de doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa e doença de Crohn);
  • História pessoal de câncer de intestino, ovário, útero ou mama.

Como funciona o rastreamento no SUS?

O Ministério da Saúde trabalha no planejamento para implementar o rastreamento organizado do câncer colorretal no Sistema Único de Saúde (SUS). As diretrizes receberam parecer favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em março de 2026.

A proposta estabelece o teste imunoquímico fecal (FIT), exame que identifica sinais de sangue oculto nas fezes, como referência para homens e mulheres sem sintomas, dos 50 aos 75 anos, a cada dois anos. Quando o resultado é positivo, a recomendação é realizar uma colonoscopia para investigar a possível presença de lesões.

As diretrizes, contudo, não contemplam a população considerada de alto risco, para a qual são necessárias recomendações complementares.

Para pessoas com menos de 50 anos, sem sintomas e sem fatores de risco conhecidos, não há indicação geral de rastreamento de rotina pelas recomendações descritas. Nesses casos, a estratégia é o diagnóstico precoce, com investigação médica diante de sinais suspeitos.

Já quem tem histórico familiar relevante, doenças inflamatórias intestinais ou outros fatores de risco deve procurar orientação médica para definir a necessidade de acompanhamento e a idade adequada para começar a vigilância.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

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