Personalidades

O amor é cego?

Amar é gostar da alma do outro, e desejar salvá-la

Indivíduos aproximam-se por: desejo sexual, cobiça, interesse financeiro ou social, afinidade de profissões, carência e até mesmo por imposição familiar
Indivíduos aproximam-se por: desejo sexual, cobiça, interesse financeiro ou social, afinidade de profissões, carência e até mesmo por imposição familiar |  Foto: Divulgação
 

Tenho estudado muito as camadas da personalidade. À medida que vou avançando, fica cada vez mais claro para mim, que o amor real, verdadeiro e desinteressado, somente é possível com a conquista da maturidade. Apenas o aprimoramento da personalidade permite que uma pessoa aproxime-se de outra pelos motivos certos, desejando-lhe um bem infinito e ansiando por fazê-la feliz.

Digo sempre que, no mundo de coisas consumíveis que habitamos, e de valores tão invertidos e desproporcionalmente apreciados, os indivíduos aproximam-se por: desejo sexual, cobiça, interesse financeiro ou social, afinidade de profissões, carência e até mesmo por imposição familiar (em certas culturas).

Pessoas com corpos desejáveis, com carros de último modelo, com vasto patrimônio ou profissões de sucesso e com aparência descolada e uma vida movimentada por jantares, eventos e viagens, dificilmente ficam sozinhas. E por que? Porque o poder ocupa, hoje, lugar de destaque em nossa sociedade. Porque quem exibe uma imagem de poder, seja este de que tipo fôr, automaticamente é cobiçado. E o poder é ostentado por meio do impacto que causa na VISÃO. O que o outro vê, que o atrai? 

A série SEE, que acaba de encerrar sua segunda temporada na Apple TV, despertou em mim uma série de reflexões. Se praticamente todos os habitantes da Terra fossem cegos, muitos dos valores que hoje exaltamos como importantes, seriam perdidos. Em não podendo apreciar belos rostos e corpos, deslumbrar-se com carros, imóveis ou com a experiência de uma viagem, já que nada se vê, quais seriam os símbolos de poder cobiçados pela Humanidade?

Amar é gostar da alma do outro, e desejar salvá-la. Como assim???
 

Sabemos que as experiências sensoriais são de cinco tipos. Tato, olfato, paladar, visão e audição são fundamentais, para todos os seres humanos. Ocorre que o sentido da visão talvez seja o que maior possibilidade de desejos desperta nas pessoas, à medida em que, por meio do que se vê, pode-se ativar a imaginação e a percepção para todos os demais sentidos.

Ao contemplar um local luxuoso, lindo e elegante, o indivíduo pode imediatamente querer desfrutar do que este lhe oferece. Almejar algo está, sempre, muito associado a imagens, e por isso enxergar é tão indispensável, para nós. Ao vislumbrar uma comida bem apresentada, pode-se ficar com a boca cheia dágua. Ao avistar um cachorro, pode-se sentir medo. 

São tantas as sensações que a visão pode despertar, que seria inútil tentar descrevê-las. Mas fica evidente que a visão é a janela que se abre para os quereres. Os cheiros, sons, sabores e toques são muito importantes, mas não há nada como a visão, para ativar a cobiça, sobre pessoas e bens!

Por isso tudo que descrevi, a expressão popular O AMOR É CEGO pode dar-nos pistas sobre o que é, realmente, esse cada vez mais raro sentimento. Amar é gostar da alma do outro, e desejar salvá-la. Como assim???

Bem, pessoal, calma que eu explico: nós não somos os humanos de SEE. Portanto, possuímos a faculdade da visão, a qual nos foi graciosamente concedida por Deus. As dificuldades de locomoção, ação, adaptação ao espaço físico, percepção, contemplação e criação não fazem parte de nossa vida prática, pois nascemos enxergando o mundo ao redor. 

As pessoas que não enxergam podem, dentro da nossa sociedade, ser amparadas por outras que possuem o dom da visão, uma vez que são minoria, e podem beneficiar-se de invenções criadas por pessoas que vêem, as quais podem auxiliá-las, imensamente, em suas vidas práticas.

O fato de vivermos como os personagens de SEE, faria com que nossos valores sofressem uma transformação, no mundo dos desejos e quereres, das emoções e sensações. A beleza, por exemplo, deixaria de importar. A forma física, também. 

O poder migraria para os que possuíssem maior capacidade de defesa e de ataque, para os que pudessem lutar e proteger, a si mesmos e aos seus. Itens de moda, locais paradisíacos, casas e carros de luxo, peles e cabelos bem tratados, nada disso poderia ser visto - logo, não seria cobiçado. A força da personalidade, as nuances da alma e os sentimentos verdadeiros é que ganhariam mais espaço, nesse mundo tão diferente.

O mesmo acontece, guardadas as devidas proporções, com a capacidade de amar. Uma vez que todos os bens desejáveis socialmente, em  pouco ou nada se relacionam com os sentimentos, na modernidade, para amar é preciso trabalhar parcialmente a cegueira, a fim de que se enxergue a alma do outro. 

Evidentemente, por vivermos no mundo real, boa apresentação é algo que se espera do outro. Asseio, cuidado pessoal, uma harmonia entre corpo e espírito, uma certa beleza, tudo isso é sempre imensamente bem vindo e valorizado. Mas uma pessoa não se esgota aí. 

Não podemos amar alguém pelo carro que essa pessoa possui. Ou pela casa bonita em que reside. Ou pela conta bancária dela. Ou porque tem o abdômen mais trincado da academia. Isso não é amar, é desejar. A pessoa ou algo que ela tem. E desejo não perdura; uma vez realizado, ele fenece. Daí todas as relações terem se tornado consumíveis e com prazo de validade.

Nós podemos amar a generosidade e a bondade de uma pessoa. A doçura. O altruísmo. O temperamento. A forma como trata os outros e como busca melhorar como ser humano. A inteligência dela. O respeito pelos mais velhos. A facilidade com crianças e animais. O modo como sorri e revira os olhos. Até suas suas dificuldades e defeitos.

Podemos querer fazê-la feliz. Transformar a vida dela em algo muito especial. Poupá-la da dor. Consolá-la nos momentos difíceis. Ampará-la no caos. Viver ao lado dela. Ajudá-la a ser essa pessoa melhor que ela deseja. Apontar-lhe com carinho suas falhas. Estar junto, caminhar junto. Chorar e rir junto.

E por isso o amor é cego. Porque ele precisa sublimar todos os apelos do exterior, para focar na essência daquele ser que está ali, perto de você. Porque ainda que este ser perca a utilidade, a barriga tanquinho, o carro, a casa e fique careca, você vai amá-lo por quem ele é. E por ser a pessoa que você escolheu. 

O amor é cego porque exige que você feche os olhos para toda essa loucura consumível ao seu redor, e apenas sinta, dentro do seu peito, o quanto aquela pessoa é importante para você e como amá-la te faz ser alguém melhor. E não traia. Não minta. Não engane. Não substitua-a, se ela não for mais a mesma de quando você se apaixonou. Todos nós mudamos.

As pessoas da série SEE são desconfiadas e não costumam se entregar. O mundo é um lugar perigoso, com muitas surpresas desagradáveis, os homens são maus. Mas quando aquela gente ama, o sentimento é de verdade. Porque o que há para amar é o que está dentro do outro, e não do lado de fora. Lá fora, no mundo imaginário da série, só existe escuridão e dor. E o melhor de tudo, é ter para onde voltar.

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de justiça criminal, mestre em ciências penais e criminologia e membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade.

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