Um fenômeno ganha proporções preocupantes e avança em ritmo acelerado nas plataformas digitais: a chamada ‘cultura do título e imagem’. Como resultado direto das constantes atualizações de algoritmos nas redes sociais, a forma de consumir conteúdo vem sofrendo alterações profundas, apontando para um comportamento social cada vez mais passivo e aprisionado a limites superficiais de atenção.
No ambiente digital, vem se tornando habitual a redução da leitura da notícia apenas ao título e à imagem do card. Não são raros os comentários em publicações questionando a ausência de informações na reportagem, dados que já constam na legenda, no corpo da matéria ou até no próprio título do post.
Segundo o Relatório de Notícias Digitais 2026, elaborado pela Reuters com a Universidade de Oxford, pela primeira vez as mídias sociais superaram emissoras de TV, jornais e aplicativos de notícias como principal canal de busca por informação.
No Brasil, o estudo revela que 54% da população prefere se informar pelas redes sociais. Em 2016, a televisão liderava a preferência na busca por informação, respondendo por 74% do público. Dez anos depois, o índice da TV caiu para 52%, enquanto a busca por notícias nas redes subiu para 54%. Já os jornais impressos, que somavam 41% da audiência em 2016, caíram para 16% em 2026, sobretudo com a chegada de novas tecnologias como podcasts e chatbots.
O impacto dos algoritmos na atenção
A mudança de hábito do brasileiro se relaciona ao avanço tecnológico que tornou o jornal impresso um suporte obsoleto para grande parte da população. Contudo, as atualizações dos algoritmos impostas pelas plataformas atravessam a busca por conhecimento, condicionando o usuário a leituras rápidas estimuladas por vídeos e imagens de forte impacto.
Pesquisas sobre comportamento da Comscore e da Reuters revelam que cerca de sete em cada dez leitores digitais se informam exclusivamente pela leitura do card (foto e título) em feeds do Instagram, Facebook e X (antigo Twitter), sem clicar para ler a legenda ou acessar o link da reportagem.
Para a professora de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Adriana Barsotti, a transformação comportamental consolida tendências aceleradas nos últimos anos.
“O Brasil foi o primeiro país onde isso aconteceu na pandemia. É um consumo passivo em que o usuário fica refém dos algoritmos”, explica.
Risco de bolhas e ‘camadas de eco’
Segundo a especialista, o cenário atual exige alerta. O formato acelerado de consumo nas mídias sociais, somado ao modelo determinado pelas plataformas, gera o que ela define como “camadas de eco”.
Isso vai além da alienação. O usuário fica nas camadas de eco, que são as bolhas, e acaba impedido de uma reflexão mais plural”, — Adriana Barsotti, professora da UFF.
A pesquisadora pondera, no entanto, que a responsabilidade não deve recair unicamente sobre o público.
“Não dá para culpar apenas o usuário. A imprensa precisa resgatar a confiança do leitor. É preciso um equilíbrio entre escutar o usuário, mas sem abrir mão de temas de interesse público”, esclarece.

Crise de confiança e o fator do leitor
A análise acadêmica encontra eco na rotina do consultor de Tecnologia da Informação (TI) José Claudinez Rodrigues, de 68 anos, que avalia com desconfiança o conteúdo veiculado por grandes grupos de comunicação. Ex-assinante de jornal impresso, ele hoje recorre às mídias sociais.
“Procuro me informar mais pelo Instagram e Facebook, mas tem muita baboseira também. TV eu não confio mais!”, desabafa.
Para Claudinez, a abordagem dos jornais tradicionais distancia o público, sobretudo na cobertura política. Sobre a navegação nas redes, aponta o desgaste de clicar para abrir matérias no feed e admite que prefere outros formatos.
“Eu faço isso tudo, mas ainda prefiro vídeos”, revela.
Dados do relatório da Reuters e Oxford confirmam o cenário: apenas 37% dos brasileiros confiam em notícias veiculadas pela imprensa oficial, contra 45% registrados há dez anos.
Apesar dos números ruins, a professora da UFF reforça a relevância do jornalismo profissional para a sustentação da democracia.
“O jornalismo precisa fazer esse resgate! A obrigatoriedade do diploma para a profissão voltou a ser tema de debate. Isso é importante diante de tantos influenciadores que tentam substituir o jornalista. Um papel que é de responsabilidade, ética e técnica”, pontua.
Sem o aprofundamento do texto, o debate público passa a ser guiado por impressões instantâneas, acentuando a polarização e a proliferação de desinformação nos comentários das redes sociais.
Impacto visual
Quem também se informa por plataformas digitais é o músico Glauber Nazário, de 42 anos, mas com preferências bem definidas.
“O principal meio de comunicação que eu consumo atualmente é o YouTube. Assisto pouco TV aberta e não tenho mais o hábito de ler jornais impressos”, comenta Nazário, que completa: “Vejo mais informações nos telejornais e canais que sigo pelo YouTube. Mais do que pelo Instagram”.
A convergência de diferentes faixas etárias, entre o músico e o consultor de TI, revela a consolidação do hábito de assistir e visualizar em vez de ler, impulsionado por mecânicas desenhadas para reter o usuário no mesmo ambiente virtual por meio de frases curtas e impacto visual.
Plataformas exploram essa busca por praticidade utilizando mecânicas de reforço intermitente, como o ato de puxar a tela para atualizar, idêntico às alavancas de caça-níqueis.
Efeito colateral
A conveniência se transforma em dependência comportamental. O cérebro recebe picos de dopamina com conteúdos curtos, mas desenvolve fadiga e ansiedade pelo volume contínuo de estímulos, tornando a leitura de matérias longas uma tarefa cognitivamente exaustiva.
Hiperconectividade e desconexão

Além do padrão de formato, especialistas alertam para o impacto psicológico dessa dinâmica. A terapeuta Ângela Alves, com mais de 20 anos de experiência clínica, avalia o quadro como um retrato de hiperconectividade associada à desconexão com o presente.
“Aqui o indivíduo perde a capacidade de estar vivendo no presente ‘aqui e agora’ de sentir e experienciar as sensações corporais. A checagem constante e visualizações das informações geram picos de dopamina, seguidos de ansiedade impedindo dessa forma que a atividade física cumpra o seu real papel”, explica.
A terapeuta acrescenta que a neurociência e a psicologia cognitiva explicam como as redes aplicam mecanismos de reforço intermitente, semelhantes aos de jogos de azar.
“O mecanismo de deslizar o dedo para baixo para atualizar a tela foi desenhado com o som e a mecânica visual idênticos às alavancas dos cassinos, justamente para criar a sensação de ‘tentar a sorte’”, afirma.
A especialista conclui ressaltando os limites neurológicos do cérebro diante do volume contínuo de estímulos digitais.
A cultura digital impõe uma lógica de consumo rápido e descartável. A experiência humana é desacelerada; o algoritmo é hiperveloz. Para não se sentirem ‘para trás’ ou desatualizadas, as pessoas aceleram o próprio ritmo interno até esvaziar suas vivências de qualquer significado real”, — Angela Alves, psicóloga.