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Curiosidades

Niterói vai ‘farmar aura’? Entenda a polêmica em torno do evento na cidade e o fenômeno que saiu da internet para o mundo real

Tayná Ferreira | Publicado em:

Farmar Aura, em Niterói
Organizadores negociam a realização do evento no Caminho Niemeyer, em Niterói. Imagem gerada por IA

O que começou como uma brincadeira nas redes sociais ganhou às ruas e promete virar uma disputa presencial em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. O primeiro “Campeonato de Farmar Aura”, que rapidamente reuniu centenas de interessados, teve a data inicialmente anunciada pelos organizadores para o dia 15 de agosto, no Caminho Niemeyer, no centro da cidade. No entanto, a prefeitura informou que o evento ainda não está autorizado. Apesar disso, os organizadores garantem que a competição será realizada, mesmo que seja necessário remarcar o evento.

Organizado de forma independente, o campeonato teve o Caminho Niemeyer divulgado como palco da disputa. Segundo a Prefeitura de Niterói, porém, o pedido para utilização do espaço em 15 de agosto não foi aprovado.

A administração municipal informou que entrou em contato com os organizadores pelas redes sociais para explicar que, na data solicitada, o espaço estará fechado para a montagem da estrutura de outro evento, marcado para o dia seguinte.

‘A equipe de gestão está em contato com a organização do evento para que ela possa cumprir os trâmites necessários, caso tenha interesse em realizar a competição no Caminho Niemeyer’, informou a prefeitura em nota.

No dia 16 de agosto, o local receberá o show do grupo de pagode Sorriso Maroto, com a turnê “Sorriso Eu Gosto no Pagode”.

Mesmo diante da indefinição sobre a data, as inscrições seguem abertas para competidores, jurados e público. Até o momento, a organização já contabiliza cerca de 319 pessoas inscritas para acompanhar a disputa e 25 competidores confirmados. O vencedor receberá R$ 100 e um mês de aulas gratuitas de futevôlei.

Vai acontecer

caminho niemeyer

Organizadores do evento, Rodrigo Lemos e Guilherme Simões confirmam que na última quarta-feira (29) participaram de uma reunião com a administração do Caminho Niemeyer para discutir a realização do campeonato. Segundo Rodrigo, a expectativa é manter o evento no mesmo local, mas em nova data.

“Ele vai acontecer, isso é um fato. A previsão é que seja no fim de agosto ou no começo de setembro. Assim que recebermos a confirmação da data disponível, vamos divulgar. O local permanece o mesmo: o Caminho Niemeyer”, afirma.

A Prefeitura de Niterói, por meio do Grupo Executivo do Caminho Niemeyer informou que está em contato com a produção do evento para alinhar uma possível data para o campeonato. ‘Entretanto, é importante reforçar que, para que o evento aconteça, ele precisa passar por todos os trâmites internos junto à Coordenadoria de Gestão de Eventos (CGE) para autorização. Qualquer divulgação do evento só poderá ser feita após aprovação do referido órgão’, disse em nota.

Rodrigo afirma que a expectativa para o evento é reunir um grande número de jovens e que os organizadores já pensam em novas edições do campeonato.

“Vamos começar a disponibilizar os ingressos, que são uma exigência do próprio Caminho Niemeyer para o controle de acesso. A entrada será gratuita, mas os ingressos serão limitados. Por isso, nem todo mundo poderá assistir a esta edição e talvez tenha que participar da próxima. Esperamos que o público aproveite o evento”, conclui.

Mas afinal, o que significa farmar aura?

O verbo farmar surgiu no universo dos jogos eletrônicos e significa acumular pontos, recursos, energia, ou experiência para evoluir dentro do jogo. Já o termo aura, na linguagem das redes sociais, passou a representar uma combinação de carisma, estilo e presença capaz de fazer uma pessoa parecer mais interessante ou admirada.

Na prática, “farmar aura” significa construir ou aumentar esse prestígio diante dos outros por meio de uma atitude marcante, uma ação considerada estilosa ou uma apresentação criativa.

Viral entre crianças e adolescentes

Para alguns jovens, ‘farmar aura’ não está necessariamente ligado apenas às danças ou apresentações que viralizam nas redes sociais. A expressão também passou a ser usada para definir momentos em que alguém consegue se destacar ou fazer algo considerado impressionante.

Os irmãos Sophia Julio, de 11 anos, e Theo Julio, de 7 anos, entendem o termo como uma forma de “arrasar” ou fazer algo melhor que os outros em determinada atividade. Segundo eles, o primeiro contato com a expressão aconteceu na escola. Theo conta que ouviu a gíria durante uma aula de judô.

“No judô, um aluno completou a frase do sensei antes dele terminar de falar, e um aluno falou: ‘Caramba, o Pedrinho farmou aura'”, relembra.

Questionados se já farmaram aura, os irmãos deram exemplos diferentes. Sophia contou que já participou de brincadeiras usando a expressão. “Sim, fazendo six seven com a perna levantada e com uma mão por baixo”, explica.

Já Theo diz que ainda não tentou. “Nunca tentei, porque acho uma coisa louca”, afirma.

Para a tia das crianças, a jornalista e criadora de conteúdo Gabrielly Ferraz, a popularização da expressão mostra que ainda existem espaços para brincadeiras e interações entre crianças e adolescentes.

“Eu acho bacana porque mostra que ainda existe uma parcela de jovens e crianças que se entregam às brincadeiras da idade. E tudo é fase, né? Na minha época eu farmava aura na queimada, pois fazia vários malabarismos desviando da bola”, conta.

Fenômeno comportamental e linguístico

Para o professor Adilson Cabral, do Curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense (UFF), a expressão está relacionada à ideia de se destacar dentro de um grupo.

Segundo ele, ‘farmar aura’ representa uma forma de demonstrar algo considerado diferente, interessante ou capaz de despertar a atenção de outras pessoas.

“Farmar aura é aquilo que desperta interesse, atenção, curiosidade, que tem uma coisa diferenciada para falar”, explica.

O professor afirma que a expressão também ganhou força porque existe uma curiosidade dos usuários em compreender as gírias utilizadas pelas gerações mais novas.

“A população, de um modo geral, tem curiosidade de conhecer as gírias da população mais nova, das pessoas que têm menos idade, que falam determinados termos que não são compreendidos pelos mais velhos, nem mesmo pelos irmãos mais velhos, quem dirá sobrinhos, pais ou pessoas de maior idade”, afirma o especialista.

Segundo Adilson, muitas expressões começam restritas a determinados grupos, mas acabam alcançando públicos maiores justamente pela curiosidade em entender esses novos códigos de comunicação.

“Houve uma curiosidade em relação a determinados temas e expressões que, a princípio, não significariam nada para os adultos ou para os mais velhos, mas que fazem sentido, geram comunicação e criam interações entre a garotada mais nova”, completa.

Tendências potencializadas pelas redes sociais

Adilson explica que expressões como ‘farmar aura’ e ‘six seven’ estão ligadas ao funcionamento das plataformas digitais e à forma como diferentes gerações se relacionam nesses ambientes.

Segundo ele, redes sociais como Instagram, TikTok e Facebook, além de plataformas ligadas a jogos e comunidades virtuais contribuem para a circulação dessas tendências.

“Hoje em dia a gente já observa uma consolidação desse modo de plataformas de mídias sociais, como Instagram, TikTok e o próprio Facebook, que é de uma geração anterior, além de plataformas que envolvem jogos, formas de relacionamento mais específicas e mundos virtuais, que mobilizam muitas pessoas de gerações diferentes”, explica.

O professor destaca que memes e gírias costumam surgir inicialmente dentro de grupos com idades e interesses semelhantes, mas podem ultrapassar esses espaços quando despertam a atenção de outros públicos.

“Os memes e as gírias de determinada geração circulam, num primeiro momento, entre pessoas que têm idades equivalentes, frequentam os mesmos espaços e possuem expectativas, demandas e formas de consumo semelhantes”, afirma.

Para ele, parte da popularização dessas expressões acontece justamente porque os mais velhos inicialmente não compreendem essa linguagem criada pelos jovens. “O que faz a diferença é essa ausência de compreensão dos mais velhos sobre essa linguagem de códigos quase cifrada que a garotada mais nova vem falando”, completa.

O professor também destaca que a velocidade da internet e o uso dos dispositivos móveis influenciam o surgimento e a circulação dessas tendências.

“Essa mobilidade, essa praticidade, essa imediaticidade e, ao mesmo tempo, essa capacidade de efemeridade, de as coisas acontecerem e desaparecerem, mas reaparecerem em outros momentos, são marcas dessa geração atual”, explica.

A busca por destaque em meio ao excesso de informações

Para Adilson Cabral, apesar de ser uma expressão recente, o conceito está ligado a uma busca antiga da humanidade: a necessidade de diferenciação e reconhecimento.

Segundo o professor, jovens e adolescentes utilizam a expressão para identificar aquilo que chama atenção e gera valor dentro de determinados grupos.

“Jovens e adolescentes vêm se mobilizando em torno dessa ideia justamente por conta dessa necessidade de identificar destaques, pessoas, expressões e formas de referência para compreender o que chama atenção, o que mobiliza as pessoas e o que gera valor a partir de determinadas atitudes e posicionamentos”, afirma.

De acordo com professor, o termo representa uma nova maneira de expressar a tentativa de se destacar em meio ao grande volume de informações disponíveis atualmente.

Farmar aura acaba sendo uma expressão nova para algo que é extremamente antigo, tão clássico quanto a necessidade de se destacar na multidão, de criar algo diferenciado que desperte e gere valor em torno daquilo”, — Adilson Cabral, professor de Comunicação Social e de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano da UFF.

Como funcionam os campeonatos de farmar aura?

A popularização da expressão também deu origem a campeonatos presenciais, nos quais os participantes apresentam performances para conquistar o reconhecimento do público.

Nas disputas, vale quase tudo para chamar a atenção da plateia. Danças, poses, desafios e provocações bem-humoradas fazem parte das apresentações. O objetivo é demonstrar personalidade, arrancar aplausos e mostrar quem consegue se destacar.

Nessas competições, os participantes disputam quem consegue demonstrar mais “aura” diante do público.

Os jurados avaliam critérios como:

  • Criatividade;
  • Presença de palco;
  • Interação com a plateia e a quantidade de “aura” demonstrada por cada competidor.

As notas variam de 1 a 10. Quando uma apresentação supera todas as expectativas, recebe a nota máxima da brincadeira: o famoso “six”, termo usado pelos participantes para representar uma performance considerada impecável.

Embora a premiação seja simbólica, o principal objetivo é conquistar o reconhecimento do público e mostrar quem consegue “farmar aura” de forma mais criativa e carismática.

Segundo o professor Adilson Cabral, esses eventos funcionam como espaços de encontro e valorização coletiva. O especialista compara essas disputas a outras manifestações culturais em que os participantes buscam destaque por meio de suas apresentações, como as batalhas de rima e as competições de rap.

“Esse encontro presencial envolve uma determinada comunidade de interesse em torno daquilo que mais desperta atenção. Da mesma forma como as batalhas de rima e de rap remontam ideias de gerações anteriores, essas práticas são ressignificadas em função da construção de atitudes de destaque reconhecidas pela própria coletividade”, explica.

Na opinião da jornalista e criadora de conteúdo Gabrielly Ferraz, transformar uma tendência da internet em um encontro presencial pode ser positivo justamente por incentivar a convivência entre crianças e adolescentes.

“Tirar uma gíria ou expressão que nasceu no digital e levá-la para a vida fora das redes sociais é uma forma de fazer com que eles interajam entre si e criem experiências coletivas a partir de gostos em comum”, afirma.

Organizador do primeiro Campeonato de Farmar Aura em Niterói, Rodrigo Lemos destaca que a iniciativa busca incentivar a socialização entre os jovens e reduzir o tempo excessivo diante das telas.

“A importância de um evento desse para a cidade é, primeiramente, conectar os jovens com outros jovens, tirar esse excesso de tela que eles estão tendo e, principalmente, recuperar o tempo perdido de conexão interpessoal, conexão humana perdida durante a pandemia”, explica Rodrigo.

A busca por pertencimento

Para o psicólogo e professor de Psicologia Clínica e Saúde Mental da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maycon Rodrigo da Silveira Torres, a popularização de expressões como ‘farmar aura’ também pode ser compreendida pelas características próprias da adolescência, fase marcada pela construção da identidade e pela busca por pertencimento.

Segundo o especialista, a necessidade de criar vínculos e fazer parte de grupos é uma característica humana, mas ganha maior intensidade durante essa etapa da vida.

“O ser humano é um ser social. Boa parte da experiência humana exige compartilhamento e formação de grupos. Inicialmente, esse processo acontece na família e, posteriormente, com a inclusão da escola e de outros espaços de convivência”, explica.

De acordo com Maycon, a adolescência é um período em que ocorre um movimento de maior autonomia em relação à família e de busca por novas referências.

“É um momento em que o adolescente começa a ganhar mais autonomia, circula por diferentes espaços sem a supervisão familiar e passa a construir uma identidade entre a família e a sociedade mais ampla. É justamente nesse contexto que a necessidade de validação se intensifica”, afirma.

O psicólogo explica que essa construção acontece por meio do chamado espelhamento, processo em que os jovens buscam referências em pessoas ou grupos com os quais se identificam.

“É comum o adolescente tentar se desprender de alguns traços da família para criar suas próprias identificações. Nesse movimento, ele busca referências em outras pessoas, outros grupos e outras formas de comportamento”, explica.

O espelhamento a partir das redes

Segundo Maycon, as redes sociais ampliaram o processo de identificação entre os adolescentes, principalmente por meio de plataformas baseadas em imagens e vídeos, nas quais aparência, estilo e comportamento ganham maior visibilidade.

“Nas redes sociais, essa dimensão do espelhamento fica mais literal. O adolescente passa a observar estilos de roupa, maquiagem, adereços, mas também palavras, gestos e danças que fazem parte de uma identidade comportamental”, afirma.

O especialista destaca ainda que a internet também expandiu os grupos de referência dos jovens, permitindo o contato com diferentes culturas, comunidades e formas de expressão.

“Esse universo inclui referências internacionais, cultura popular, filmes, séries, desenhos, animes e outros elementos que passam a fazer parte da construção da identidade dos adolescentes”, explica.

Na avaliação do psicólogo, embora algumas tendências da internet possam parecer estranhas ou exageradas para quem observa de fora, elas também podem representar uma oportunidade de estimular a convivência presencial.

Mesmo que, de fora, a gente julgue ou ache exagerado, esse movimento de realizar campeonatos de ‘farmar aura’ demonstra uma necessidade de socialização para além das redes sociais”, — Maycon Rodrigo da Silveira Torres, psicólogo da UFF.

Tayná Ferreira

Apaixonada por contar histórias. Atua principalmente em segurança pública e cidades, com interesse em diferentes editorias. Estudante de Libras e apaixonada pelos animais. Instagram: @taynafjornalismo

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