Antes de detalhar a nova fase da carreira, que inclui o álbum Io Canto 2 e uma nova turnê internacional, Laura Pausini fez questão de destacar a relação construída ao longo de mais de três décadas com o Brasil. Não como ponto de partida de agenda, mas como um território afetivo, moldado por encontros musicais, amizades, canções que atravessaram idiomas e por um público que ela define, sem rodeios, como um dos mais apaixonados do mundo.
Agora, essa história ganha novos capítulos com o lançamento do disco, que aproxima clássicos da música italiana de referências brasileiras, e com o anúncio de uma apresentação única e inédita em um estádio no país, marcada para fevereiro de 2027.
Diretamente de Milão, Laura Pausini conversou com jornalistas brasileiros em um encontro virtual com a imprensa, do qual este jornalista participou, para detalhar o novo projeto e revisitar memórias que ajudam a explicar por que o Brasil ocupa um espaço tão especial em sua vida artística e pessoal.
Em um papo longo, emotivo e cheio de digressões sinceras, a artista falou da parceria com Ana Carolina e Ferrugem, da influência da filha nas escolhas musicais, do desejo de gravar um álbum inteiro em português e da emoção de voltar ao país em um momento simbólico da carreira.
‘O Brasil sempre fez parte da minha história’
O ponto de partida de Io Canto 2 é, ao mesmo tempo, íntimo e coletivo. Vinte anos depois do lançamento de Io Canto (2006), disco que marcou uma virada em sua trajetória ao homenagear grandes clássicos da música italiana, Laura decidiu revisitar esse universo a partir de um olhar mais maduro, menos preocupado com regras e mais guiado pela memória afetiva. Segundo ela, o processo de escolha do repertório foi quase terapêutico.
“Pela primeira versão de Io Canto, que é escutar, lembrar dentro de mim aquelas músicas que me acompanharam nos momentos mais importantes, não só os belos, mas também os momentos históricos da minha vida pessoal. Eu fiz uma busca também como fã. Eu estive totalmente livre de cantar e escolher as músicas que agora canto”, afirmou a cantora.
A liberdade, aliás, foi uma palavra recorrente ao longo da conversa. Laura contou que, além de mergulhar nas próprias lembranças, pediu ajuda a pessoas próximas para construir o repertório. Amigos e familiares foram convidados a listar canções marcantes de suas vidas, em um exercício que ajudou a ampliar o olhar da artista para além de suas referências pessoais.

“Eu perguntei a algumas pessoas importantes da minha vida, amigos, familiares, de fazer uma lista de dez títulos das suas canções favoritas. Uma dessas pessoas estava no Brasil. Depois eu ensaiei e, somente dentro de mim e sozinha, eu escolhi as músicas finais”, contou.
Foi nesse contexto de escuta aberta que surgiram as pontes mais explícitas com o Brasil. Uma delas passa diretamente por Ferrugem, nome central do pagode atual, que divide com Laura e Ana Carolina a nova versão de “Quem de Nós Dois”. A escolha do cantor, segundo Laura, nasceu de uma curiosidade quase obsessiva por novas vozes.
“Eu comecei a conhecer o Ferrugem porque eu sempre gosto de fazer buscas na internet de novos talentos. Eu faço isso em vários países do mundo. Eu escrevo simplesmente ‘novos cantores do Brasil’ e entro nas plataformas de música. Quando escutei a voz do Ferrugem, eu parei de buscar”, revelou.
Encantada, ela seguiu elogiando o brasileiro com entusiasmo genuíno. “Ele tem uma voz privilegiada. Tem uma coisa que, com muita dificuldade, agora eu escuto em novos cantores. Eu não conheço todos, mas o Ferrugem tem uma voz que me apaixona. A maneira como ele canta samba, pagode, mas também pode cantar funk, pop… vários estilos. Sempre tem uma característica importante que você lembra dele”, disse.
A parceria com Ferrugem se conectou naturalmente a Ana Carolina, nome central da música brasileira e referência para diferentes gerações. O encontro dos três artistas acontece em Io Canto 2 e marca um momento especial na carreira de Laura Pausini: é a primeira vez que a cantora italiana forma um trio vocal, reunindo vozes e trajetórias de gerações diferentes em uma mesma canção.
A ideia ganhou força a partir de uma situação doméstica inesperada. Laura contou que a filha, de apenas 12 anos, ouviu a versão italiana da canção e se emocionou, sem saber que se tratava de uma música brasileira lançada em 1994.

“Quando perguntei a ele de cantar comigo e com a Ana Carolina, eu perguntei porque a minha filha, quando escutou a versão italiana, não conhecia a música original. Ela me disse: ‘mãe, eu gosto dessa canção, eu vou dedicar essa canção a uma pessoa que eu conheci’”, relatou.
A reação da filha surpreendeu ainda mais pelo contexto familiar. Laura revelou, com bom humor, que a adolescente não costuma gostar das músicas da mãe. “É uma coisa muito normal, porque a minha filha não gosta muito da minha música”, brincou. “Então foi muito interessante escutar pela voz de uma pessoa de 12 anos que ama uma canção de 1996.”
A partir daí, a cantora passou a enxergar a música sob outra perspectiva. “Eu pensei: por que não chamamos um jovem cantor da nova geração para cantar junto com a Ana Carolina e comigo, que temos a mesma idade? Uma canção para escutar como se pode entender a interpretação daquela música tão importante no Brasil pela voz de um homem”, explicou.
Álbum em português
Esse mergulho no português não deve parar por aí. Questionada sobre a possibilidade de gravar um álbum inteiro no idioma, Laura confirmou o desejo e revelou que já faz planos concretos para isso. “Provavelmente eu vou fazer isso, mas quero fazê-lo no Brasil”, afirmou.
“Gostaria de viver aí por um tempo, chamar amigos músicos, pessoas que conhecem a minha personalidade e que podem me ajudar a encontrar músicas que me representem.”
A relação com o país também se materializa nos palcos. Em março de 2026, Laura inicia a Io Canto / Yo Canto World Tour 2026/2027, sua décima primeira turnê mundial, com dois shows distintos, repertórios diferentes e cenografias exclusivas para cada álbum. No Brasil, porém, o destaque fica para a apresentação marcada para 27 de fevereiro de 2027, na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo.
Será a primeira vez que Laura canta em um estádio brasileiro, um feito que ela encara como histórico. “Quando a agência do Brasil me apresentou a proposta de cantar em um estádio, eu fiquei emocionada. Mas fiquei ainda mais quando me disseram que a data era 27 de fevereiro”, contou. “Esse é um dos dias mais importantes da minha vida, porque foi o dia em que eu ganhei o Festival de Sanremo, quando tinha 18 anos.”

A coincidência transformou o show em algo ainda mais simbólico. “É incrível que a minha primeira vez em um estádio, na minha terra favorita fora da Itália, seja no dia mais importante da minha carreira”, afirmou. “E também porque fazer um estádio para uma mulher de 52 anos não é uma coisa muito normal.”
A emoção tomou conta da cantora ao falar do momento. “Eu vou dar um show muito especial. Tenho o coração batendo forte porque mal posso esperar para cantar para todos vocês, em italiano e em português”, disse. “Quero convidar muitos amigos brasileiros e espero que todos vocês estejam comigo naquela noite.”
No encerramento do encontro, ao lembrar dos 33 anos de carreira e do carinho constante dos fãs brasileiros, a emoção falou mais alto. Com a voz embargada e lágrimas nos olhos, Laura agradeceu. “Viver 33 anos de carreira é uma bênção. Celebrar isso em outros países, em uma terra que me… desculpa, eu choro”, disse. “Muito obrigada. Eu amo o Brasil. Sempre.”
