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‘Vão dizer que é lacração’, diz Grazi Massafera sobre Dona Beja

André Silva | Publicado em:

Atriz afirma que releitura da novela provoca debates e não busca agradar a todos - Foto: Divulgação / HBO Max

Grazi Massafera não economiza palavras ao falar de “Dona Beja”. Durante a coletiva de imprensa da nova produção da HBO Max, realizada nesta terça-feira (27) e acompanhada por este jornalista, a atriz deixou claro que a personagem marca um ponto de virada em sua trajetória artística. “É a primeira vez que digo que estou realmente encarnada em um papel. Dona Beja é a personagem que eu mais amei fazer até hoje”, afirmou.

A novela, que estreia na próxima segunda-feira (2) no streaming, revisita a história de Ana Jacinta de São José, mulher que se tornou uma lenda ainda no século 19 por viver à margem das normas sociais de sua época. Quarenta anos após a versão protagonizada por Maitê Proença, a obra retorna agora como uma releitura, sem a intenção de repetir caminhos já conhecidos.

“Não estamos falando de um remake”, reforçou Grazi. “É uma releitura que usa o passado para falar diretamente com o presente. Beja existiu de verdade, e a força dessa mulher atravessa o tempo. Infelizmente, ainda vivemos em um cenário muito duro para as mulheres, e a nossa forma de lutar é com arte e cultura”.

Grazi Massafera
Grazi Massafera fala sobre Dona Beja em coletiva de imprensa – Foto: Reprodução

Segundo a atriz, a nova Dona Beja não busca agradar a todos, e essa escolha é consciente. “Os mais conservadores vão dizer que é lacração. Vai ter crítica, vai ter hater, vai ter de tudo. E tudo bem. Quando você provoca, quando mexe, você obriga a sociedade a se olhar no espelho. A gente enfia o dedo na ferida”, disse, sem rodeios.

Uma mulher à frente — e além — do seu tempo

Ana foi mãe solo, independente e alvo constante de boatos e julgamentos morais em uma sociedade que não admitia mulheres fora do padrão. Na releitura da HBO Max, Dona Beja surge menos como símbolo erótico e mais como representação de autonomia, coragem e resistência feminina.

Dirigida por Daniel Berlinsky, a novela aposta em uma dramaturgia que assume o incômodo como parte do processo narrativo. “Não é uma novela de água parada, é movimento”, explicou o diretor durante a coletiva. “A única coisa que eu peço é: pense, ache o que quiser, mas se permita sentir.”

Grazi
Grazi Massafera como Dona Beja – Foto: Divulgação / HBO Max

Berlinsky destacou que, ao revisitar a história, percebeu como a figura real que inspirou a personagem foi distorcida ao longo dos anos. “O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo”, explicou. A partir dessa base, a trama amplia o olhar para personagens e narrativas apagadas pela historiografia tradicional.

A atualização da história também passa pela inclusão de temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social, sempre respeitando o contexto histórico. “A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou”, avaliou o diretor.

Força feminina como eixo da trama

Além de Grazi Massafera, “Dona Beja” reúne um elenco de peso. O trio central é formado pela protagonista ao lado de David Junior e André Luiz Miranda, acompanhados por nomes como Deborah Evelyn, Erika Januza, Indira Nascimento, Thalma de Freitas, Bianca Bin, Otávio Muller, Isabela Garcia, Bukassa Kabengele e Gabriel Godoy. A produção ainda conta com participações especiais de Elizabeth Savalla, Othon Bastos, Elisa Lucinda, Virgílio Castelo e Lúcia Veríssimo.

Erika Januza, que interpreta Candinha, destacou que a união entre mulheres é um dos pilares da narrativa. “Essa novela tem uma questão muito forte de união feminina. Candinha é uma mulher que cai, levanta e dá a volta por cima. Essa força me pegou muito”, contou.

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Erika Januza reflete sobre a novela Dona Beja – Foto: Reprodução

A atriz também refletiu sobre o impacto do julgamento social, especialmente nas redes. “Nem todo mundo está preparado emocionalmente. Às vezes, uma opinião ruim acaba com a autoestima. A força que Beja constrói é algo que toda mulher pode construir para não se definir pelo olhar do outro.”

Indira Nascimento falou sobre a complexidade de sua personagem, Maria. “Ela é intensa, às vezes passa do limite, mas é profundamente humana. Erra, volta atrás, tenta de novo. Quero que as pessoas enxerguem essa humanidade. Para mim, foi um presente.”

Afeto, admiração e provocação

Em um dos momentos mais emocionantes da coletiva, Thalma de Freitas celebrou o retorno à teledramaturgia brasileira e fez um agradecimento direto a Grazi. “É um prazer voltar para a TV como uma mulher que representa tantas outras que sempre existiram, mesmo quando diziam que não. Sua ética profissional é um farol. Tenho muito prazer em ser sua amiga e colega de trabalho”, disse.

Deborah Evelyn manteve o suspense sobre os rumos da trama, mas deixou um aviso ao público. “Vocês não têm ideia do que vai acontecer. A novela está incrível”, afirmou.

Grazi, por sua vez, comentou que preferiu não reassistir à versão original antes de compor a personagem. “Beja não é definida pela beleza. A beleza é só um veículo. Ela rompe barreiras, não aceita padrões e não pede licença para existir. É o tipo de mulher que eu acredito e que educo minha filha para ser.”

Consciente de que a obra deve dividir opiniões, a atriz encara a repercussão como parte do jogo. “Falando bem ou mal, estão falando. Qualquer crítica muito pesada é uma oportunidade de afirmar valores, ética e posicionamento. Vamos fazer do limão uma limonada.”

Ambientada no passado, mas conectada às tensões do presente, “Dona Beja” estreia na HBO Max com a promessa de provocar reflexão, debate e emoção.

André Silva

Bastante ativo na cobertura cultural, ja foi contemplado com o Prêmio Themis de Jornalismo, concedido pelo TJRS. Além da cultura, caminha por várias editorias, inclusive em cobertura de eventos internacionais, como a Cúpula do G20 e o encontro dos Brics. Instagram: @andrre.sillva

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