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Esportes

Caminhada muda vida de morador de Niterói e vira ‘febre’ nas madrugadas

Ezequiel Manhães | Publicado em: - Atualizado 6 meses atrás

O segurança Fábio Silva Abreu, o “Fábio Galão”, de 44 anos. Foto: Reprodução

Um conselho simples, ouvido dentro da igreja, virou um verdadeiro divisor de águas na vida do segurança Fábio Silva Abreu, o “Fábio Galão”, de 44 anos. Acima do peso, ele decidiu dar o primeiro passo e começou a caminhar no início de março deste ano.

Em quase dois meses, eliminou 22 quilos. Casado e pai de três filhos, o que começou como uma tentativa individual de mudar de vida hoje virou um movimento que arrasta dezenas de pessoas pelas ruas do Caramujo, na Zona Norte de Niterói.

“Eu não fazia nada. Aí fui na igreja e o pastor perguntou se eu me cuidava, se fazia algum exercício… e eu disse que não. Ele falou: ‘estou vendo um infarto em você… o mal já cortou, mas começa a caminhar’”, lembra Fábio.

Na época, ele pesava cerca de 166 kg. Agora, está atingiu a marca de 144 kg. E pretende avançar ainda mais. Ele apenas decidiu usar o que tinha: força de vontade e a rua. Saiu sozinho para caminhar pelas manhãs e realizava vídeos ao vivo. Foi aí que ele começou a atrair outras pessoas. O que Fábio Galão não esperava era que aquela atitude fosse inspirar tanta gente.

“Começou comigo, bem simples. Hoje já tem umas 30 pessoas caminhando com a gente, e tem mais chegando”, conta.

Além da caminhada, Fábio se matriculou em uma academia e tem cuidado da alimentação.

“Eu faço academia à tarde e tenho uma filha que vai se formar em Nutrição em julho. Ela me ajuda muito”, revela.

Mais de 60% dos brasileiros acima do peso

O excesso de peso entre os brasileiros cresceu de forma significativa nas últimas duas décadas e já atinge mais da metade da população. Em 2024, 62,6% dos adultos estavam acima do peso, contra 42,6% em 2006: um aumento de 20 pontos percentuais, segundo dados do Vigitel, do Ministério da Saúde. No mesmo período, a obesidade mais que dobrou, passando de 11,8% para 25,7%.

O avanço também se reflete em doenças associadas. O diagnóstico de diabetes subiu de 5,5% para 12,9% entre adultos, enquanto a hipertensão passou de 22,6% para 29,7%.

Já os hábitos da população mostram mudanças mistas: a prática de atividade física no deslocamento caiu, enquanto o exercício no tempo livre aumentou. O consumo de frutas e verduras se manteve estável, e a ingestão de refrigerantes e bebidas artificiais apresentou queda ao longo dos anos.

Caminhada do Galão

A chamada “Caminhada do Galão” ganhou nome, identidade e até camisa. O grupo se reúne de segunda a sexta-feira, às 5h30 da manhã, na Praça do Caramujo. É tudo gratuito. Antes de sair, os participantes fazem alongamento e uma oração. Depois, encaram cerca de 7 quilômetros de percurso, passando pelo bairro Santa Bárbara e retornando ao ponto de partida.

Mais do que exercício físico, o projeto virou um espaço de acolhimento. Entre os participantes, há idosos, jovens e pessoas que também lutam contra a obesidade, ansiedade e depressão.

“As pessoas estão doentes, com ansiedade, depressão… A gente vai caminhando e conversando. É um ajudando o outro. Aqui ninguém fica pra trás”, pontua Fábio.

A repercussão já ultrapassou o bairro. Dentro de ônibus, nas ruas e nas redes sociais, ele vem sendo reconhecido como exemplo.

“As pessoas me param, perguntam como faz pra participar. E é tudo de graça, não tem política, não tem custo nenhum”, reforça orgulhoso.

Em casa, o apoio também é combustível, como por exemplo, a esposa, que não consegue participar por causa do trabalho, mas incentiva. Os filhos acompanham de perto a transformação do pai. “Eles falam: ‘não para, continua’. Minha mãe também fica feliz, me abençoa todo dia quando eu saio.”

Durante as caminhadas, o cuidado é coletivo. Quem anda mais rápido ajuda a puxar o ritmo, enquanto Fábio faz questão de acompanhar quem está mais devagar. No fim, o grupo se reúne, tira fotos, grava vídeos e abre espaço para depoimentos.

“Eu sempre falo: aqui ninguém é melhor que ninguém. Todo mundo é igual. A gente segura na mão um do outro.”

Sem planejamento formal, o projeto segue crescendo no boca a boca. Já há moradores de outros pontos da comunidade querendo criar grupos parecidos, inspirados na iniciativa.

Para quem ainda não teve coragem de começar, Fábio deixa um recado: “Vamos cuidar da saúde. Caminhar ajuda na ansiedade, na depressão, no estresse… É só dar o primeiro passo.”

Apelido

O apelido “Galão”, que hoje já virou marca do projeto, nasceu muito antes das caminhadas e carrega a história de luta de Fábio desde pequeno.

Morador do Caramujo, ele conta que precisou parar de estudar ainda jovem para ajudar os pais dentro de casa. Na época, a região não tinha água encanada, e a solução era buscar água em poços e levar para casa em recipientes pesados.

“Eu parei meus estudos cedo pra ajudar meus pais a carregar água. A gente levava em galão mesmo, nas costas. Era pesado. Falavam pro meu pai: ‘lá vem galão e o galãozinho’ e o apelido ficou”, relembra.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

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