Nenhum confronto entre clubes de futebol levou mais torcedores a um estádio do que o Fla-Flu disputado em 15 de dezembro de 1963, no Maracanã. Válida pela decisão do Campeonato Carioca daquele ano, a partida terminou empatada sem gols, resultado que garantiu o título ao Flamengo e reuniu 194.603 pessoas nas arquibancadas, um recorde mundial que nenhum outro clássico de clubes já igualou. Das entradas registradas, 177.020 corresponderam a ingressos pagos, conforme apurado pela prefeitura do Rio na época.
A força da rivalidade também aparece na temporada atual. Flamengo e Fluminense chegaram a agosto de 2026 bem posicionados no Campeonato Brasileiro e ainda vivos na Copa Libertadores, cenário que ajudou a reacender a possibilidade, já discutida nos últimos anos, do Rio de Janeiro colocar os quatro grandes clubes cariocas juntos na competição continental pela primeira vez na história.
Esse interesse também aparece nos números do mercado de apostas esportivas. Segundo o levantamento mais recente da bet KTO sobre hábitos de apostadores brasileiros, referente a julho de 2026, o Brasileirão Série A foi a segunda competição mais apostada do mês, com 35,37% dos jogadores da categoria e 13,86% do volume total de apostas, atrás apenas da Copa do Mundo 2026, que também se encerrou naquele mês. Clássicos estaduais como o Fla-Flu, disputados fora do calendário do Brasileirão, tendem a acompanhar esse mesmo padrão de interesse entre os torcedores cariocas.
A rivalidade carrega o apelido de Fla-Flu desde que o jornalista Mário Filho o cunhou, décadas antes de dar nome ao próprio estádio do Maracanã. Seu irmão, o cronista Nelson Rodrigues, ajudou a consolidar a mística em torno do clássico com frases que atravessaram gerações de torcedores. Em 2012, o duelo passou a ser reconhecido como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, condição que nenhum outro clássico de futebol do país recebeu.
O público de 1963 fica atrás apenas de duas finais da Seleção Brasileira disputadas no mesmo estádio, contra o Uruguai em 1950 e o Paraguai em 1954, ambas ainda maiores em comparecimento. Ainda assim, o Fla-Flu segue isolado como o maior confronto já registrado entre times de clubes, à frente inclusive do clássico entre Flamengo e Vasco, disputado em 1976. Levantamentos sobre os maiores públicos da história do futebol mundial colocam o Maracanã original, anterior às reformas dos anos 2000, como cenário de praticamente todas as maiores audiências já registradas em uma partida.
As sucessivas reformas do estádio, motivadas por normas de segurança mais rígidas e pela adequação a padrões internacionais, reduziram de forma permanente a capacidade do Maracanã. Hoje, o local comporta pouco mais de 78 mil pessoas, menos da metade do público que assistiu à decisão de 1963. Por isso, cenários como aquele já são tratados por historiadores do esporte como irrepetíveis.
Diante da relevância permanente do confronto, Flamengo e Fluminense decidiram, em 2021, uniformizar o retrospecto oficial entre as equipes, que até então divergia dependendo da fonte consultada. Depois do acordo entre clubes, o histórico passou a considerar 430 confrontos oficiais, incluindo vitórias, empates e derrotas de ambos os lados desde o início da rivalidade. A padronização também fez com que a partida seguinte ao anúncio passasse a ser contabilizada com numeração oficial, prática já adotada por outros clássicos regionais do país.
A discrepância nas contagens, resolvida apenas décadas depois, ilustra como o próprio tamanho do Fla-Flu dificultou por muito tempo um controle preciso de sua história. Mesmo assim, nenhuma revisão estatística altera o que aconteceu naquela tarde de dezembro de 1963, quando um clássico decidido em um empate sem gols reuniu a maior multidão já vista em um jogo de futebol entre clubes.