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Esportes

Todo mundo na corrida? Entenda a tendência que conquistou o Rio e saiba se você também pode aderir

Ezequiel Manhães | Publicado em:

Corrida já virou mania em diferentes cidades do Rio.
Prática esportiva tem dominado orla do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação / @celulardopedro / Maratona do Rio

Ver alguém correndo na orla fluminense não é novidade para ninguém. O que está virando rotina, no entanto, é a quantidade de vídeos nas redes sociais mostrando tempo e percursos percorridos. E com tudo isso, surgem os comentários: por que, de repente, tanta gente começou a correr?

Entre músicas no fone, registros no aplicativo de corrida e fotos na orla, a corrida deixou de ser só exercício e passou a ocupar o lugar de estilo de vida. Em diferentes pontos do estado, como Niterói, Maricá, cidades da Região dos Lagos e a própria capital, a modalidade já ganhou status de ‘novo rolê saudável’, ocupando espaços antes restritos ao lazer ou ao trânsito.

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O professor de Educação Física, Eduardo Mariano, durante seus treinos diários. Foto: Arquivo Pessoal

Para o profissional de Educação Física Eduardo Mariano, de 34 anos, morador de Maricá, a corrida virou tendência “porque é acessível e qualquer pessoa pode começar”, além de refletir a busca por qualidade de vida.

Ele reforça que o crescimento não é só físico, mas também social: “Hoje a corrida está muito ligada à saúde, mas também tem um lado social bem forte. As pessoas se reúnem para correr”, explica.

Influência digital

Eduardo destaca ainda o papel das redes sociais nesse processo: “Ver amigos compartilhando treinos, medalhas e conquistas motiva outros a começarem”.

Ao ENFOCO, o sócio-fundador da Maratona do Rio e diretor da Spiridon, João Traven, destaca a formação de novas comunidades esportivas.

“Influenciam bastante. As redes ajudaram a dar visibilidade para histórias reais de transformação, superação e pertencimento. Hoje as pessoas acompanham amigos, influenciadores e criadores de conteúdo correndo e acabam se sentindo inspiradas a começar também. Além disso, as redes fortalecem comunidades, grupos de treino e conexões que ajudam muita gente a permanecer no esporte”, cometa.

Cuidados para iniciantes na corrida

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Antes de praticar a atividade física, é recomendada avaliação médica. Foto: Divulgação / @celulardopedro / Maratona do Rio

Apesar da popularização da corrida, dúvidas ainda são comuns entre iniciantes, especialmente sobre preparo físico e segurança.

Eduardo trabalha há seis anos com preparação física, mas nos últimos dois atua de forma mais específica com o treinamento de uma aluna que corre maratonas em diferentes lugares do mundo. A partir dessa experiência, começou a se dedicar com mais profundidade à modalidade de corrida.

O profissional orienta que o início deve ser gradual: “Caminhar por alguns minutos, fazer movimentos leves como elevar joelhos e girar tornozelos ajuda a ativar a musculatura e reduz o risco de lesões”.

Ele reforça que o mais importante é respeitar o ritmo: “Comece devagar, não se preocupe com velocidade. O foco é criar hábito”, ensina.

O preparador também recomenda atenção médica: “É importante saber se está apto para a prática da corrida”, sugere.

Corrida, um estilo de vida

Ontem foi dia de trocar ideia com quem faz a corrida de rua acontecer no Brasil. 🏃 ♂️💙Nosso di

Em análise sobre a transformação do perfil dos corredores, João Traven, explica como a corrida deixou de ser um nicho esportivo e passou a atrair públicos diversos.

“Hoje vemos mais mulheres correndo, mais jovens entrando no universo das provas e também pessoas que começam pela busca de bem-estar, saúde mental ou qualidade de vida. O corredor de hoje é muito mais plural e enxerga a corrida como parte do seu estilo de vida.”

Contradição

O ‘boom’ das corridas de rua contrasta com a realidade da atividade física no Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (2019), 40,3% dos adultos são inativos e quase 47% não atingem o nível recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar disso, a prática de exercícios vem aumentando. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, obtidos pela reportagem, mostram que o percentual de adultos que realizam atividade física moderada no tempo livre subiu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024.

Para incentivar hábitos saudáveis, o Ministério da Saúde diz que investe em programas como a Academia da Saúde, que oferece atividades físicas gratuitas com orientação profissional, além de materiais como o Guia de Atividade Física e o Guia Alimentar para a População Brasileira.

Comunidade corredora

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As redes sociais ajudaram a impulsionar o esporte com vídeos, treinos e relatos de superação. O auxiliar administrativo Luís Filipe Duarte, 29 anos, que vive em Rio das Ostras, diz “sim” quando questionado sobre a influência da internet. Ele também afirma que o fenômeno veio para ficar: “Corro desde 2023 e já participei de maratona. É estilo de vida, é saúde”.

A cirurgiã-dentista e criadora de conteúdo Lara Fagundes, 27 anos, moradora de Niterói, também vê esse crescimento como resultado de múltiplos fatores: “A corrida reúne saúde, bem-estar, senso de comunidade e superação pessoal. É acessível e pode ser feita em vários lugares”.

Ela começou em 2024, interrompeu por lesão e retomou depois, mudando sua relação com o esporte: “Vai muito além da estética. É bem-estar físico e mental. Me sinto viva quando corro”.

Inclusão

Apesar da presença de padrões estéticos nas redes, os praticantes destacam maior diversidade no esporte.

“Sempre existe pressão estética, mas a corrida tem mostrado mais diversidade de corpos e ritmos”, opina Lara. Ela defende que o essencial é o processo individual.

O ‘hype’ vai passar?

Sobre o futuro da modalidade, há consenso de continuidade, mesmo com possível desaceleração do crescimento.

“A corrida é uma atividade simples, barata e que traz muitos benefícios, então acredito que ela vai continuar atraindo muita gente, mesmo que parte desse hype diminua com o tempo”, diz o preparador Eduardo Mariano.

Lara, por exemplo, acredita na consolidação: 

“Pode ser que o crescimento acelerado diminua em algum momento, mas a corrida já se consolidou como parte do estilo de vida de muitas pessoas. Pelo que me lembro, é a primeira vez que um hábito saudável vira ‘modinha’ e funciona de verdade”.

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Apesar do pouco tempo na modalidade, Lara já participou de provas de diferentes distâncias, incluindo 5 km, 6 km, 10 km e uma Meia Maratona de Niterói, onde realizou 12km. Em 2026, completou sua primeira Maratona do Rio, na prova de 10 km.

Rio como capital das corridas

A Maratona do Rio reuniu mais de mil atletas estrangeiros no último feriadão de Corpus Christi, entre os dias 3 e 7 de junho. De acordo com a Prefeitura, ao todo, 1.124 corredores de outros países participaram das provas de 5 km, 10 km, 21 km e 42 km. Em 2026, o evento registrou mais de 70 mil inscrições, recorde histórico.

A Secretaria Municipal de Esportes do Rio destaca o impacto econômico e turístico, com fortalecimento de eventos e possível candidatura ao circuito World Marathon Majors.

Em 2025, a Maratona do Rio movimentou cerca de R$ 587 milhões na economia carioca e elevou a ocupação hoteleira para 80%, de acordo com a Prefeitura do Rio.

Benefícios para o corpo e para a mente

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A psicóloga clínica e ocupacional Fernanda de Souza Rocha explica que a corrida ganhou força também por seus efeitos emocionais positivos.

“Sempre destaco que as atividades físicas são ótimas para estimular a liberação de neurotransmissores como a endorfina e a serotonina, tendendo a diminuir a ansiedade quando praticadas de forma regular. A corrida ganha tanta força nesses períodos porque é uma atividade relativamente fácil: você só precisa de uma roupa leve e de um par de tênis para começar”, excplica.

Segundo ela, a prática melhora o foco e reduz o estresse: “Diminui o cortisol e estimula o desenvolvimento de novos neurônios”.

Mas também alerta para riscos da hiperexposição, já que quando o prazer depende de curtidas nas redes sociais, pode haver perda de conexão com o próprio corpo. 

Isso favorece o surgimento da distorção da produtividade e da dependência do exercício. Por todos esses riscos, considero extremamente necessário que a pessoa que sofre de ansiedade faça um acompanhamento psicológico, para conhecer seu corpo, seus limites e entender como agir diante das dificuldades que aparecem no cotidiano”, — Fernanda de Souza Rocha, psicóloga.

Correr movimenta a economia

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Foto: Divulgação / @celulardopedro / Maratona do Rio

O crescimento das corridas também impacta a economia e as políticas públicas. Segundo dados do Visit Rio, o calendário de eventos de 2025 teve 712 atrações, alta de 42,9% em relação a 2024, com impacto estimado de US$ 1,6 bilhão.

A Secretaria Municipal de Esportes afirmou à reportagem que a cidade realizou 597 eventos esportivos em 2025 e segue com crescimento contínuo e organizado.

Já a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer destaca que a cada edição da Maratona do Rio, há um aumento de aproximadamente 10 mil corredores e, mesmo assim, mantém milhares de pessoas em filas de espera.

Para João Traven, a corrida não se resume à competição, mas também ao aspecto social e humano das provas.

A competição continua sendo muito importante para quem busca performance, mas a corrida ganhou novas camadas. Hoje ela também é um espaço de encontro, convivência e celebração. Em uma mesma prova você encontra atletas de elite disputando resultados expressivos e pessoas realizando um sonho pessoal. Essa diversidade talvez seja uma das principais razões para o crescimento da corrida nos últimos anos”, — João Traven, sócio-fundador da Maratona do Rio.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

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