Filmes de super-heróis precisam acabar!

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Fórmula se repete ao longo dos anos em diferentes sequencias de heróis. Foto: Divulgação

Calma, essa coluna não quer acabar com o Universo Cinematográfico Marvel e os filmes da DC Comics, mas discutir e refletir um pouco mais sobre o gênero ‘filme de super-heróis’, que atualmente domina os cinemas e streaming, chegando, às vezes, a saturá-los pela falta de originalidade.

A ascenção dos filmes de heróis

Sucesso do Homem de Aço (1978) abriu as portas para a fórmula de apresentação utilizada até os dias atuais. Foto: Divulgação

O super-herói nos cinemas como conhecemos atualmente começou em 1978, quando Christopher Reeves vestiu o manto do Homem de Aço e estreou nas telonas no longa Superman. Até existiam outras produções que transportava os “supers” das histórias em quadrinhos para as telas, como o Batman de Adam West, de 1966, mas estavam sempre envolvidos com uma aura trash e voltada para a comédia, sendo o Superman dirigido por Richard Donner, falecido em 5 de julho deste ano, o pontapé inicial ao fenômeno nerd que estamos vivendo no nosso cotidiano.

O sucesso de Superman (1978) abriu as portas para suas duas sequências bem sucedidas, mas também trouxe péssimos filmes, como Supergirl (1984), que talvez tenha contribuído para que a escassez de filmes de heroínas solos, e Superman IV – Em Busca da Paz, um filme tão ruim que fingimos que sequer existe (junto com Lanterna Verde interpretado por Ryan Reinolds). Tais sucessos colocaram a DC como precursora dos filmes de heróis nos cinemas, perdendo o reinado somente nos anos 2000, quando estrearam os primeiros filmes dos X-Men e o Homem-Aranha, dirigido por Sam Rami, dando início ao império da Marvel que dura até os dias atuais.

A fórmula

Aos poucos, com a massiva presença dos heróis nos cinemas, essas produções acabaram se tornando um gênero à parte, combinando elementos de ação, aventura e drama. Com o tempo, o medo do fracasso (e consequentemente da perda de dinheiro) fez com que as empresas padronizassem os filmes, gerando uma fórmula para o sucesso. Apesar de ter sido algo positivo nos primeiros anos, principalmente no Universo Cinematográfico da Marvel, a receita acaba retirando a inovação que os filmes poderiam trazer, transformando-os em cópias, em que se mudam somente os personagens, mas se mantém a mesma estrutura do roteiro.

Homem de Ferro, Tony Stark. Divulgação
Personagem Homem de Ferro e seus vilões de poderes semelhantes. Foto: Divulgação

A história normalmente se repete em vários pontos e na mesma ordem, nos filmes de origem temos sempre o surgimento em decorrência de uma experiência traumática, a apresentação de um vilão com poderes semelhantes (Homem de Ferro enfrenta vilões com aparatos tecnológicos, Homem-Aranha contra gênios científicos, Thor entra em um embate contra outros deuses, e por assim em diante), uma primeira batalha com a derrota do herói, a preparação ou treinamento para a segunda luta, e enfim um confronto final. Já em filmes sequenciais, não há a origem, mas os outros elementos são presença confirmada…e basicamente na mesma ordem.

Logicamente, o padrão apresentado nesses filmes reflete a “jornada do herói”, um conceito narrativo surgido em 1949 e utilizado como base para basicamente todas as obras, sejam elas cinematográficas ou literárias, mas que implora por uma atualização, já que sua repetição numa mesma mídia por anos, cansa o espectador.

Dessa forma, ao vermos a mesma estrutura nos cinemas por 10 anos, ficamos calejados e sedentos por alguma originalidade, algo que seja um ponto fora da curva, que consiga nos surpreender e exceder as expectativas, algo que a Disney+ conseguiu fazer com as séries WandaVision e Loki.

Menos filmes DE HERÓIS e mais filmes COM HERÓIS

A solução para o problema da falta de originalidade e a repetição de uma mesma fórmula já foi desenhada pelas próprias produtoras, pois vimos isso em Capitão América: O Soldado Invernal (2014), que se trata de um filme de espionagem, com todos os elementos que o gênero pede, Homem-Formiga (2015), um longa metragem de roubo, e Novos Mutantes (2020), que apesar de ter sido extremamente fraco, traz os heróis para uma produção de terror. Nessas obras, podemos ver os primeiros passos dados na direção para filmes COM HERÓIS, ao invés de filmes DE HERÓIS, ou seja, com os “supers” sendo um dos elementos da produção, não o foco principal dela 100% do tempo. Porém, ainda há um receio das grandes empresas que, coerentemente, preferem seguir um método que sabem que funciona e dará o lucro pretendido, do que arriscar algo inovador e lidar com o fracasso.

Longa lançado em 2017 não foi bem aceito pelos fãs mais conservadores. Foto: Divulgação

Um exemplo de que a inovação pode não ser bem compreendida pelo público foi o filme Star Wars – Os Últimos Jedi, lançado em 2017, que trouxe conceitos inovadores e inesperados para a saga de George Lucas, mas foi terrivelmente massacrado pelos fãs mais conservadores, resultando na produção e lançamento do fraco, simples e esquecível Star Wars – A Ascenção Skywalker, que definitivamente não deveria ser a conclusão de uma saga tão importante e icônica. E são essas experiências que colocam as grandes produtoras, como Marvel e DC, a seguirem uma fórmula um tanto repetitiva em suas obras e garantirem o sucesso, mas sem dar o seu máximo ao público, alimentando-os somente com o básico.

Portanto, resta a nós, espectadores nerds e sedentos por novidades, esperarmos e incentivarmos que as grandes produtoras façam sua tarefa em entregar algo mais elaborado e inovador. Afinal, comer um arroz e feijão bem feito é ótimo, mas comer só isso, sem mudança, por anos, enjoa, então por favor, nos traga uma lasanha!

Jonny Sales é aficionado pelo mundo nerd, que acompanha, debate e vivencia, seja numa roda de amigos, ou em suas redes sociais.