O carcaju, espécie que serviu de inspiração para o personagem Wolverine, da Marvel, está menos presente em regiões montanhosas do Canadá marcadas pela expansão de estradas e pelo aumento de atividades recreativas.
A constatação é de um estudo que identificou menos de 300 animais em uma área de aproximadamente 81,8 mil km², abrangendo o oeste de Alberta e o leste da Colúmbia Britânica. De acordo com os pesquisadores, a população poderia ser cerca de 30% maior caso a região tivesse níveis menores de estradas e de atividades recreativas.
Publicado nesta terça-feira (29) na revista científica Biological Conservation, o estudo identificou, em uma área de grande extensão, uma relação entre a presença humana e a menor densidade populacional de carcajus. Segundo os pesquisadores, o impacto vai além de mudanças no comportamento: nas regiões mais frequentadas por pessoas, também foi registrada uma quantidade menor de animais.
“Fiquei um pouco surpresa com o impacto das atividades recreativas, para ser sincera”, afirmou Mirjam Barrueto, pesquisadora de ecologia que conduziu o trabalho durante o doutorado na Universidade de Calgary, no Canadá.
Segundo ela, os animais não estavam apenas evitando pontos específicos. “Havia, de fato, menos indivíduos vivendo nesses locais”, explicou.
Conhecido também como wolverine ou glutão, o carcaju (Gulo gulo) é encontrado principalmente em regiões frias da América do Norte, Europa e Ásia. Apesar de lembrar um pequeno urso, o animal pertence à família dos mustelídeos, grupo que inclui doninhas e lontras.
A espécie ganhou fama por sua força e pelo comportamento considerado agressivo quando ameaçada, inclusive diante de predadores maiores. Essas características ajudaram a inspirar Wolverine, personagem da Marvel criado na década de 1970.
Para avaliar a influência da presença humana, os cientistas cruzaram informações sobre a quantidade de estradas com mapas que indicam a utilização das áreas para atividades de lazer. Entre elas estavam esqui fora de pista, heli-esqui, esqui cross-country e caminhadas.
A análise apontou uma tendência: quanto maior a concentração de estradas e atividades recreativas, menor era a densidade de carcajus registrada na região.
O efeito das estradas foi ainda mais evidente entre as fêmeas. A descoberta preocupa os pesquisadores porque a espécie apresenta uma reprodução lenta. As fêmeas geralmente têm de um a três filhotes e podem permanecer vários anos sem gerar uma nova ninhada.
Uma redução no número de fêmeas, portanto, pode comprometer a capacidade de recuperação da população ao longo do tempo.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que o estudo é observacional. Isso significa que os resultados indicam uma associação entre a presença humana e a quantidade de carcajus, mas não permitem afirmar, isoladamente, que uma estrada específica ou determinada atividade recreativa seja a causa direta da redução populacional.
Ainda assim, os dados estão de acordo com pesquisas anteriores que indicam que os carcajus costumam evitar regiões com intensa movimentação humana.
Entre as medidas sugeridas pelos autores estão a preservação de áreas sem estradas ou com poucas vias, a proteção de regiões consideradas importantes para a espécie e que ainda apresentam baixa ocupação humana e a limitação de atividades recreativas em locais utilizados para reprodução.
A recomendação é concentrar os esforços de conservação nas áreas mais relevantes para a sobrevivência dos carcajus, reduzindo a soma dos impactos provocados pela presença humana nesses ambientes.