Por Ezequiel Manhães e João Alves
Durante décadas, o debate na televisão era um dos momentos mais esperados de uma eleição. Diante das câmeras, os candidatos apresentavam propostas, se enfrentavam e, por mais de duas horas, tentavam conquistar o eleitor que ainda estava indeciso. Em 2026, porém, a cena mudou: enquanto alguns dos veículos mais tradicionais da comunicação brasileira ficaram esvaziados pelos candidatos melhor colocados nas pesquisas, cortes, memes, vídeos e mensagens no celular ocupam, cada vez mais, espaço na disputa pelo voto.
Exemplo que ilustra a mudança está na estratégia adotada pelos primeiros colocados nas pesquisas eleitorais, nas disputas pela Presidência da República e Governo do Estado do Rio, que não compareceram aos principais debates que antecedem o 1º turno, no âmbito nacional e estadual.
Até a eleição mais recente (de 2022), a ausência de nomes relevantes da política no debate público seria motivo de estranhamento do eleitorado, reação que não acontece durante as campanhas de 2026. Neste ano, levantamentos realizados por institutos de pesquisa, como a Quaest, revelaram que as redes sociais se tornaram o principal meio de consumo sobre política entre os brasileiros, principalmente os mais jovens. Atrás delas, aparecem a televisão, blogs e sites, respectivamente.
Rede social como fonte de informação
Em paralelo à consolidação da rede social como fonte de informação, a pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou, coletando dados do 4° semestre de 2025, que 167,4 milhões de pessoas com 10 anos ou mais possuem celular para uso próprio no país. Somados, os dados revelam que, em 2026, no mundo conectado, tão pouco importa quem aparece na televisão, desde que apareça na tela do smartphone.
Sobre as mudanças, surge o questionamento: o que explica a mudança e como ela afeta a vida na política? A mudança do consumo de informação política, com o avanço das redes sociais e dos dispositivos digitais, alterou também a dinâmica das campanhas eleitorais, observa o professor Viktor Chagas, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Para ele, o ambiente digital é mais ‘disperso’ e ‘difuso’ do que o modelo tradicional, concentrado em televisão, rádio e horário eleitoral.
Segundo Chagas, essa lógica sob demanda faz com que o eleitor busque conteúdos de acordo com os próprios interesses, o que pode aumentar a tendência à radicalização. Ao mesmo tempo, a informação política passou a circular por espaços do cotidiano, como grupos de WhatsApp de família, condomínio e trabalho. ‘O digital se tornou pervasivo no nosso cotidiano’, afirmou.
A vitrine mudou
Os cientistas políticos Paulo Baía, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), e José Paulo Martins, da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicam a troca da televisão pelo celular além do aspecto tecnológico. A análise aponta que o jeito de consumir informação política mudou e as campanhas precisaram acompanhar.

Segundo Baía, a televisão e o rádio continuam tendo importância, mas perderam espaço diante da velocidade das redes sociais e dos aplicativos de mensagens.
“A televisão e o rádio não perderam espaço. Mas, nas campanhas eleitorais, o tempo destinado ao rádio e à televisão é pequeno, enquanto as redes sociais começam a atuar bem antes da eleição e continuam com muita intensidade durante o período eleitoral”, pontua.
Ele chamou atenção ainda para o peso dos grupos de WhatsApp, que, embora não sejam uma rede social tradicional, funcionam na prática como um espaço de interação social digital e passaram a fazer parte da rotina política de muitos eleitores.
“Os grupos de WhatsApp, que não são uma rede social, têm grande impacto no dia a dia do eleitor, até mais do que o rádio e a televisão”, argumenta.
A mudança, segundo Baía, está diretamente ligada ao celular. O aparelho deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação e passou a concentrar boa parte da vida cotidiana, inclusive o acompanhamento das eleições.
O smartphone se tornou uma extensão da mão e do olhar de cada um de nós”, — Paulo Baía, cientista político da Uerj.
Debate virou conteúdo para o celular
Os debates tradicionais encontraram um novo concorrente: o conteúdo curto. Para Baía, acompanhar um debate demanda uma dedicação que uma postagem, um vídeo ou um corte nas redes sociais não exige.
“Um debate na televisão ou no rádio exige concentração e presença. É preciso interromper o dia a dia e focar no debate”, avalia.
Já o conteúdo produzido a partir desse debate, avalia, pode ser consumido rapidamente e voltar a aparecer várias vezes no celular.
José Paulo Martins também vê uma transformação profunda na forma como o eleitor recebe e compartilha informação. Para ele, as redes tornaram a comunicação política mais dinâmica e permitiram que o próprio eleitor deixasse de ser apenas espectador.

“A forma de comunicação toda se tornou muito mais dinâmica e de mão dupla, que eu acho que é mais importante. Todo mundo pode ser um produtor de conteúdo também”, observa.
O especialista afirma que ainda não é possível saber exatamente o que faz determinado vídeo viralizar, mas destaca o papel dos algoritmos na entrega de conteúdos aos usuários.
“A plataforma sabe o tipo de material que você quer receber, o que você pesquisa, o que você procura. Então, ela entrega um meme que vai te satisfazer e, na hora, você já vai querer redistribuir isso para essas pessoas, né? Você se engaja naquilo”, diz.
Para Martins, essa dinâmica pode interferir principalmente no processo de decisão do voto, embora ele ressalve que não sabe determinar até que ponto um conteúdo específico consegue mudar uma escolha.
‘Eu não sei até que ponto isso impacta uma decisão de voto, sabe? Mas é assim’, pontua.
Os debates perderam força?
A resposta dos dois especialistas aponta para uma mudança de função do debate. Baía foi direto ao afirmar que o formato tradicional perdeu força como instrumento de convencimento.
Na avaliação dele, o debate continua existindo, mas muitas vezes serve como matéria-prima para aquilo que realmente circula depois na internet.
“E, quando acontece, ele serve para a produção de cortes, memes e para mostrar a posição de um candidato e a posição de outro”, explica.
Para o cientista político, a mudança de comportamento não é apenas passageira:
“A estrutura comunicacional mudou. Portanto, esse tipo de discussão feita hoje nas televisões e nas rádios não consegue atingir a população como conseguia em 1989 ou 2002. Essa característica mudou e mudou para sempre”, conta.
José Paulo Martins fez uma ressalva: “Os debates são importantes, mas eles, de fato, têm uma importância maior quando há apenas dois candidatos. Um debate de segundo turno fica um pouco mais interessante”, declara.
Ele também considera que o formato atual das redes criou novas possibilidades para os confrontos.
“Esse formato recente que as redes criaram, de uma espécie de conversa, em que cada um tem um tempo para administrar, é uma coisa interessante. Eu acho que continua sendo uma ferramenta de convencimento”, opina.
Disputa por protagonismo
O professor Viktor Chagas também destaca que o ambiente digital abriu mais espaço para diferentes candidatos disputarem protagonismo, diferentemente da televisão, onde os partidos precisam concentrar recursos em determinados nomes. Para ele, isso também altera a lógica de concorrência eleitoral.
Sobre os debates, Chagas avalia que eles não perderam relevância, mas enfrentam dificuldades para cumprir sua função de apresentar informações e propostas. Para o estudioso, a circulação de cortes nas redes sociais estimula frases de efeito e confrontos.
“O candidato que chega ali no debate para falar mentira, para simplesmente atacar agressivamente o adversário ou coisas desse tipo, especificamente, ele se vê naturalmente numa vantagem”, disse.
Na avaliação do professor, o desafio está em criar mecanismos capazes de conter comportamentos que prejudiquem o debate.
“Nós precisamos pensar em formas de contenção de comportamentos apresentados por candidatos que assumem posturas antiliberais no debate televisivo”, afirma.
Por que em 1989 foi diferente?

A diferença entre as eleições de décadas atrás e as atuais fica ainda mais clara quando se olha para 1989, quando Fernando Collor de Mello foi eleito no 2º turno da primeira eleição presidencial do país após a promulgação da Constituição Federal de 1988.
Martins lembra que, naquele período, não existiam internet ou TV por assinatura como hoje. A quantidade de canais disponíveis era muito menor, e um debate presidencial reunindo várias emissoras concentrava uma enorme parcela da atenção popular.
“Não existia internet, não existia TV a cabo. A transmissão era por aqueles seis, sete canais que a gente tinha à disposição, e eles, três, quatro ou cinco canais, se reuniram para transmitir um debate presidencial”, relembra.
Segundo o cientista político, o avanço que permitiu a pluralidade nos meios de comunicação também explicam a falta de interesse que o eleitor tem hoje com os meios mais tradicionais.
“Aquilo era o suprassumo da informação que o eleitor poderia receber. Hoje em dia não é mais tão importante assim”, explica.
Quando os principais candidatos não aparecem
A discussão ganha força em 2026 porque alguns dos debates já realizados não contaram com candidatos que estão entre os principais nomes da disputa. No primeiro debate presidencial realizado em agosto pela Grupo Bandeirantes, por exemplo, participaram Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não compareceram.
Em setembro, o cenário voltou a provocar discussão com o cancelamento do debate na TV Record após as ausências confirmadas de Lula e Flávio Bolsonaro.
Para Martins, o problema está justamente em colocar no mesmo palco candidatos que possuem diferentes níveis de atenção do eleitor.
“O problema maior é que a gente tem, no Brasil, muitos candidatos. [A eleição presidencial tem 13] e apenas quatro deles têm tempo de televisão”, explica.
Ele afirma que, quando os principais nomes ficam de fora, a maior parte do público também desaparece.
“A maior parte do eleitorado não está muito preocupada. O debate rolou com candidatos, mas não com os principais, o Lula e o Flávio, que é com quem o eleitorado está mais preocupado em querer saber exatamente o que eles propõem”, conclui.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concorrem ao Planalto as seguintes chapas. Veja a lista em ordem alfabética pelo primeiro nome de cada dupla:
Augusto Cury e Júlio Delgado (Avante);
Clariana Barão e Fabiana Torquato (DC);
Edmilson Costa e Cleusa Santos (PCB);
Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar (PL);
Hertz Dias e Vanessa Portugal (PSTU);
Leonardo Avalanche e Silvia (PRTB);
Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin (PT);
Renan Santos e Aroldo Medina (Missão);
Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab (PSD);
Romeu Zema e Eduardo Girão (Novo);
Rui Costa Pimenta e Antônio Carlos (PCO);
Samara Martins e Raquel Brício (UP);
Wilson Grassi e Suêd Haidar (Democrata).
Senado rema contra a maré

Se os debates presidenciais enfrentam uma mudança de função, os candidatos ao Senado Federal também passam a ganhar um novo espaço com debates televisionados sendo transmitidos pelo país.
Em São Paulo, por exemplo, o Grupo Bandeirantes promoveu um debate com cinco candidatos ao Senado que lideravam as pesquisas no estado, a primeira vez que o encontro entre candidatos foi televisionado em rede nacional.
O cientista político José Paulo Martins avalia que a disputa pelo Senado costuma receber menos atenção do eleitor, mas pode ganhar força durante a reta final da campanha.
‘A disputa do Senado é complicada, mas ela é bem importante’, argumenta.
Segundo ele, existe ainda uma relação entre as escolhas feitas pelo eleitor para diferentes cargos: “Em geral, o voto num senador está muito atrelado ao voto no governador, ao voto no presidente”.
Na avaliação de Martins, a identificação entre candidatos pode influenciar esse comportamento. O especialista também aponta que o Senado passou a ganhar mais visibilidade diante das disputas políticas envolvendo o Superior Tribunal Federal (STF).
“A gente está vendo toda essa crise do STF, que deu maior visibilidade ao Senado, e a oposição percebeu a importância que tem essa sacada legislativa e está apostando”, comenta o especialista.
Para o Senado Federal, o TSE contabilizou um total de 314 pessoas em disputa em todo o país, uma média de pouco mais de 5 candidatos por cadeira.
No estado do Rio de Janeiro, os 16 nomes são:
Benedita da Silva (PT)
Carlos Jordy (PL)
Carlos Portinho (PL)
Comandante Ribeiro Afonso (Democrata)
Helio Secco (Missão)
Luciano Mattos (PRTB)
Luiz Eugênio (PCO)
Marcelo Crivella (Republicanos)
Marcos Dias (Podemos)
Michelly Xavier (UP)
Monica Benício (Psol)
Ó Clemente (Democrata)
Paula Falcão (PSTU)
Pedro Paulo (PSD)
Vinicius Benevides (UP)
Waguinho (Republicanos)
A bolha

A transformação não está apenas no formato da campanha. Para Martins, os algoritmos também mudaram a forma como a informação chega ao eleitor: “A gente está sendo colocado em certas bolhas informacionais dentro das redes sociais, que são muito guiadas pelo algoritmo”.
Na política, essa lógica pode fazer com que eleitores recebam conteúdos diferentes sobre uma mesma eleição.
Os debates estão perdendo importância, enfim, afetada pelos algoritmos, que são controlados pelas grandes companhias mundiais de tecnologia, que têm interesse político muito claro”,– José Paulo Martins, cientista político da UFF.
Há consenso científico?
Viktor Chagas ressaltou que ainda não existe consenso científico sobre o papel dos algoritmos na formação das preferências políticas. Ele observa que há pesquisadores que defendem que os sistemas de recomendação orientam o consumo de informação, enquanto outros apontam que os próprios interesses dos usuários influenciam o funcionamento desses algoritmos.
Para o professor, a participação digital amplia as portas de entrada para o debate público, mas é necessário estimular um consumo mais aprofundado da informação.
“É preciso estimular que essas pessoas não participem do debate apenas de modo superficial, raso, que elas também consigam aprofundar as suas pautas e agendas”, afirma.
Fator Trump influencia o Brasil?
A influência dos Estados Unidos também aparece na discussão, mas os especialistas fazem uma distinção entre o debate político americano e os efeitos concretos das decisões do governo dos EUA.
Baía afirma que a dinâmica interna da política americana não determina, por si só, o debate brasileiro. Para ele, decisões envolvendo impostos, questões ambientais e outras medidas que atinjam diretamente o Brasil podem entrar no debate local.
“O debate político nos Estados Unidos ou na União Europeia não influencia as decisões e a dinâmica do debate político brasileiro. Entretanto, as ações políticas e as decisões dos governos dos Estados Unidos e da União Europeia, essas sim, quando tocam no Brasil, sobretudo na questão de impostos ou na questão ambiental, mexem com o dia a dia da população”, avalia.
Martins, por outro lado, chama atenção para a influência do ambiente internacional e para a presença de movimentos políticos semelhantes em diferentes países: “O Brasil, obviamente, como todos os países, tem uma dinâmica política própria”. Mas ressalta que essa dinâmica não está isolada.
“Essa dinâmica é influenciada por pessoas, pelo próprio ambiente externo, de vários governos de direita chegando ao poder no mundo, pressões norte-americanas, dinheiro de empresas norte-americanas sendo colocado nas campanhas eleitorais diretamente”, comenta.
Será o fim do período eleitoral em rádio e TV?

As próprias regras eleitorais já tratam as redes sociais e aplicativos de mensagens como parte central do ambiente de campanha. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também atualizou as regras para o uso de Inteligência Artificial e prevê exigências específicas para conteúdos produzidos por IA.
Para Baía, essa transformação não significa simplesmente que televisão e rádio desapareceram. O que mudou foi o lugar ocupado por cada meio.
“O mundo digital é mais rápido, mais presente e tem um formato que impacta o eleitor mais do que o formato político tradicional usado nas televisões e nas rádios”, finaliza.
Neste ano, o TSE informou que contabilizou a candidatura de 20.506 para diferentes cargos no país. Segundo o Tribunal, além dos presidenciáveis e senadores, são 11.090 pedidos para deputado estadual, 7.627 pedidos para deputado federal e 195 pedidos para governador e vice-governador.
Ainda de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, cerca de 158.745.463 de eleitores estão aptos para votar em 2026. Em comparação às últimas eleições, o aumento foi de 1,46% de pessoas que poderão comparecer nas urnas no primeiro e segundo turno para decidir o futuro do Brasil.