Guerreiras
Laços de superação: as mães que deram à luz na pandemia
Mulheres contam como enfrentaram o período na maternidade

Muitas mães têm motivos especiais para celebrar o seu dia neste domingo (11). Entre elas as que engravidaram e deram à luz durante a pandemia da Covid-19, um período marcado por medo e incertezas e que hoje vivem a gratidão por suas vidas e pelas vidas de seus filhos, como quem atravessa a tempestade e finalmente alcança a bonança.
Durante a pandemia, mulheres grávidas foram classificadas como grupo de risco, especialmente no segundo e terceiro trimestres da gestação. Isso porque as alterações imunológicas e fisiológicas típicas da gravidez podem tornar o organismo mais suscetível a infecções graves.
Além das preocupações naturais desse período, gestantes enfrentaram um cenário ainda mais delicado do que o restante da população. O desconhecimento sobre o vírus, os riscos à saúde da mãe e do bebê, a sobrecarga do sistema de saúde, as restrições em hospitais e o isolamento social tornaram a experiência da maternidade ainda mais desafiadora.
Esse foi o caso da enfermeira Thais Oliveira, de 43 anos, mãe da pequena Clara, de 5, e da geóloga Fernanda Pessanha, de 35, mãe de Catarina, de 4. Thais deu à luz apenas dois meses após o início oficial da pandemia, em 2020, no auge da disseminação do vírus. Já Fernanda teve sua filha em março de 2021, quando o país ainda enfrentava os impactos da crise sanitária. Ambas, na época, foram mães de primeira viagem.
Cenário de incertezas
Durante a pandemia, Fernanda Pessanha enfrentou o desafio de vivenciar sua primeira gestação em um cenário de incertezas e restrições. Segundo ela, o sentimento inicial foi de negação da gravidade do momento.
“Em um primeiro momento, havia muitas incertezas. Confesso que não senti muito medo, talvez por ignorância e achar que ia passar logo”, contou a moradora de Niterói que na época vivia com o marido em Curitiba, no Paraná.
Com o avanço da pandemia e o aumento das medidas de isolamento, surgiram preocupações específicas em relação ao parto. Fernanda temia não contar com a presença de um acompanhante no momento do nascimento da filha.
“Sempre que as restrições aumentavam, existia a possibilidade de que, no dia do parto, houvesse novas regras e eu não conseguisse ter um acompanhante. Havia essa expectativa de que não fosse como eu havia planejado", revelou.
Mesmo com o parto natural, ela precisou usar máscara durante o processo, o que foi um grande desconforto.
“Tive a inconveniência de precisar usar máscara, mas, como eu estava em trabalho de parto natural, era impossível permanecer com ela o tempo todo", disse.
Além disso, as visitas na maternidade estavam suspensas como medida de prevenção ao contágio pelo vírus. Fernanda conta que seus pais só conheceram a neta quando a recém-nascida foi levada para casa. Uma das poucas visitas que ela e o marido receberam aconteceu na garagem da residência, com certa distância.
"Hoje, viver aquilo parece ter sido em outra vida, tão distante da nossa realidade atual", ressalta a geóloga.
O marido de Fernanda, que atuava em um serviço essencial, continuou trabalhando presencialmente. O momento mais difícil, segundo ela, foi quando ele testou positivo para a doença e a filha tinha apenas 2 meses de vida.
Foi um período muito difícil. Ainda era aquele isolamento rígido de 15 dias, com muitos medos e incertezas. Não havia perspectiva de vacinas. Tive que ficar o dia inteiro de máscara para amamentar a Catarina, com medo de passar o vírus para ela, porque eu não sabia se também estava contaminada. Foi um período muito complicado
Muitos desafios
Thais Oliveira conta que, inicialmente, também acreditou que a pandemia teria curta duração.
“Quando fiquei sabendo, minha reação foi: vai passar rápido. Mas depois, quando percebi que não iria assim e teria a Clara em maio, ainda em meio à pandemia, aquilo começou a se tornar um problema maior na minha cabeça", revelou a niteroiense que mora atualmente no Rio.
Com o marido atuando também na área da saúde, o receio de contaminação dentro de casa era constante.
“Minha maior preocupação era com a Clara. Tinha medo dela pegar a doença e das consequências disso para a vida dela, ainda tão pequena", explicou.
A enfermeira também lamenta não ter podido contar com a presença da família no nascimento da filha.
“Só estávamos eu e meu marido. Não tinha ninguém da minha família, nem da dele. E isso era o que a gente mais esperava", disse.
Dois meses após o nascimento de Clara, Thais testou positivo para a covid-19. Apesar do susto, conseguiu se recuperar sem complicações.
Como muitas mães no período da pandemia, ela enfrentou a solidão e a exaustão no pós-parto, tendo que cuidar sozinha da recém-nascida enquanto o marido trabalhava.
Foi muito difícil. Só não entrei em depressão pós-parto por que Deus não quis
'Sobrevivemos. Somos vitoriosas'
Essa é uma das frases que Thais destaca ao falar sobre gratidão. Segundo ela, ao olhar para trás, resume sua experiência com uma única palavra: resiliência.
“Sou grata por tudo. É um sentimento profundo de gratidão. Passamos por tudo isso e, agora, estou com minha filha e meu marido bem. Hoje posso passar o Dia das Mães com minha família, na minha casa, comemorar com todos juntos e não cada um longe do outro”, relata Thais, emocionada.
Já Fernanda, ao relembrar o período, descreve a sensação de que tudo aconteceu como se fosse outra realidade.
“Por mais que tenham sido dias longos, parece que passou muito rápido. Tudo aquilo que vivemos parece que foi em outra vida. Acho que algumas coisas são até apagadas da nossa memória, como mães, para que possamos engravidar de novo, esquecer um pouco das dificuldades e seguir em frente”.
Neste ano, a comemoração do Dia das Mães tem um significado ainda mais especial para Fernanda: ela está grávida da segunda filha, Cecília, que vai nascer dentro de um mês.
Agora, vivendo sua segunda gestação, Fernanda afirma que aplica tudo o que aprendeu durante aquele período desafiador, mesmo que a realidade da pandemia tenha ficado para trás.
Aprendi a ser mais forte, mais atenta. O alívio, a gratidão e a força por ter vencido aquele desafio continuam comigo
Os relatos de Fernanda e Thais retratam a experiência de uma geração de mulheres que enfrentaram a maternidade em meio à pandemia, marcadas pelo medo, pela incerteza e pela solidão mas, que encontraram dentro de si forças até então desconhecidas.
Ambas seguem suas jornadas com gratidão e esperança, conscientes de que a maternidade, mesmo nos momentos mais difíceis, é também feita de amor, superação e renascimento.
Histórico e números da pandemia
A pandemia da covid-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, foi oficialmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março de 2020, após o vírus se espalhar rapidamente pelo mundo desde sua identificação inicial em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China. A doença, de origem respiratória, provocou uma crise sanitária global, com milhões de casos e mortes em todos os continentes.
O vírus apresentou alto índice de transmissão e afetou especialmente grupos de risco, como idosos, pessoas com comorbidades e mulheres grávidas. Os sintomas variavam de leves a graves, incluindo febre, tosse, cansaço, dificuldade respiratória e, nos casos mais severos, falência de órgãos e óbito.
Governos ao redor do mundo adotaram medidas emergenciais para conter o avanço da doença, como o fechamento de escolas, comércios e fronteiras, além da implementação de quarentenas, uso obrigatório de máscaras e campanhas de conscientização. A pandemia impactou profundamente a rotina da população, a economia global e os sistemas de saúde.
Em tempo recorde, vacinas foram desenvolvidas e distribuídas a partir do final de 2020, representando um marco histórico para a ciência. A imunização em massa contribuiu significativamente para a redução de hospitalizações e mortes, permitindo a retomada gradual das atividades presenciais em diversos setores.
Até o momento, a pandemia da covid-19 resultou na morte de pelo menos 7 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o número real pode ser significativamente maior, chegando a cerca de 15 milhões, ao considerar tanto os óbitos diretos quanto os indiretos atribuídos à pandemia.
No Brasil, as estatísticas oficiais registram 716.075 mortes relacionadas à covid-19. Contudo, especialistas alertam que, devido à subnotificação e falhas nos sistemas de registro, o número real pode ser ainda mais elevado.
Apesar do controle parcial da crise, o coronavírus continua circulando em diferentes variantes, exigindo vigilância constante, campanhas de reforço vacinal e atualização contínua das estratégias de saúde pública.


Perdeu documentos, objetos ou achou e deseja devolver? Clique aqui e participe do grupo do Enfoco no Facebook. Tá tudo lá!