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Região

Morte de criança no Rio reacende debate: de quem é a culpa quando o cachorro ataca?

João Alves | Publicado em: - Atualizado 3 semanas atrás

De quem é a culpa por ataques de cães no Rio?
Estado fluminense registrou três ataques em 12 dias, todos envolvendo crianças. Foto: Ortho Dog / Reprodução

Dois casos envolvendo ataques de cães a crianças, nas últimas semanas, no estado do Rio — um deles, inclusive, que terminou em tragédia — reacenderam o debate sobre as responsabilidades no cuidado com cães.

A preocupação não é a toa e pode ser levada como alerta. Um levantamento da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro revela que, de janeiro a julho deste ano, 45 pessoas precisaram ser internadas por mordedura de cães em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) espalhadas pelo estado. Entre as vítimas, a maior parte são crianças menores de 4 anos.

Segundo a SES, no mesmo período de 2025, 47 pessoas foram internadas em unidades do SUS, a maioria delas também menores de 4 anos.

O mito do ‘cão que ataca do nada’

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-RJ) e integrante da Academia Brasileira de Medicina Veterinária (Abramvet), Diogo Alves, o mito do ‘cão que ataca do nada’ não é real. A agressividade do animal, independente da raça, quase sempre estará atrelada a sociabilidade dele em relação ao tutor.

DNA agressivo não existe

Diogo Alves, presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro.

À reportagem, Diogo alves, que também é colunista do ENFOCO, explicou que não passa de falácia a afirmação que ‘pitbulls e outras raças já nascem geneticamente programados para serem violentas’. Segundo o médico-veterinário, estudos científicos robustos já comprovaram, ao longo dos últimos anos, que nenhuma raça de cachorro nasce com a agressividade como característica. O comportamento, na verdade, é o resultado de entre quatro fatores: genética, nível de socialização, ambiente em que vive e criação oferecida pelo tutor.

“Um cão nunca ataca do nada. A agressividade contra o próprio tutor é quase sempre o topo de uma escala de desconforto que foi ignorada ou reprimida ao longo do tempo. Identificar os sinais precoces e saber como agir com raças de grande porte e mandíbula potente, como o Pitbull, é vital para evitar acidentes graves”, esclarece o especialista.

Para medir a agressividade canina a ciência utiliza, de acordo com Diogo Alves, análises sobre a herdabilidade genética do animal, onde um mapa de neurotransmissores é traçado e testes de temperamento padronizados são aplicados.

“Atualmente, grandes estudos genômicos revelam que a agressividade é uma característica complexa e poligênica, o que torna impossível cravar que a agressividade pertence de forma fixa a uma única raça”, disse.

Segundo o presidente da CRMV-RJ, para garantir que um Pitbull, em particular, se torne um cão adulto equilibrado e seguro, o foco principal do tutor deve ser evitar o medo, o estresse crônico e a falta de estímulos na vida do animal.

Como identificar os sinais e prevenir um ataque?

portrait adorable pitbull dog
Pitbull demonstrando sinais de atenção. Foto: Magnific / Imagem ilustrativa

Por conta do porte grande e dos recentes casos de ataques envolvendo a raça, Diogo Alves deu algumas dicas, amplamente utilizadas na medicina-veterinária, para futuros tutores identificarem sinais de desconforto que podem se tornar situações de perigo e risco à vida.

“Devido à força física da raça, erros comuns de manejo que passariam despercebidos com um cão menor podem gerar comportamentos reativos graves no futuro. São erros como bater, dar trancos na guia, usar enforcadores de dente, gritar ou tentar virar o cão de barriga para baixo à força para demonstrar quem manda. A teoria da dominância em cães já foi derrubada pela ciência”, explicou.

Para ele, o comportamento do cão na fase adulta está intrínseco na forma como ele foi criado como filhote:

“Um Pitbull punido fisicamente pode tolerar isso enquanto filhote, mas, ao atingir a maturidade sexual (entre 1 e 2 anos), a probabilidade de ele revidar contra o tutor para se proteger aumenta drasticamente”, alerta.

Mas além da criação com punições, o especialista também explicou que o Pitbull é um cão atleta, de altíssima energia, e que o comportamento agressivo pode ser resultado de um desconforto prolongado com uma vida parada.

“A falta de atividade física e mental, como brinquedos de roer e desafios de inteligência, acumula um nível de frustração extrema. Um cão frustrado opera em um limiar de estresse muito alto, o que significa que qualquer pequeno susto ou incômodo pode fazê-lo explodir em uma reação agressiva”, disse.

Preocupação atinge o Leste Fluminense

Fotos atualizadas do Hospital Estadual Alberto Torres HEAT Pericles Cutrim 25
Hospital Estadual Alberto Torres (HEAL), em Sâo Gonçalo. Foto: Péricles Cutrim / Arquivo / Enfoco

Além dos dados sobre a rede do SUS, a Secretaria Estadual de Saúde também forneceu dados relevadores sobre a rede de hospitais estaduais do Rio de Janeiro. Nos últimos dois anos, o Leste Fluminense representou 75% dos casos de internação por agressão canina em todo o território do estado.

As unidades de saúde que dominam em número de leitos sobre o tema são dois: o Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, e o Hospital Estadual Roberto Chabo, em Araruama, na Região dos Lagos. As duas unidades juntas responderam por 21 das 28 internações em 2025 e por 15 das 20 internações neste ano.

Assim como as unidades do SUS pelo estado do Rio, o grupo etário que forma maioria como vítimas de ataques de cães são crianças de 0 a 4 anos de idade.

Apesar das internações, o Leste Fluminense está longe de ser o único a se preocupar com a agressividade dos cães. No Rio, entre janeiro e julho deste ano, foram registrados cerca de 1.535 casos de atendimentos ambulatoriais por conta de ataques do animal. Atrás da capital, aparece o município de Itaboraí, com 394 registros.

A Secretaria do Estado de Saúde frisa que os dados foram coletados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/Datasus), do Sistema de Internações Hospitalares (SIH/SUS) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), estando sujeitos a alterações.

Segundo a secretaria, não há registros de mordedura de cão que sejam especificados por raça.

Ataques recentes de animais no Rio

Não são poucos os recentes casos envolvendo ataques de cachorros em diferentes regiões do estado: foram três casos envolvendo cães de grande porte nos últimos 12 dias; as três vítimas foram crianças.

O primeiro deles ocorreu na manhã do dia 6 de setembro, domingo, quando uma menina de 9 anos foi atacada por um Pitbull na calçada de uma rua em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ela foi socorrida por vizinhos e levada para uma unidade de saúde, onde recebeu alta médica sem ferimentos graves.

Outro caso ocorreu na última semana, na tarde do dia 16 de setembro, quando um menino de 3 anos foi atacado em São Gonçalo, na Região Metropolitana, no bairro de Vista Alegre. Ele precisou ser internado no Hospital Estadual Alberto Torres, onde passou por intenveção cirúrgica após ficar gravemente ferido no olho direito e na boca. Segundo a unidade, o estado de saúde dele é considerado estável.

Criança de 3 anos morre após ataque

O mais recente deles ocorreu no dia 17 de setembro, em Cosmos, na Zona Oeste do Rio, quando uma criança, de 3 anos, foi atacada por um Pitbull dentro da casa da avó, onde morava.

Ela foi socorrida no Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu.

A Polícia Militar informou que foi acionada e que enviou agentes do 40º Batalhão, de Campo Grande. No local, o tutor do cão, o companheiro da avó da vítima, foi detido e conduzido à Delegacia de Campo Grande (35ª DP).

Segundo a Polícia Civil, o tutor foi preso e irá responder pelo crime de homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, seguindo a forma da Lei Henry Borel. De acordo com os agentes, o corpo da criança foi levado ao Instituto Médico Legal (IML) e o caso foi encaminhado à Justiça.

O que diz a lei?

Na Constituição Federal brasileira, o tutor tem a responsabilidade civil, de acordo com o Artigo 936 do Código Civil, de responder pelo animal em caso de danos causados a terceiros.

'O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior'

Segundo a constituição, omitir a devida cautela na guarda ou condução de animal perigoso configura como contravenção penal, mesmo em casos onde o tutor prova que ‘não teve culpa’. Em casos graves como ferimentos ou morte, ele deverá responder criminalmente por negligência, imprudência ou imperícia na condução do cão.

No estado do Rio de Janeiro, a Lei Estadual nº 4.597/2005 determina que tutores circulem com cães de algumas raças, como o Pitbull, com o uso obrigatório de focinheira, guia curta e enforcador em vias e locais de grande circulação de público. O descumprimento da lei pode resultar em multas e apreensão do animal.

Cão e a Raiva

O especialista ainda relacionou o tema com as recentes campanhas de vacina antirrábica no estado do Rio de Janeiro, explicando como diferenciar um cão saudável de um que contrariou o vírus:

“É preciso entender que a doença ataca o sistema nervoso central. Isso provoca mudanças neurológicas progressivas e drásticas, divididas classicamente em duas manifestações clínicas. Em condições normais, um cachorro saudável é reativo, dócil, reconhece seus responsáveis e responde aos estímulos da casa com naturalidade. Quando o vírus da raiva se manifesta, ocorre uma quebra drástica na personalidade do animal. Cães que sempre foram extremamente carinhosos tornam-se agressivos sem qualquer motivo ou provocação”, explicou o veterinário.

Ele continuou explicando que, além dos sinais de mudança na convivência, o animal demonstra indicativos físicos que podem ser percebidos pelo tutor, que vão desde a dificuldade em beber água até a mudança no tom do latino.

Como identificar um cão infectado pela raiva?

Animal infectado

  • Paralisia dos músculos da garganta;
  • Salivação abundante e constante, que se acumula como uma baba espessa ou espuma ao redor da boca;
  • Muita sede, mas o ato de tentar engolir a água gera espasmos musculares extremamente dolorosos (hidrofobia), fazendo com que ele recue e rejeite o líquido;
  • Olhar fixo, vago e perdido;
  • A evolução da raiva atinge as cordas vocais do animal e latido muda completamente.

Cachorro saudável

  • Olhar atento, focado e com pupilas que reagem normalmente à luminosidade;
  • Latido forte, limpo e possui o timbre que o tutor já conhece no dia a dia.

João Alves

Amante do cinema, se descobriu no jornalismo através de conversas e boas histórias. É focado em contar os relatos de quem vive o dia a dia no Rio de Janeiro, sempre atento às denúncias dos leitores.

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