A Black Friday de 2026 deve movimentar o comércio de Niterói, com expectativa de crescimento de 6,3% nas vendas em relação ao ano passado. O pagamento do 13º salário no fim de novembro pode dar um empurrão extra às compras, mas os lojistas também precisam lidar com o endividamento das famílias e os juros elevados. Para aproveitar a data, especialistas recomendam planejamento, divulgação antecipada e estratégias que vão além da redução dos preços.
Em declaração exclusiva ao ENFOCO, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Niterói (CDL), Luiz Vieira, afirmou que o comércio já se prepara para a campanha, com promoções que começam antes da última sexta-feira de novembro, data oficial da Black Friday.
“Apesar de ter se tornado habitual que as empresas comecem a fazer promoções antecipadas, já no início de novembro começam a aparecer as promoções da Black Friday. Na última semana do mês, aumenta ainda mais o volume de promoções feitas pelo comércio”, explicou.
Segundo Vieira, a expectativa é que o comércio online seja o principal responsável por impulsionar o crescimento das vendas neste ano. Muitas empresas da cidade também participam desse mercado.
“O comércio online está numa crescente, vem crescendo muito. Então, há uma puxada em cima do comércio online”, afirmou.

13º salário pode turbinar as compras
O calendário pode favorecer o comércio. Com o pagamento do 13º salário no fim de novembro, parte dos consumidores poderá aproveitar as ofertas para antecipar as compras de Natal. Para os lojistas, a entrada desse dinheiro na economia pode ajudar a movimentar as lojas antes de dezembro.
“Vai ter também, nesse período, o pagamento do décimo terceiro no último dia de novembro. Isso ajuda bastante”, destacou Vieira.
O presidente da CDL avalia que a Black Friday funciona como um termômetro para as vendas natalinas, já que muitos consumidores aproveitam os descontos para adiantar a compra de presentes.
“Black Friday sempre foi um evento que antecede o Natal, então ele é um termômetro do Natal”, afirmou.
Além das compras antecipadas, novembro também costuma aquecer as vendas de artigos natalinos, como árvores, bolas e festões. De acordo com Vieira, o movimento desses produtos começa antes de dezembro e pode se estender até o início do mês.
Projeção de crescimento é menor que a de 2025
A expectativa de alta nas vendas da Black Friday em Niterói é mais moderada neste ano. Em 2025, Luiz Vieira projetava um crescimento de 10% em relação a 2024. Para 2026, a estimativa é de aumento de 6,3% na comparação com 2025, uma diferença de 3,7 pontos percentuais entre as duas projeções.
A comparação considera as expectativas divulgadas em cada ano, e não os resultados efetivamente registrados pelo comércio. Portanto, não significa que as vendas tenham caído ou que o setor tenha apresentado uma retração de 3,7%.
No ano passado, Vieira também estimava aumento de 7,5% nas vendas de Natal e crescimento de 8% na contratação de trabalhadores em relação a 2024. Na ocasião, explicou que as contratações temporárias começavam em outubro para que os funcionários tivessem tempo de treinamento antes do período de maior movimento.
Segundo o presidente da CDL, cerca de 30% desses trabalhadores temporários acabavam efetivados pelas empresas.
Eletrônicos, roupas e brinquedos entre os destaques

Entre os segmentos que devem apresentar melhor desempenho na Black Friday de 2026 estão eletrônicos e eletroeletrônicos, vestuário, perfumaria, brinquedos e acessórios em geral.
A expectativa é que as ofertas atraiam consumidores interessados em economizar e antecipar compras de fim de ano. No entanto, o resultado dependerá também das condições financeiras das famílias e da capacidade dos comerciantes de oferecer vantagens competitivas.
Vieira apontou o Pix e a estabilidade do câmbio como fatores favoráveis às vendas. Por outro lado, destacou o alto endividamento da população, os juros elevados e o grande número de consumidores com restrições de crédito nos cadastros do SPC e do Serasa.
O dirigente citou a taxa Selic, então em 14,75% ao ano, como um dos fatores que pesam sobre o cenário econômico.
“Esses fatores são impactantes, mas acreditamos que serão superados”, declarou.

Como vender mais sem comprometer o lucro
Para o estrategista de negócios Filipe Brandão, o principal erro de um comerciante durante a Black Friday é tratar a campanha apenas como uma disputa para oferecer o menor preço.
“O primeiro passo é entender que a Black Friday não pode ser tratada apenas como uma guerra de preços. O lojista precisa ter clareza sobre quem deseja atrair, quais produtos quer vender e como pretende transformar essa oportunidade em relacionamento com o cliente”, afirma.
Graduado em Marketing e Publicidade, com MBA em Gestão de Marketing, com foco em Branding e Vendas, Brandão destaca em entrevista ao ENFOCO que o planejamento precisa começar antes da data. Redes sociais, WhatsApp e Google podem ser utilizados para divulgar ofertas, apresentar produtos e fortalecer a confiança na marca.
Outra estratégia é trabalhar com clientes que já compraram na loja, oferecendo condições personalizadas e benefícios exclusivos.
“Quando consegue unir preço competitivo, conveniência e confiança, [o lojista] deixa de depender exclusivamente do desconto para conquistar o consumidor”, explica.
Comércio local x grandes plataformas
Lojas de Niterói enfrentam a concorrência de grandes plataformas de comércio eletrônico, que contam com maior poder de negociação com fornecedores, escala e estruturas logísticas mais robustas, conforme observam especialistas.
Segundo Brandão, tentar reproduzir todas essas vantagens ou competir exclusivamente pelo menor preço pode comprometer a margem de lucro. Para ele, o comércio local precisa mostrar o que oferece de diferente.
“Em Niterói, o comércio local tem uma vantagem importante: a proximidade com o consumidor”, afirma.
A possibilidade de experimentar um produto, receber orientação personalizada, retirar uma compra rapidamente ou contar com atendimento próximo pode ser um diferencial competitivo.
O especialista também recomenda integrar os canais físicos e digitais. O lojista pode divulgar produtos nas redes sociais, atender pelo WhatsApp e oferecer retirada presencial ou entrega local.
“O pequeno comércio não precisa ter a mesma estrutura de um grande marketplace. Precisa conhecer melhor seu público e transformar seus diferenciais em motivos concretos para o cliente escolher aquela loja”, destaca.
Desconto precisa ser calculado
Oferecer preços atrativos sem prejudicar as finanças exige conhecer os custos do negócio. Antes de definir uma promoção, o comerciante precisa considerar o valor dos produtos, os impostos, as taxas de pagamento, as despesas operacionais e a margem necessária para manter a empresa saudável.
Em vez de reduzir os preços de todo o estoque, Brandão recomenda selecionar os produtos que podem receber descontos maiores. Kits, ofertas combinadas e benefícios progressivos também podem ajudar a aumentar o valor de cada compra sem comprometer a rentabilidade.
Outro cuidado é definir o objetivo de cada promoção, que pode ser atrair novos clientes, movimentar produtos parados ou aumentar o tíquete médio.
“Desconto sem estratégia pode aumentar o faturamento e, ao mesmo tempo, reduzir o lucro. O lojista precisa saber quanto pode conceder, qual resultado espera alcançar e como a promoção contribuirá para a saúde financeira do negócio”, alerta.
O especialista também ressalta a importância de garantir que os descontos sejam reais e transparentes, já que os consumidores estão cada vez mais atentos às variações de preços.
Consumidor ‘não é bobo’
Segundo Brandão, o consumidor está mais atento à comparação de preços, às condições de pagamento, à qualidade dos produtos e à confiabilidade das ofertas. Frete, prazo de entrega, facilidade de pagamento e segurança também influenciam a decisão de compra.
“O consumidor não busca apenas uma oferta barata. Ele quer sentir que está fazendo um bom negócio, com segurança e sem surpresas desagradáveis. A confiança se tornou um elemento importante para transformar o interesse em venda”, afirma.
A compra também pode começar muito antes de o cliente entrar na loja. Ele pode descobrir um produto no Instagram, pesquisar no Google, consultar avaliações, comparar preços e tirar dúvidas pelo WhatsApp antes de decidir onde comprar.
Por isso, o especialista recomenda que os lojistas facilitem a jornada de compra, respondam rapidamente às dúvidas e apresentem informações claras sobre produtos, preços e condições de pagamento.
Inteligência artificial pode ajudar nas vendas
A combinação entre inteligência artificial, personalização, comparação de preços e integração dos canais de venda deve ganhar cada vez mais espaço nas estratégias de Black Friday, avalia Brandão.
A tecnologia pode ajudar pequenos negócios a organizar campanhas, analisar o comportamento dos clientes e personalizar a comunicação. No entanto, o uso dessas ferramentas precisa estar associado a objetivos comerciais claros.
“A tecnologia precisa estar associada a uma estratégia comercial consistente. Não adianta investir em ferramentas sem saber quais resultados o negócio pretende alcançar”, ensina.
A recomendação é que os lojistas se preparem em cinco frentes: planejamento de estoque, definição de preços, divulgação antecipada, qualidade do atendimento e relacionamento com os clientes.
Além da Black Friday
Para Brandão, a campanha também deve ser encarada como uma oportunidade de conquistar consumidores que podem voltar a comprar nos meses seguintes, especialmente durante o Natal e as festas de fim de ano.
“O grande objetivo não deve ser apenas vender mais durante a Black Friday, mas conquistar clientes que reconheçam valor na marca e voltem a comprar”, destaca.