Após uma queda de energia nas dependências do Terminal Rodoviário Roberto Silveira, no Centro de Niterói, Região Metropolitana do Rio, na noite desta segunda-feira (19), uma infestação de baratas surpreendeu passageiros e usuários e provocou revolta no local. O imóvel administrado pelo governo estadual já é alvo, há anos, de denúncias que incluem estado de abandono, presença constante de pessoas em situação de rua e falta de segurança.
Em vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver baratas saindo de diferentes áreas do terminal. A situação acende um alerta para questões de saúde pública, colocando em risco passageiros, trabalhadores e comerciantes que circulam diariamente pelo local.
Quem depende da rodoviária para se deslocar para outras cidades reclama das condições precárias do espaço, que recebe um fluxo médio de cerca de 60 mil passageiros por mês e está localizado no coração da cidade.
“A rodoviária está abandonada há uns dois anos. Não tem segurança nenhuma. O pior é quando precisamos viajar à noite, ficamos completamente vulneráveis. É um absurdo o que estão deixando acontecer”, afirmou uma usuária.
“Essa rodoviária é uma vergonha. Suja, maltratada. É inaceitável que trabalhadores e passageiros sejam expostos a um ambiente tão insalubre”, disse outro frequentador.
Questionada sobre o caso, a Companhia de Desenvolvimento Rodoviário e Terminais do Rio (Coderte), órgão vinculado à Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana, do Governo do Estado, ainda não se manifestou sobre os apontamentos.
‘Rodoviária assombrada‘
Não são apenas problemas de limpeza que preocupam. Usuários relatam, principalmente, o aumento expressivo de pessoas em situação de rua, que passaram a utilizar o terminal como moradia fixa, agravando a sensação de insegurança.
Em outubro do ano passado, o ENFOCO publicou uma matéria sobre as condições do local. Na época, frequentadores também reclamaram do funcionamento dos banheiros. Segundo denúncias, havia divergência entre funcionários quanto ao uso gratuito dos sanitários, que seriam destinados apenas a passageiros mediante comprovação. No entanto, pessoas foram flagradas entrando e saindo pela roleta sem qualquer tipo de fiscalização.
“A preservação aqui do ambiente é um constante declínio. O chão é muito sujo, tem goteiras, os bancos de espera às vezes estão quebrados e às vezes tem lixo espalhado pelo chão. Você não nota guardas e seguranças por aqui, e eles não intervêm em nada”, contou o passageiro Erick da Silva, de 23 anos, que faz uso da rodoviária com frequência.
Além disso, em maio do mesmo ano, um caixa eletrônico localizado no primeiro andar foi arrombado durante uma tentativa de furto, ficando inutilizado por alguns dias. Na ocasião, usuários relataram que a falta de vigilância contribuiu para o agravamento dos problemas no terminal.
Venda do terminal
Em novembro do ano passado, a Rodoviária Roberto Silveira foi oficialmente incluída na lista de imóveis passíveis de leilão pelo Governo do Estado, a partir de emendas parlamentares. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou, por quatro votos a três, parecer sobre as 92 emendas apresentadas ao Projeto de Lei Complementar (PLC) 40/25.
O colegiado havia incluído 13 novos imóveis à lista original, que passou a totalizar 75 endereços. Entre eles, estavam o estádio Nilton Santos, a Central do Brasil e seis terminais rodoviários, incluindo a Rodoviária Novo Rio.
Segundo o governo, o projeto era considerado imprescindível para reforçar o caixa do Estado, diante da previsão de déficit de R$ 18,93 bilhões no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026. Ao saberem da decisão, à época, enquanto alguns usuários do terminal ficaram preocupados com a medida, outros comemoraram. Veja o vídeo:
No entanto, no dia 26 do mesmo mês, a Alerj decidiu adiar para 2026 a votação do projeto que autorizaria a venda dos imóveis públicos. A decisão foi tomada após reunião do colégio de líderes.
À época, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, retirou o projeto de pauta diante das controvérsias geradas pelo substitutivo aprovado na CCJ, que ampliava a lista de bens originalmente enviada pelo Executivo e incluía imóveis que provocaram forte disputa entre governo e oposição.
A tensão aumentou quando o deputado Rodrigo Amorim sugeriu acrescentar ao projeto a Aldeia Maracanã, imóveis da Uerj e a sede do grupo Tortura Nunca Mais. Diante da repercussão negativa, a Assembleia optou por priorizar outras matérias antes do recesso parlamentar, iniciado em 17 de dezembro.
Também ficou adiada para este ano a votação do projeto que autoriza a instalação de bases de videomonitoramento em vias públicas sem necessidade de licenciamento municipal, proposta que perdeu prioridade nas últimas semanas.
Os líderes da Casa pretendem avançar na definição da distribuição dos R$ 120 milhões do duodécimo entre os 92 municípios do estado. De acordo com o projeto de lei, os recursos serão distribuídos com base na arrecadação de IPTU, ISS e ITBI, beneficiando proporcionalmente os municípios com menor arrecadação. Pelo modelo proposto, o grupo A receberá 40% do total; o grupo B, 30%; o grupo C, 20%; e o grupo D, 10%.
Também foram discutidos projetos relacionados aos serventuários do Tribunal de Justiça e da Procuradoria-Geral do Estado. Parlamentares afirmam que a intenção é organizar um calendário para concluir os debates e garantir as votações antes do recesso. No caso dos serventuários da Justiça, a aprovação dependerá da homologação do termo de ajuste de conduta (TAC) referente ao concurso público da Polícia Militar de 2014.
Responsabilidades
Construída em 1955, a rodoviária já foi administrada pela empresa Socicam, mas retornou à gestão do Estado por meio da Companhia de Desenvolvimento Rodoviário e Terminais do Rio (Coderte), órgão vinculado à Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana.
Atualmente, o Terminal Rodoviário Roberto Silveira conta com 16 empresas de ônibus que operam 53 linhas, sendo 36 intermunicipais e 17 interestaduais, segundo informações do Governo do Estado.
Procurado para saber se possuíam conhecimento das denúncias envolvendo a infestação de baratas, se existe contrato ativo de dedetização e se houve alguma ação emergencial de limpeza, dedetização ou vistoria sanitária, o Governo do Estado, até o momento da publicação desta matéria, não respondeu à nossa equipe.