Mesmo sem acordo entre empresários e rodoviários e com a greve mantida pelo terceiro dia consecutivo, o Rio Ônibus anunciou nesta quarta-feira (1º) que os trabalhadores receberão, no próximo pagamento referente ao mês de junho, um reajuste salarial de 4,39%, independentemente do desfecho das negociações. O percentual, no entanto, está abaixo do reivindicado pela categoria, que pede aumento de 17% para as funções gerais.
Segundo o Rio Ônibus, entidade que representa as empresas de ônibus, a medida tem como objetivo “contribuir para a pacificação do conflito e viabilizar o encerramento da greve”. Apesar do anúncio, os rodoviários rejeitam a proposta e mantêm a paralisação.
Em nota, o Rio Ônibus informou que a operação desta quarta-feira voltou a ficar abaixo do percentual mínimo de 80% da frota determinado pela Justiça. A entidade atribuiu o descumprimento da decisão ao Sindicato dos Rodoviários, alegando que a categoria não encaminhou as escalas de trabalho aos motoristas, além dos atos de vandalismo registrados durante a greve.
“Infelizmente, por conta do descaso do Sindicato dos Rodoviários, que não enviou as escalas aos motoristas, e dos baderneiros que estão vandalizando coletivos e agredindo os profissionais que resolveram trabalhar, a operação de hoje, mais uma vez, não atingiu o percentual determinado pela Justiça, de 80%”, informou a entidade.
O percentual foi definido na noite de terça-feira (30), quando o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, atendeu a um pedido da Prefeitura do Rio e elevou de 50% para 80% a frota mínima que deve permanecer em circulação durante a paralisação.
O Rio Ônibus também fez um apelo para que os motoristas retornem ao trabalho. “Mais uma vez, pedimos aos motoristas que se dirijam às garagens e retornem ao trabalho imediatamente. A população carioca precisa ser atendida”, afirmou.
Reivindicações
Entre as principais reivindicações da categoria estão reajuste salarial de 17% para funções gerais, piso de R$ 5 mil para motoristas do BRT e de R$ 4 mil para os demais condutores, vale-alimentação de R$ 1 mil, plano de saúde, adoção da escala de trabalho 5×2 e pagamento do intervalo para refeição como hora extra.
Os rodoviários propõem que o reajuste salarial seja concedido em duas etapas: 8% a partir de julho e mais 8,3% em novembro.
O Rio Ônibus afirma que enfrenta dificuldades financeiras devido à redução de subsídios por quilômetro rodado e à queda na receita do sistema de transporte.
Nova tentativa de acordo
Na tentativa de avançar nas negociações, o Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1) marcou uma nova audiência de conciliação para as 11h desta quarta, no Centro do Rio.
O encontro anterior, realizado na terça, terminou sem acordo entre representantes do Sindicato dos Rodoviários e do Rio Ônibus. A audiência foi conduzida pelo desembargador Gustavo Alkmim, que inicialmente havia marcado uma nova reunião para a próxima segunda-feira (6). No entanto, a categoria solicitou a antecipação do encontro, pedido que foi aceito pelo magistrado.
Após a audiência de terça-feira, os rodoviários realizaram uma assembleia e decidiram manter a paralisação. Durante a manifestação, houve tumulto em frente ao TRT, com registro de invasão e depredação de ônibus.
O Sindicato dos Rodoviários também convocou uma nova assembleia para as 16h desta quarta, no Centro Social, em Rocha Miranda, na Zona Norte, para definir os próximos passos do movimento.
Greve entra no terceiro dia
Segundo o Rio Ônibus, a cidade conta com cerca de 3.600 ônibus. No entanto, por volta das 7h desta quarta-feira, apenas 1.650 veículos estavam em circulação, número bem abaixo dos 2.880 coletivos exigidos pela decisão judicial.
Ao determinar a ampliação da frota mínima para 80%, o presidente do TST destacou que o transporte coletivo é um serviço essencial e que a circulação de apenas metade da frota poderia comprometer a ordem pública, a segurança e o direito de ir e vir da população. Em caso de descumprimento da decisão, foi fixada multa diária de R$ 100 mil ao Sindicato dos Rodoviários.
O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que espera o cumprimento da determinação judicial. Segundo ele, a decisão anterior, que estabelecia a circulação de pelo menos 50% da frota, não foi respeitada nos dois primeiros dias da greve. Mesmo após a nova determinação do TST, o percentual mínimo ainda não teria sido alcançado.
Como começou a greve
A greve teve início à meia-noite de segunda-feira (29), após aprovação da categoria em assembleia realizada na noite de domingo (28).
Desde o primeiro dia, a Justiça havia determinado a circulação de pelo menos 50% da frota, o equivalente a cerca de 1.800 ônibus. No entanto, durante a manhã, menos de mil coletivos deixaram as garagens. Segundo as empresas, aproximadamente 50 veículos foram vandalizados durante piquetes.
Ao longo da segunda-feira, as garagens permaneceram cheias, enquanto passageiros enfrentaram longas filas e atrasos. No Terminal Alvorada do BRT, usuários chegaram a acessar a pista exclusiva dos ônibus após aguardarem por muito tempo.
Na terça-feira (30), o número de coletivos em circulação aumentou, mas permaneceu abaixo do percentual mínimo exigido pela Justiça.
Na audiência de conciliação realizada no TRT-1, empresários e representantes dos trabalhadores não chegaram a um consenso. Após a reunião, houve discussão entre rodoviários e dirigentes sindicais em frente ao tribunal. Uma votação chegou a aprovar o estado de greve, o que indicaria a retomada das atividades, mas uma nova consulta manteve a paralisação.
Ainda na terça-feira, pelo menos 15 ônibus foram depredados durante protestos relacionados ao movimento.
No fim do dia, passageiros voltaram a enfrentar dificuldades para retornar para casa. No Terminal Gentileza, na Região Portuária, o intervalo entre os ônibus chegou a cerca de uma hora e meia, enquanto, em dias normais, a espera costuma ser de aproximadamente 15 minutos.