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São Gonçalo

Triste fim: Clube Unidos de Portugal, em São Gonçalo, está jogado às traças

Tayná Ferreira | Publicado em:

Péricles Cutrim


Um espaço que já foi sinônimo de alegria, lazer e esporte para moradores de todas as idades hoje se encontra em completo abandono em São Gonçalo. A Casa Unidos de Portugal, localizada na Rua Cristiano Otoni, no bairro Coelho, está de portas fechadas há pelo menos quatro anos, segundo relatos de moradores e antigos sócios. O local se afundou em dívidas e, atualmente, apresenta sinais visíveis de depredação e descaso.

Inaugurado em 1970, o clube, que já foi tão famoso quanto o Clube Esportivo Mauá e Clube Tamoio, também oferecia diversas atividades sociais e esportivas, como futebol, futsal, vôlei, basquete, natação, equitação, golfe e tiro esportivo.



A estrutura conta com dois salões de festa, academia, quadras e piscinas, e já foi palco de apresentações de artistas renomados, como Tim Maia e Roupa Nova. Por fora, a fachada ainda engana: à primeira vista, parece menos degradada do que realmente está em seu interior.

Atualmente, o espaço desperta sentimentos mistos entre moradores da região e ex-frequentadores. As memórias afetivas dos bons momentos dão lugar à tristeza diante da visível deterioração.

No local, foi possível observar diversos sinais de abandono. A piscina, que antes era cercada por água limpa e cristalina, agora está tomada por lodo, lixo e água parada com coloração esverdeada. Veja, a seguir, a imagem do antes e depois:



Os salões de festa, que antes recebiam confraternizações e eventos, estão tomados por cadeiras quebradas, mesas empilhadas, poeira e fios soltos pelo chão. Praticamente toda a estrutura apresenta sinais de negligência, com tetos danificados e risco de desabamento. Há também grande quantidade de fezes de animais espalhadas pelo espaço.



Invasão e furtos

De acordo com moradores e antigos sócios, o abandono se intensificou durante a pandemia da Covid-19, deixando a estrutura em completo estado de deterioração. Denúncias apontam que, após o fechamento, o clube foi invadido por pessoas que se aproveitaram da falta de segurança para furtar equipamentos, incluindo aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e ventiladores.

“Já roubaram tudo e acabaram com todos os bens do clube”, explica José Carlos Barbosa, sócio antigo.

Inclusive, um buraco foi aberto em um dos muros para facilitar a entrada. A parede foi posteriormente consertada por um dos sócios.



Para evitar novos furtos e ocupações irregulares, moradores passaram a vigiar o local. Aqueles que ainda aguardam a reabertura do espaço mantêm um cachorro no terreno para impedir invasões e garantir a segurança mínima da propriedade.

Dívidas e processos

A empresa Casa Unidos de Portugal-Luso Brasileira responde a diversos processos trabalhistas, além de ações relacionadas ao IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e outras cobranças tributárias. 

De acordo com a Prefeitura de São Gonçalo, as ações judiciais referem-se a dívidas do imóvel, acumuladas desde 2001.

Moradores da região também relatam que o local acumula débitos com a concessionária Águas do Rio e recebe mensalmente contas de energia elétrica com valores elevados. 

Caso de polícia: bingo clandestino

Em 2 de dezembro de 2018, um bingo clandestino foi localizado nas dependências da Casa Unidos de Portugal e fechado pela polícia. A ação contou com a participação de agentes da 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM). Cerca de 70 pessoas, entre apostadores e funcionários do bingo, além de todo o material apreendido, foram encaminhados para a 75ª DP (Rio do Ouro).

De acordo com a DPJM, a operação teve início após uma denúncia anônima que indicava a prática de jogos de azar no Clube Unidos de Portugal, inclusive com possível envolvimento de policiais militares. Ao chegarem ao local, os agentes encontraram o ponto de jogo clandestino em pleno funcionamento, com apostadores e funcionários presentes. 

No local, foi apreendido material como uma impressora, uma máquina de cartão de crédito/débito e um caderno com anotações referentes à operação do bingo.

O local que, na época, abrigava salas cheias de cadeiras, com climatização e prêmios em dinheiro, hoje está com tetos danificados, poeira acumulada e muito lixo. Confira o antes e depois da sala onde acontecia o bingo clandestino:



Risco à saúde 

A presença de uma piscina destampada com água parada, junto ao acúmulo de lixo e lodo, representa diversos riscos sérios à saúde pública. Segundo moradores, o local é um ponto de proliferação do mosquito da dengue.

Ainda conforme a Prefeitura de São Gonçalo, por meio da Secretaria de Saúde, o local é monitorado pela equipe de Entomologia da Vigilância em Saúde Ambiental.



A Vigilância em Saúde Ambiental realiza vários trabalhos de prevenção e orientação dos moradores durante todo o ano. Os agentes de controle das arboviroses visitam as casas nos bairros, pulverizando larvicida nos locais com acúmulo de água constantemente. A visita dos agentes visa verificar se há novos focos do mosquito Aedes aegypti nas casas e orientar os moradores. Se encontram larvas, fazem a eliminação e/ou aplicam larvicidas, colocam telas nas caixas d’água e armadilhas para capturar os ovos.



O órgão também destacou outro serviço oferecido pelo setor: o pronto-atendimento. Qualquer cidadão pode entrar em contato com a Vigilância Ambiental e solicitar uma visita em casos de infestação por qualquer tipo de vetor.

Os atendimentos são realizados, em média, dentro de uma semana. Nesses casos, os agentes verificam a denúncia e executam as ações necessárias para eliminar os focos do problema. As solicitações podem ser feitas pelo telefone da Vigilância Ambiental: (21) 99388-6484.

Esperança em meio à tristeza

Fabrício Carvalho se emocionou ao falar sobre o clube. Segundo ele, seu pai foi um dos diretores do local.



De acordo com o José Carlos Barbosa, que mora no bairro há mais de 30 anos e sempre frequentou o clube, o funcionamento da estrutura faz falta para as comunidades próximas.

“É uma tristeza enorme. Eu moro em frente ao clube e sempre frequentei o local. Hoje, tenho meus netos que não tiveram a oportunidade de conhecer o clube, assim como outras pessoas da comunidade. O lugar era alegre, tinha almoço aos domingos, festividades…” , relata.



Ainda segundo ele,  o espaço abrigava festas de casamento, aniversários e gerava uma boa renda por meio da associação de membros. Ele se questiona para onde foi esse dinheiro, a ponto de o local entrar em estado de abandono e decadência.



Há esperança de que o local seja comprado, restaurado e volte a funcionar, o que anima o coração dos moradores que não tiveram a oportunidade de conhecer o clube, assim como daqueles que viveram momentos marcantes dentro do espaço. Segundo informações não confirmadas, um grupo de portugueses demonstrou interesse pela estrutura.

Os donos, representantes e advogados da Casa Unidos de Portugal não foram localizados pelo ENFOCO equipe para comentar a situação do clube.

Tayná Ferreira

Jornalista formada, apaixonada por contar histórias e dar voz a diferentes realidades. Atua principalmente na produção de reportagens especiais e na cobertura de temas relacionados a segurança pública e cidades. Estudante de Libras e defensora da causa animal. Instagram: @taynafjornalismo

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