Sem internet há pouco mais de três meses, moradores do bairro Maravista, na Região Oceânica de Niterói, denunciam viver um verdadeiro isolamento digital em meio ao medo por atuação do crime organizado na região.
Sem conseguir contratar novas operadoras, moradores afirmam que o problema já afeta trabalho, estudos e até serviços essenciais.
Um dos moradores, que preferiu ter a identidade preservada, explica que precisou acionar a justiça, já que a operadora que o atendia não foi fazer a manutenção, mesmo com o pagamento em dia. E mesmo através de decisão judicial, a determinação ainda não foi atendida.
“Estamos sem acesso à internet banda larga desde janeiro de 2026. No início do mês, houve a interrupção simultânea do serviço para diversos moradores da rua. Ao entrarmos em contato com as operadoras, fomos informados de que elas deixaram de atuar na região por questões de segurança”, explica.
Apagão digital em ruas de Niterói
O denunciante relata ainda que cabos teriam sido cortados deliberadamente.
“Trata-se de um grupo pequeno de indivíduos que atua na rua, intimidando moradores e visitantes, além de tentar estabelecer atividades ilícitas na região”, afirmou.
Na Rua Cônsul Antônio Gonçalves de Noronha, por exemplo, nenhuma operadora presta serviço atualmente na via.
“Eu e outros moradores, especialmente aqueles que trabalham em home office, já entramos em contato com mais de 20 operadoras, incluindo Claro, TIM, Nio, Vivo, Leste e Westlink”, disse.
Em um dos atendimentos, segundo ele, um técnico foi ao local e constatou que “não há mais infraestrutura disponível, pois os cabos foram removidos ou danificados”, relata.
O prejuízo financeiro também já começou a pesar no bolso dos moradores. A vizinhança tem recorrido a familiares e conhecidos em ruas próximas para conseguir conexão.
“Trabalho em regime de home office e fui diretamente prejudicado, inclusive com perda de clientes. Atualmente, preciso me deslocar até a casa de terceiros para conseguir acesso à internet e manter minhas atividades”, lamentou um morador.
Segundo relatos, já foram feitas denúncias formais e reclamações a órgãos competentes, mas, até agora, sem solução efetiva. O clima na região é de medo constante.
“Há relatos de intimidação e presença frequente de indivíduos armados circulando pela região. Já houve situações em que fui abordado por essas pessoas, que alegaram ter controle sobre a liberação de serviços na rua”, declarou.
O que diz a PM
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou que realiza policiamento ostensivo na região, com equipes fazendo abordagens e revistas sistematicamente. A corporação afirmou ainda que envolvidos em práticas criminosas, quando identificados em flagrante, são presos e conduzidos às delegacias.
Sobre as denúncias envolvendo suposta interferência criminosa na prestação de serviços, a PM declarou que ‘situações como as relatadas se caracterizam pela atuação velada de seus integrantes’ e ressaltou que os fatos precisam ser registrados em delegacia para subsidiar investigações.
A corporação orienta ainda que moradores acionem imediatamente a polícia pelo 190 ou pelo aplicativo 190 RJ em casos de coação ou ameaça, destacando que o anonimato é garantido.
Questionado, o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (Conexis Digital), principal entidade representativa das maiores empresas de telecomunicações e conectividade do Brasil, frisou que o bloqueio de acesso das equipes das prestadoras em algumas regiões pode afetar a capacidade das empresas em realizar a manutenção e instalação de seus equipamentos.
‘Essas restrições vêm ganhando espaço e ocorrendo em diferentes localidades, impactando no fornecimento e na qualidade do serviço prestado, além de colocar sob ameaça a integridade das equipes das operadoras’, pontua a nota.
De acordo com a entidade, o tema requer medidas efetivas e o setor defende uma ação coordenada de segurança pública envolvendo o Judiciário, o Legislativo e o Executivo, nos níveis federal, estadual e municipal, para garantir que as empresas, de forma livre e segura, possam continuar a oferecer suas soluções, e que a população tenha livre acesso aos serviços essenciais de telecomunicações.