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Segurança Pública

Internet sob pressão do crime: casos se espalham pelo Rio e Baixada e moradores relatam cortes e imposição de serviços

Redação | Publicado em: - Atualizado 2 dias atrás

Ação recente da PF identificou uma estrutura de telecomunicações em funcionamento sem autorização da agência reguladora em Macaé. Foto: Divulgação / Polícia Federal

O controle de serviços de internet por grupos criminosos deixou de ser um problema isolado no Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, investigações do Ministério Público identificaram redes clandestinas de telecomunicações ligadas ao crime organizado em diferentes regiões do estado, enquanto empresas do setor relatam dificuldades para atuar em áreas dominadas pela criminalidade. Um caso recente envolve moradores do bairro Coelho, em São Gonçalo, que ficaram sem internet desde 2 de outubro, após a interrupção do serviço de um provedor local, e relatam dificuldades para obter atendimento de outras empresas.

Segundo uma moradora ouvida pelo Enfoco, a conexão foi interrompida de uma só vez, durante a manhã, em ruas próximas ao Colégio Estadual Professora Adélia Martins. Ela afirma que os moradores que ainda não conseguiram pagar pela instalação de uma nova rede, que custa cerca de R$ 250, continuam sem acesso à internet.

“[Ficamos] sem serviço e comunicação. Eles pararam de responder. Se é ligada [ao crime organizado], não sei. Mas entendi que certamente tem que haver um ‘acordo'”, disse a moradora, referindo-se à empresa que deixou de fornecer o serviço. Ela pediu anonimato por medo de represálias.

A residente afirma ainda que os moradores passaram a ter apenas uma opção de internet na região. No entanto, diz não saber se houve uma ordem direta para impedir a contratação de outras empresas.

“Ser submetido a um único serviço, que não sabemos se teremos qualidade, se teremos assistência ou qualquer outro direito que um prestador de serviço regular oferece, é no mínimo assustador”, relata.

Segundo as informações fornecidas pela moradora, a nova empresa oferece planos de fibra óptica com velocidades de 300 a 500 mega, por mensalidades entre R$ 139,99 e R$ 169,99. A instalação custa R$ 250.

Ela afirma não saber quantos moradores conseguiram contratar outra alternativa e demonstra preocupação com os impactos da situação para quem depende da conexão para trabalhar. “Existem empresas, salões, mercados… Não sei se podem ter o luxo de uma internet via satélite, por exemplo”, diz.

Investigações em curso

A Polícia Civil esclarece que há investigações em andamento e levantamentos relacionados à atuação de organizações criminosas na exploração ilegal de serviços de internet na Região Metropolitana.

‘A Instituição trabalha de forma técnica e utilizando dados de inteligência para identificar a atuação desses grupos criminosos, reunir elementos de prova e assim responsabilizar os envolvidos’, acrescenta em nota.

Em relação a eventuais operações, prisões e apreensões decorrentes dessas investigações, a polícia informa que estas são divulgadas de acordo com o andamento do trabalho e sem prejuízo das diligências em curso.  

Internet clandestina

A Polícia Federal fechou, na tarde da última terça-feira (13), um serviço de internet que funcionava sem autorização no bairro Fronteira, em Macaé, na Região dos Lagos. A operação contou com a participação de policiais militares do 32º BPM e civis da 123ª DP.

No local, os agentes apreenderam roteadores, switches, cabos e outros equipamentos usados para distribuir o sinal de internet. Segundo a PF, a empresa funcionava sem autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Os responsáveis identificados foram levados à Delegacia da Polícia Federal em Macaé, onde foi aberto um inquérito. Eles poderão responder pelo crime de exploração clandestina de serviços de telecomunicações.

Outro caso recente

No último dia 28 de setembro, policiais civis da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) realizaram uma operação nos bairros Pita e Engenho Pequeno, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, para combater o monopólio clandestino de internet imposto pelo tráfico de drogas. A ação teve como objetivo cumprir três mandados de busca e apreensão e teve como alvo um provedor clandestino suspeito de ligação com o tráfico.

Segundo as investigações, criminosos estariam ameaçando técnicos e impedindo empresas regulares de instalar, reparar e manter suas redes. Em um dos casos ocorrido em junho, de acordo com a Polícia Civil, uma equipe foi abordada por homens armados, que mandaram interromper o serviço e levaram a escada dos trabalhadores.

Os policiais também encontraram indícios de que equipamentos de empresas legais estariam sendo usados pelo provedor clandestino. Foram apreendidos computadores, celulares, documentos, contratos, cadastros de clientes, registros financeiros, cabos, fibras ópticas e equipamentos de telecomunicações.

A polícia afirma que a suspeita é de que o domínio territorial dos criminosos esteja sendo usado para eliminar a concorrência e obrigar moradores a contratar o serviço clandestino. As investigações continuam para apurar crimes de receptação, atentado contra a segurança ou funcionamento de serviço de utilidade pública, interrupção ou perturbação de serviço de telecomunicações e associação criminosa, sem prejuízo de outras infrações que possam ser identificadas no decorrer das diligências.

Setor diz que restrições ameaçam serviços e trabalhadores

A Conexis Brasil Digital, entidade que representa empresas de telecomunicações, afirma que o problema ocorre em diferentes localidades do estado.

Segundo a entidade, o bloqueio do acesso de equipes das prestadoras em algumas regiões prejudica a manutenção e a instalação de equipamentos, podendo afetar o fornecimento e a qualidade dos serviços.

“Essas restrições vêm ganhando espaço e ocorrendo em diferentes localidades, impactando no fornecimento e na qualidade do serviço prestado, além de colocar sob ameaça a integridade das equipes das operadoras. O tema requer medidas efetivas e o setor defende uma ação coordenada de segurança pública envolvendo o Judiciário, o Legislativo e o Executivo, nos níveis federal, estadual e municipal, para garantir que as empresas, de forma livre e segura, possam continuar a oferecer suas soluções, e que a população tenha livre acesso aos serviços essenciais de telecomunicações”, argumenta.

Procurada, a Anatel ainda não informou se há levantamento ou mapeamento das áreas do Estado do Rio onde há domínio ou atuação de provedores clandestinos. O espaço segue aberto.

Em Teresópolis, tráfico teria destruído equipamentos para impor ‘GatoNet’

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Em março de 2025, MPRJ estourou central clandestina de internet operada pelo tráfico em Teresópolis. Foto: Divulgação / MPRJ

Um caso investigado pelo Ministério Público do Rio mostra como o controle da internet pode ser usado como fonte de renda por organizações criminosas.

Em março de 2025, o GAECO/MPRJ, com apoio das polícias Militar e Civil, desarticulou uma central clandestina de internet no Complexo PPR, em Teresópolis, na Região Serrana.

Segundo a investigação, dois dias antes da operação, criminosos haviam destruído modens e outros equipamentos de empresas regulares que prestavam serviço na região. De acordo com o MPRJ, a ação teria sido determinada por lideranças do tráfico com o objetivo de estabelecer uma rede clandestina exclusiva e vinculada à organização criminosa.

Os investigadores localizaram uma residência onde estavam instalados os servidores utilizados para operar o serviço. Uma pessoa foi presa e diversos equipamentos foram apreendidos.

Baixada: investigação aponta milhões movimentados por provedores

Na Baixada Fluminense, o Ministério Público também encontrou indícios de que serviços de internet faziam parte da estrutura financeira de uma organização criminosa.

Em agosto de 2026, o MPRJ e a Polícia Federal deflagraram a Operação Fora de Ordem, com 23 mandados de busca e apreensão contra investigados por integrar uma das principais milícias da Baixada, segundo o Ministério Público.

A investigação apontou movimentações suspeitas superiores a R$ 350 milhões, relacionadas à exploração de serviços como gás e internet, entre outras atividades econômicas.

Segundo a 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Territorial do Núcleo Nova Iguaçu, a organização utilizava o domínio territorial, o poder de intimidação e a violência para explorar serviços e obter recursos. Os investigadores também identificaram uma estrutura dividida em núcleos de comando, financeiro, operacional, territorial e político.

Zona Norte teve ‘GatoNet’ ligada a organização criminosa

Na Zona Norte do Rio, o MPRJ já investigou uma estrutura de ‘GatoNet’ que funcionava em Rocha Miranda, Colégio, Coelho Neto e Honório Gurgel.

A investigação deu origem à Operação Jammer, deflagrada inicialmente em 2023 pelo GAECO/MPRJ e pela Polícia Federal. Segundo a denúncia, a estrutura existia desde 2018 e era utilizada para explorar clandestinamente serviços de telecomunicações, televisão e internet.

Na segunda fase da operação, em março de 2024, o GAECO denunciou seis pessoas por organização criminosa voltada à exploração clandestina desses serviços.

De acordo com o Ministério Público, os investigadores encontraram planilhas de clientes, registros de pagamentos e conversas relacionadas ao funcionamento cotidiano da rede clandestina. As apurações apontaram ainda que parte do dinheiro obtido com a exploração dos serviços teria sido destinada ao pagamento de despesas relacionadas a integrantes da organização criminosa.

PM também encontra estruturas clandestinas

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar afirma que vem identificando estruturas utilizadas por criminosos para monitorar a movimentação das forças de segurança durante operações.

Segundo a PM, a corporação realiza operações rotineiras em diferentes regiões do estado para combater a atuação do crime organizado e impedir tentativas de expansão territorial.

A PM cita como exemplo uma ação realizada em agosto de 2026, quando policiais do 12º BPM (Niterói) prenderam três suspeitos de envolvimento com o tráfico nos acessos à Comunidade da Vila Ipiranga. Na ocasião, os agentes encontraram uma central clandestina instalada irregularmente em postes, com duas câmeras usadas para monitorar a movimentação das forças de segurança.

Segundo a corporação, a identificação e a desarticulação dessas estruturas fazem parte das ações permanentes de enfrentamento ao crime organizado.

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