O tempo

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O tempo não volta. Cada dia que passa, torna-se um dia a menos, dentro da nossa existência. Foto: Divulgação

A última aula do meu clube de leitura foi sobre o terceiro capítulo de Eclesiastes, que traz o que ficou conhecido como “o discurso sobre o tempo”:

“Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou ;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz”(…)

Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó”.

Tenho pensado muito acerca de duas coisas, as quais estão descritas nesses versículos. A primeira é sobre o quanto somos intolerantes e impacientes, revoltando-nos com o que não acontece na hora e da forma que desejamos, supondo que podemos controlar até mesmo o tempo.

Se nossos antepassados tinham a plena consciência de como dependíamos do tempo da natureza para plantar e colher, sentir frio e calor, ter sol ou chuva, passamos a vaidosamente acreditar que a maior parte dessas coisas pode ser evitada, prevista, controlada, pelo homem e pela tecnologia.

A segunda coisa que me intriga é constatar como nos perdemos em coisas inúteis, desperdiçamos o tempo que nos é generosamente concedido por Deus, reclamando de tudo, sendo negligentes e ingratos com o que nos foi destinado, sendo frívolos e fúteis. Em tempos de imediatismo e instantaneidades, somos invigilantes quanto ao que realmente importa.

Nessa mesma aula de quinta feira, Taiguara Fernandes, um jovem jurista católico de 28 anos, que possui muito mais conteúdo do que muita gente cortejada e aplaudida pelo mainstream, fez uma conexão entre a parábola dos talentos e o tempo: este seria o talento que Deus nos entregou e, ao final, perguntará o que fizemos dele.

Aquele que enterrou seu talento, com medo de perde-lo ou de ser roubado, não tendo deste usufruído ou multiplicado-o, será severamente punido, por ter desperdiçado aquilo que generosamente lhe foi concedido.

Se não aproveitamos nosso tempo para evoluirmos, ou deste fizemos muito menos do que poderíamos, jogando fora as oportunidades que se apresentaram, reclamando demais, doando pouco, negligenciando do aprimoramento moral ou nos aborrecendo com o que não ocorreu como desejávamos, precisaremos prestar-lhe contas, em nosso memento mori (a hora da nossa morte).

É aí que o bicho pega, e em seu leito de morte, ao olhar para trás, aquele que não valorizou a vida terrena não poderá mais reclamar, revoltar-se, culpar terceiros, fazer corpo mole ou simplesmente “aproveitar o dia” (carpe diem), como está na moda tatuar no braço e postar no Instagram. Porque não haverá mais tempo para isso.

Só possuímos dois momentos que importam: o agora, e a hora da nossa morte, como nos ensina a oração da Ave Maria. Ou nos transformamos, fazemos o bem, amamos, nos doamos, aprimoramo-nos, somos exemplo agora, ou pode não haver mais tempo.

Não sabemos quando chegará a hora da nossa morte. Pode ser hoje. Amanhã. Daqui a semanas, meses ou anos. Mas não sabemos. E por isso precisamos agir no AGORA.

O Eclesiastes nos traz a reflexão sobre o que Deus nos ensina, e não queremos aprender. O tempo Dele nós não conhecemos. Reclamamos de tempos difíceis, de tempos de guerra, de tempos de luta e de dor. E não aceitamos com abnegação a realidade, da forma que esta se apresenta para nós, buscando transformá-la, sem revolta.

Não aceitamos que morrer faz parte de viver. Que sofrer faz parte de existir. Sentimo-nos perdendo tempo, quando as coisas não se processam como desejamos. Mal sabemos que não controlamos o tempo, e que cabe-nos apenas uma decisão: a de como usarmos, da melhor maneira, esse tempo que nos foi dado.

Engraçado que, quando estamos despendendo tempo em algo muito prazeroso ou desejado, temos a total dimensão deste e de sua passagem. Por exemplo, quando estamos viajando e temos apenas um dia em cada cidade visitada. Como esse tempo é aproveitado, bem utilizado, multiplicado, valorizado!

Ou durante a comemoração de uma data festiva, com pessoas que amamos. Como cada minuto é sorvido como se fosse o último! E por que não fazemos isso, em nosso dia a dia, com o tempo que nos foi destinado? Por que não possuímos o mesmo senso de urgência ou o sentimento de gratidão que nos inunda, durante a viagem ou na noite da festa, em nossas vidas?

Iludimo-nos com a sensação de que a rotina que vivenciamos é algo perene, permanente, imutável, e que sempre haverá o dia seguinte, para repetir e reviver as mesmas atitudes e emoções.

Ledo engano. Embora seja nos pequenos atos do dia a dia, onde reside a fortuna maior de nossas existências, por ser ali que exercitamos a gratidão, também é através destes atos que podemos ser lembrados de nossa finitude, bem como do compromisso que precisamos assumir, conosco mesmos, e sobretudo com Deus, sobre o destino que damos às nossas vidas.

Porque do pó viemos, e ao pó voltaremos. Precisamos ter isso sob perspectiva, para que não percamos o nosso tempo com coisas, atitudes, pensamentos e sentimentos inúteis. O tempo não para. O tempo não volta. Cada dia que passa, torna-se um dia a menos, dentro da nossa existência.

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig.

Texto extraído da Tribuna Diária no dia 28 de junho