Ordem e Caos

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Toda escolha, portanto, encerra em si a tensão existente entre ordem e caos, e é aí que está o segredo do sucesso: saber escolher. Foto: Divulgação

Acabei de ler o livro de André Assi Barreto, “Entre a Ordem e o Caos – Compreendendo Jordan Peterson”. Adorei a abordagem feita pelo autor, na qual, partindo desses dois contextos: ordem e caos, e derivando-os para positivo e negativo, bem e mal, yin e yang, vai dissecando conceitos e ensinamentos, de Peterson e de outros pensadores, com muita simplicidade e de forma bem acessível.

André faz uma analogia muito interessante com o Mito da Caverna, de Platão, sobre o qual vou discorrer aqui, em linhas gerais. Esse Mito está contido no livro A República, e metaforicamente trata de um grupo de homens acorrentados dentro de uma caverna, desde o nascimento. De costas para a entrada e vendo sombras projetadas pela luz do sol, refletidas na parede da caverna, os prisioneiros somente conhecem a representação da realidade oriunda da leitura que fazem das sombras.

Essa verdade que se apresenta para eles, tal qual a conhecem, em um mundo restrito, é muito limitada. Advém de suas impressões e não do que é real. Entretanto, propicia-lhes uma zona de conforto (a ordem), que vem do fato de lidarem com o que lhes é familiar, desde sempre, sem alterações ou sobressaltos. Assim começa a narrativa de Platão.

Ocorre que um desses homens, curioso e sedento de respostas, liberta-se dos grilhões, e foge para o lado de fora da caverna, em busca do mundo como ele é. Essa atitude gera o caos, retirando dos habitantes da caverna as suas certezas, causando alvoroço e medo.

Tal homem tem dificuldade de adaptar os olhos à luz do sol, vê as coisas de modo embaçado a princípio, mas quando consegue perceber que o mundo à sua volta é imenso e repleto de possibilidades, e que tudo que ele via, da caverna, era apenas uma impressão do que julgava ser realidade, corre de volta para a caverna. Existem duas versões, a partir daí:

Em uma primeira versão, ele prefere se manter acorrentado a se arriscar naquele mundo desconhecido. E, na segunda, que é a de que mais gosto, ao voltar eufórico e contar aos demais o que viu, é morto por eles, posto que o julgam louco.

A partir dessa narrativa, o autor discorre sobre ordem e caos: para conhecermos a verdade, é preciso que nos aventuremos no caos, que saiamos da zona de conforto em que nos encontramos, em busca de respostas verdadeiras sobre a vida. André, então, nos mostra que ordem não é necessariamente algo bom o tempo todo, e que caos não é a personificação do mal, ou do que é ruim.

Ambos, ordem e caos, fazem parte da estrutura da sociedade, da civilização e do ser humano, e para que percebamos isso, socorre-se dos elementos do yin e do yang: em cada um, há um pedaço do outro – um é preto com uma bola branca, o outro, branco com uma bola preta.

A ordem absoluta gera autoritarismo e totalitarismo. O caos absoluto gera anarquia e revolução. Nem um, nem outro vivem sozinhos, é preciso temperança, prudência, justiça e fortaleza (as quatro virtudes cardeais), para lidar com ambos e compor a realidade de luz e sombra, ordem e caos. E é essa a graça da vida.

Os homens da caverna não foram capazes de lidar com a novidade que o caos traria. Preferiram assassinar o mensageiro, a aprender um novo modo de viver. Tal qual acontece conosco, tantas vezes, a mudança foi por eles vista como algo ameaçador e subversivo. Preferiram manter-se no conforto das sombras.

O que Jordan Peterson, famoso psicólogo canadense ensina, em seu livro “Doze Regras para a Vida”, é que a felicidade não pode ser o principal objetivo da vida. O que deve ser buscado, perseguido com afinco, é dar sentido à própria vida, ainda que dentro disso haja sofrimento e dor. Porque vida é sofrimento, e ninguém está livre disso. Até mesmo porque, é do sofrimento que se extrai a realidade.

Mas a boa notícia é que, dentro desse caos que é a vida, é possível encontrar ordem, por meio da aceitação do destino, da busca de um propósito real para nossa existência, e de pequenas alegrias e realizações que surgem no caminho, enquanto vamos marchando rumo a esse propósito. Essa é a base dos ensinamentos de Peterson, que refuta todos os manuais de autoajuda, que pregam que a busca da felicidade é o que há de mais importante em cada existência. O que faz com que, para um indivíduo, seja possível encontrar felicidade, é o fato de sua vida estar voltada para um propósito, algo que lhe dê sentido e que o conduza em direção à verdade.

Tudo isso vai de encontro aos ideais românticos que nos são incutidos desde muito cedo, que fazem com que as pessoas acumulem frustrações e decepções em excesso, ao longo da vida. Afinal, o que elas perseguem – a felicidade plena – é algo inatingível, até porque a vida é feita de ordem e caos, e isso é inafastável.

Se avaliarmos o primeiro mito da civilização ocidental, como conceitua o autor: Adão e Eva, no Jardim do Éden, veremos que a ordem e o caos estavam juntos ali, e que somente era possível desfrutar das maravilhas do Paraíso – a ordem, se fosse feita a escolha de não comer a maçã – o caos. Toda escolha, portanto, encerra em si a tensão existente entre ordem e caos, e é aí que está o segredo do sucesso: saber escolher.

Fechei o livro divagando sobre tudo isso e acerca do quanto perdemos tempo, tentando controlar o universo e tudo que está ao nosso redor. Bom seria se nos contentássemos em ordenar nossas próprias vidas, a fim de que, nos momentos inevitáveis de caos, estejamos prontos para lidar com tudo que se apresente, extraindo as lições mais importantes da realidade, para melhor vivermos, tomando decisões com sabedoria.

“Para sair do fundo da caverna, é preciso coragem, e buscar a verdade é o grande objetivo – ver a realidade, encarar a luz. Apenas a coragem para buscar a verdade sistematicamente produz a evolução contínua do indivíduo e da sociedade”

André Assi Barreto, “Entre a Ordem e o Caos – Compreendendo Jordan Peterson” (Página 83)

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig.

Texto extraído da Tribuna Diária no dia 4 de maio