Os falsos salvadores

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Mussolini, Hitler, Stalin e Lenin: Ditadores travestidos de salvadores. Foto: stratejokortak.com

A Primeira Guerra Mundial acabou. Quando imaginava-se juntar os cacos e reconstruir a vida, veio a gripe espanhola, a pior epidemia já vista na Europa, entre 1918 e 1920, que matou cerca de vinte milhões de pessoas (estima-se que entre 20 e 40 milhões). Aparentemente, o pesadelo não tinha fim. Após quatro terríveis anos de confrontos e batalhas, e mais de nove milhões de mortes, surgia essa doença devastadora.

Esse era o panorama do início dos anos XX do século passado: a economia européia estava em frangalhos, e a população encontrava-se pobre, dizimada, faminta, doente e moralmente destruída. Momento perfeito para o surgimento, no horizonte, da trinca do mal, formada por Stalin, Hitler e Mussolini.

Essas figuras odiosas, porém carismáticas, ganharam destaque na cena européia com seus discursos e promessas de transformação da realidade. Seus discursos falavam da necessidade de fortalecer as nações, de implementar políticas justas de emprego e assistência social para os trabalhadores e suas famílias, de resgatar as origens e do patriotismo. Era uma reconquista de tudo que se perdeu com a Primeira Guerra…

A década anterior havia destruído todas as ilusões dos cidadãos, e muito embora a guerra tenha começado com uma certa aura de romantismo e esperança num mundo melhor, terminou de forma sangrenta, arrasadora, e com o velho continente dividido e humilhado.

Hitler e Stalin vieram ao encontro de tudo que o povo ansiava por acreditar. Eles faziam discursos inflamados para as massas, valendo-se de palavras e expressões que iam sendo absorvidas pela população, desejosa de esperança no futuro e sedenta de progresso. Esses homens eram o seu ópio e a sua religião. A Europa foi entregue a ditadores em bandejas de prata, para que fizessem desta o que bem entendessem.

Sigmund Freud pontuou, em alguns ensaios que escreveu, os excessos dessa época, na qual se vivia como se não houvesse amanhã. Sexo, drogas, prostituição, alcoolismo, violência, crimes. Não havia certezas no futuro, e a dura realidade fazia com que o presente fosse urgente e desmedido. A Europa estava devastada, os EUA estavam quebrados, o mundo estava de cabeça para baixo, e não se sabia o que esperar da vida.

Nos Estados Unidos, o crash da bolsa de Nova Iorque, em 1929, destruiu fortunas e trouxe fome, desesperança e desemprego, fazendo com que se instituísse a lei seca na cidade, como uma tentativa de refrear o crime e a violência. A sensação era a de que o poço de desgraças do mundo não tinha fundo.

A falta de perspectiva, a falência das nações e a dissolução das famílias, o desemprego, a fome, a revolta, o desespero e a incerteza permitiram que se abrisse a porta para os regimes totalitários, que se instalaram ao redor do mundo, com promessas de uma nova era.  Esses pareciam, à primeira vista, a chance de retorno à ordem e à prosperidade, que haviam desaparecido. 

Quando a violência e o poder absoluto dos sistemas ditatoriais eclodiram no continente europeu, a população já se encontrava doutrinada e manipulada a níveis impensáveis, aceitando ser conduzida por esses déspotas inescrupulosos, que espalhariam o terror e a morte pelo mundo, em troca de uma certa estabilidade econômica e de alguma dignidade.

Tudo isso é muito semelhante ao que a civilização vive hoje. A insanidade presente na sociedade, a falta de religião, com a consequente ridicularização do cristianismo, a crise na economia, nas artes, na ciência, a libertinagem, a falta de valores morais, as drogas, o consumismo desenfreado, a corrupção, a mentira, a desesperança…O caminho está aberto, para o avanço de regimes erráticos.

Tempos confusos, escolhas erradas. A democracia, que nem de longe é o melhor sistema de governo, é, entretanto, o menos pior dos que existem por aí, como já dizia Sir Winston Churchill. Esta, contudo, encontra-se seriamente ameaçada por regimes totalitários, que pretendem dominar o mundo.

Não oferecemos resistência contra o que está por vir. Assistimos passivamente à loucura da civilização. Os excessos da década de 1920 foram a antessala do pior: a Segunda Guerra Mundial e sua carnificina, seguida por uma Guerra Fria de proporções catastróficas.

Um século depois, e na mesma década, ao observarmos a deterioração da sociedade, e lembrarmo-nos de que a História se repete, devemos nos perguntar: o que acontecerá com a Humanidade, que não consegue escolher o caminho certo a seguir, daqui por diante?

“A ideia de que não existe uma alternativa, faz com que as pessoas aceitem as piores barbaridades”. Zigmunt Bauman

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig.

* Texto extraído da revista A verdade