Reflexões sobre vida e morte

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Caso nossa existência tenha sido uma sucessão de erros, como a do personagem, a proximidade da partida nos trará muito sofrimento e dor. Foto: EBC

Acabei de ler o livro A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói. Trata-se de uma pequena novela, que discorre sobre a vida de um magistrado e os meses que antecedem a sua morte por um problema renal. No final do século XIX, as angústias e as escolhas desse moribundo, e seu conflito face à chegada do memento mori, mostram-se profundamente atuais e pertinentes.

Tolstói viveu intensamente sua juventude, tendo abandonado a faculdade, em meio a uma vida vazia, no seio da aristocracia russa, regada a jogo e bebidas. No entanto, tinha plena consciência disso, “cada vez mais convencido da inanidade de sua existência e ansioso para vê-la tomar novo rumo” (apêndice do livro, p 83, sobre a biografia do autor).

Tendo ido para o exército como oficial, em 1851, juntamente ao irmão Nikolai, o contato com a natureza e com os soldados despertou-lhe a veia literária. Pôs-se a escrever, tendo suas obras forte cunho existencial e autobiográfico. Escreveu dois ícones da literatura russa, Guerra e Paz e Anna Karenina.

Ao fim da vida, desgostoso da vida em sociedade e adepto de ideias marxistas, Tolstói resolveu refugiar-se sozinho, em 1910, abandonando a família, que não compartilhava de seus ideais. Morreu no mesmo ano, após a publicação de obras e manifestos de teor político.

Na esteira de sua vivência e de suas reflexões, um dos primeiros livros que lançou, após a trilogia Infância, Adolescência e Juventude, foi esse que aqui descrevo. A vida de Ivan Ilitch, que morre aos 45 anos, com a plena convicção de que desperdiçou sua chance em escolhas equivocadas, poderia ser a vida do autor, caso este não houvesse descoberto a literatura e deixado o exército.

O juiz de Direito que protagoniza a obra, muito preocupado com os cortejos sociais, o salário e as promoções, trava ao longo da vida relações por interesse. A única amizade sincera da qual desfruta, às vésperas de sua morte, é a de um empregado doméstico, que dele cuida com carinho e bondade em seus meses finais.

As reflexões trazidas pelo livro caem como uma luva, no momento em que vivemos. Com tantas mortes abruptas e uma sociedade tão polarizada por conflitos políticos e de opinião, cabe-nos avaliar se os valores que alçamos à categoria de mais importantes possuem, efetivamente, a importância que lhes dispensamos.

Isso porque, às portas da morte, o que efetivamente fará com que fechemos os olhos em paz ou com perturbação e angústia, será o modo como nos conduzimos, e o que deixamos como marca, no mundo. Caso nossa existência tenha sido uma sucessão de erros, como a do personagem, a proximidade da partida nos trará muito sofrimento e dor.

É preciso fazer uma análise honesta. É necessário observar as relações que travamos, as amizades que cultivamos, os valores que perseguimos. As promoções e os adereços sociais, a adulação e a hipocrisia que nos cercam. Como Ivan Ilitch era um magistrado, a narrativa de sua vida mal vivida me tocou profundamente…

O meio judicial tem muitas particularidades. Amizades sinceras existem, mas muitas das relações se perfazem por interesses mútuos das partes. Cargos, vantagens, menor ou maior influência, salários mais atraentes, muito disso depende das relações que se cultiva, e do que se está disposto a dar em troca.

A imagem é muito importante. Opiniões alheias, também. Cair em desgraça por um pensamento divergente da maioria é o pesadelo de muitos. O espírito de corpo prevalece, e o comportamento predominante é morno, contido, como convém socialmente.

Todas essas elocubrações fazem parte dos pensamentos do personagem do livro, que se encontra profundamente infeliz e desiludido com sua vida, não somente pela doença de que foi acometido, mas por não ter dado à própria vida, o sentido certo. Agora, não há mais tempo, e ele precisa se haver com esse gosto amargo em sua boca e essa mancha em sua alma.

A certa altura, constata que só foi feliz da infância ao início da faculdade de Direito, época de leveza e inocência, após a qual passou a almejar cargos públicos, amizades influentes e salários polpudos, que lhe conferissem vantagens sociais e status, desvirtuando-se. Embora invejado por todos, por tudo que construiu profissional e familiarmente, sente-se só, frustrado e angustiado, pelas escolhas feitas.

O que é considerado sucesso, no mundo de Ivan Ilitch, torna-se uma fraude a seus próprios olhos, com a iminência da morte. Todos os valores perseguidos no passado, por ele e por sua esposa, e repassados para os filhos, não importam mais. As roupas e móveis caros, as cortinas elegantes, os gostos refinados e as noites de festas e jantares de que desfruta a família, em nada aplacam-lhe a dor, a desesperança, a tristeza e a solidão.

A imagem que passeia à sua frente é a de uma vida vazia, fútil, desagradável e interesseira, da qual não se orgulha, mas ao contrário, envergonha-se. Como pode deixar que as coisas chegassem a esse ponto?

Sábios ensinamentos, contidos em um livro escrito por um romancista que, sabendo como eram os prazeres mundanos, a sociedade russa de sua época, as relações por interesse e a superficialidade da aristocracia, pôs-se a retratá-la em suas obras, deixando um legado imensurável para todos nós.

“E se isto é assim e eu parto da vida com a consciência de que destruí tudo o que me foi dado, se não se pode mais corrigi-lo, que fazer, então?”

Lev Tolstói – (página 72)

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig

Texto extraído da Tribuna Diária