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Niterói

Livros de colorir: o que está por trás da ‘febre’ do momento?

Tayná Ferreira | Publicado em:

Arquivo Pessoal



Os livros de colorir, conhecidos como Bobbie Goods, tornaram-se a nova sensação do momento. Utilizados para relaxar, passar o tempo e até aliviar o estresse, esses livros têm conquistado cada vez mais crianças, adolescentes e jovens. No entanto, essa tendência da internet também conquistou o coração de adultos e idosos. Mas será que essa prática realmente traz benefícios para a saúde mental, o bem-estar e o alívio do estresse? O ENFOCO conversou com uma especialista para esclarecer essa questão.

O que antes era considerado apenas um passatempo infantil hoje ganhou status de recurso terapêutico, método de concentração e até ponte com a espiritualidade. Essa nova tendência editorial se consolidou no mercado brasileiro, dominando as listas de mais vendidos e alcançando públicos de todas as idades.


De acordo com dados da plataforma PublishNews, seis dos dez livros mais vendidos atualmente no Brasil são livros de colorir. O sucesso está diretamente relacionado ao aumento da busca por atividades que aliviem o estresse e promovam o bem-estar.

Entre as marcas que se destacam, está a Bobbie Goods, famosa por seus livros com ilustrações delicadas e minimalistas, que retratam animais como ursos e cachorros em cenários acolhedores. O visual fofo aliado à proposta terapêutica fez a marca explodir nas redes sociais, especialmente no TikTok, onde vídeos de pessoas colorindo viralizaram e atraíram novos adeptos.

Mas será que essa prática realmente ajuda a aliviar o estresse? Para a estudante de Direito Esther Braz, de 19 anos, a resposta é sim. Ela conheceu o Bobbie Goods por meio de uma colega da faculdade e, desde então, adotou o hábito como forma de relaxar.

“Uma amiga levou o livro e começamos a pintar no intervalo do almoço. O tempo passou voando. A gente nem conversou nem mexeu no celular, só focamos naquilo. Foi uma experiência muito boa”, conta.

Esther diz que, ao colorir, sente-se extremamente concentrada, a ponto de parecer que o mundo ao redor silencia. Ela lembra de um episódio marcante, quando usou o hobby como ferramenta para lidar com um momento de tensão.



“Um dia, na faculdade, fiquei muito estressada com algo que o professor falou. Peguei o livro e comecei a pintar ainda na aula. Aquilo me acalmou de verdade.”

A jovem costuma pintar aos domingos à noite, período em que se sente mais ansiosa diante da chegada da segunda-feira.



Ela prefere usar canetinhas, por achar que preenchem melhor os espaços e dão mais acabamento aos desenhos.

Tendência também atrai pessoas +60

O gosto por colorir também conquistou Terezinha Auxiliadora, aposentada de 66 anos. Assim como Esther Braz, ela começou a pintar em um período em que se sentia extremamente estressada e ansiosa. Ao passar por uma livraria, encontrou um livro de mandalas e decidiu experimentar.

“Comprei meu primeiro livro e comecei a colorir. Me senti muito bem. Até hoje essa prática me faz bem”, relata.



Terezinha prefere pintar à noite, quando a casa está silenciosa e as tarefas do dia já foram cumpridas. Gosta de colorir em ambientes tranquilos, como a sala ou o quarto, sempre sem televisão ligada ou ruídos externos. Para ela, colorir é um momento de introspecção e prazer.



Diferente da estudante de Direito, Terezinha prefere o bom e velho lápis de cor, por considerar que as canetinhas costumam borrar. “Volto à infância. Sempre gostei de lápis de cor.”

Para ela, colorir é uma atividade completa. “É distração, é terapia, é prazer. Uma coisa complementa a outra.”

Colorir realmente ajuda a aliviar o estresse?

Para a psicóloga Joseane Henrique, que atende em um consultório em Niterói, a estratégia de colorir como forma de relaxamento é uma boa opção. No entanto, quando se trata de ansiedade, os efeitos podem variar de acordo com o tipo de ansiedade e nível. 



A prática de colorir também tem relação direta com o funcionamento do cérebro. Segundo a psicóloga, atividades como colorir, cortar revistas ou jornais, escrever de forma terapêutica, trabalhar com argila ou colagens ativam diferentes áreas cerebrais e são bastante utilizadas na arteterapia, um recurso comum na psicologia.

Essas práticas estimulam, principalmente, o córtex pré-frontal, região localizada na parte frontal do cérebro, responsável por funções como planejamento, organização e concentração. Ao focar em uma atividade que promove relaxamento, o cérebro também aciona o sistema parassimpático, responsável por reduzir os níveis de estresse e induzir o corpo a um estado de calma.

“O sistema parassimpático é o responsável por trazer a sensação de bem-estar e relaxamento. Ele ajuda a reduzir os níveis de cortisol no cérebro, o que contribui para uma sensação real de calma. Nessas atividades, também utilizamos o córtex pré-frontal, que é ativado durante o processo. Ou seja, o sistema parassimpático entra em ação e colabora diretamente para o relaxamento da mente”, explica Joseane.



Perguntada sobre quais setores da psicologia explicam esse tipo de atividade como terapêutica, a especialista explica que a arteterapia é uma área importante que utiliza a arte como ferramenta terapêutica. Essa técnica não se resume apenas a pintar, colar ou desenhar sem propósito; ela tem uma função real, que permite trabalhar emoções, sentimentos e habilidades.

Quando o indivíduo se expressa criativamente, ele pode explorar suas dificuldades e potencialidades, promovendo uma integração do ser humano por meio desse processo terapêutico.

A arteterapia é um recurso utilizado pela psicologia para acessar e integrar o paciente, especialmente em casos em que a fala ou a expressão verbal apresentam dificuldades. Por meio dessa abordagem, é possível desenvolver a comunicação das emoções, estimular o autoconhecimento e promover transformações pessoais significativas.

Sensação de bem-estar

Colorir se tornou também uma sensação de bem-estar. Para Joseane Henrique, psicóloga, atividades manuais como colorir proporcionam essa sensação porque exigem atenção plena e foco. Esse processo, além de estimular o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo relaxamento, desencadeia a liberação de neurotransmissores, como a endorfina e a dopamina.

“A endorfina é conhecida por gerar sensação de bem-estar, enquanto a dopamina está associada ao prazer. Por isso, mesmo ações simples como pintar podem promover relaxamento, pois estimulam amplamente o cérebro durante a execução desses trabalhos manuais”, relata.

Na opinião da psicóloga, a popularização dos Bobbie Goods pode contribuir para a expressão da criatividade, estimular habilidades e a coordenação motora, principalmente para idosos. Joseane acredita que a atividade pode funcionar como um importante estímulo cognitivo para a população.

Redes sociais e retorno ao manual

Joseane também comentou sobre a era digital e os impactos das redes sociais, que podem gerar sobrecarga emocional. Segundo ela, a hiperconexão e o excesso de informações disponíveis online têm provocado um cansaço mental nas pessoas. Esse bombardeio constante de estímulos, muitas vezes superficiais, acaba gerando esgotamento e até um “vazio simbólico” no indivíduo.

“As redes trabalham muito com o quantitativo e pouco com o qualitativo. Isso vai esvaziando simbolicamente o ser humano. É um estímulo sem profundidade”, explica a psicóloga.

Nesse contexto, atividades lúdicas como pintar, desenhar ou escrever de forma criativa surgem como práticas de autocuidado e não apenas como escapes momentâneos.

“Talvez o movimento Bobbie Goods não dure para sempre, mas esse retorno ao manual, ao fazer com as mãos, tem muito valor. Na psicologia, chamamos isso de ajustamento criativo, e ele é fundamental para o bem-estar”, afirma.

Ainda de acordo com Joseane, essas práticas manuais promovem maior conexão consigo mesmo, incentivam vínculos relacionais e ajudam a equilibrar os impactos negativos do ambiente digital na saúde mental.

Tayná Ferreira

Apaixonada por contar histórias. Atua principalmente em segurança pública e cidades, com interesse em diferentes editorias. Estudante de Libras e apaixonada pelos animais. Instagram: @taynafjornalismo

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