Um país sem memória

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Aqui, rasgamos o legado de nossos heróis, sequer conhecendo sua trajetória e seus feitos. Foto: Reprodução/Tribuna Diária

Estive em Tiradentes, Minas Gerais, esse fim de semana. Eu não conhecia a cidade, e gostei muito de ver que é bem preservada, possui ótimos restaurantes e faz muito sucesso (estava lotada de gente). Essa é, entretanto, uma exceção em nosso país, que não preserva sua memória, seus heróis e sua História.

Recentemente, houve a comemoração, nos Estados Unidos, do quatro de julho. O país inteiro celebra a data de sua independência, lembrando-se de seus pais fundadores, e das lições que estes deixaram para a nação e as gerações que lhes sucederam. O mesmo, infelizmente, não ocorre com o nosso Brasil.

Enquanto Thomas Jefferson, George Washington, Benjamin Franklin e outros grandes nomes da História da independência americana, são incensados e festejados, tendo suas frases e seu exemplo reproduzidos pelos quatro cantos do país, nós, aqui, rasgamos o legado de nossos heróis, sequer conhecendo sua trajetória e seus feitos.

Posso elencar, dentre outros, Dom Pedro I, Dom Pedro II, o Barão de Mauá, José Bonifácio e Dona Leopoldina, tão-somente para situar-nos no período do Império que, após a proclamação da República, foi desmerecido e subdimensionado, na História do Brasil.

Os americanos conseguem, por meio da memória, trazer luz sobre personagens que impactaram os rumos de sua nação. Constroem monumentos, comemoram datas importantes, exercitam o patriotismo e o senso de pertencimento, de modo a manter viva a chama, daqueles que deram suas vidas pela pátria.

Até mesmo em relação aos militares que estiveram em combate, nas duas grandes guerras ou em outros conflitos, possuem uma atitude profundamente respeitosa e grata, face ao serviço por estes prestado, ao seu país.

Olhando para o passado, aprendem muito, aplicando no presente e projetando para o futuro, comportamentos e atitudes, decisões e escolhas, que foram bem sucedidas, lá atrás. Assim agindo, eles repetem e repercutem, na sociedade, o orgulho que têm de sua História. Desse modo, faz-se uma grande nação. E esse é o exemplo que deveríamos seguir.

Contudo, ao invés de aprendermos com o que já foi feito e teve êxito, vivemos acreditando que o que está por vir, é sempre melhor. Não conseguimos aprender com o legado que nos foi deixado, por homens virtuosos e corajosos, simplesmente porque não utilizamos o passado como referência.

Esquecemo-nos de uma regra primordial do conservadorismo, que é a de que a História é cíclica e se repete, e que erros cometidos antes de nós, podem servir-nos de ensinamento, assim como os acertos dos que nos precederam, podem guiar nossos passos.

Ali, naquelas Minas Gerais, aconteceu boa parte do nosso ciclo do ouro. Há muita História naquelas ruelas, naquele calçamento pé de moleque e nas eiras e beiras dos telhados. Há, também, registros de muita religiosidade e fé, nas igrejas espalhadas por São João Del Rei, Tiradentes, Mariana e Ouro Preto.

É preciso que tenhamos, aqui, o que outros povos cultivam: amor pela nossa História, e reconhecimento pelos nossos heróis. Na Europa e nas Américas, há museus, estátuas, praças, placas e bustos, contando sobre os antepassados e seus feitos memoráveis, que permitiram que a Civilização chegasse até aqui.

Tenho certeza absoluta de que também tivemos nosso lugar, nesse tabuleiro mundial. Dom Pedro II foi um dos homens mais respeitados de sua época, tendo viajado o mundo todo, e influenciado muito a ciência e as artes de  sua época.

Dom Pedro I, apesar do gênio impetuoso, e da rebeldia que lhe era peculiar, tocava praticamente todos os instrumentos de ouvido, tendo regressado à Europa, após deixar seu filho como príncipe regente, no Brasil, com múltiplas honrarias, sendo recebido com toda pompa em Paris.

Dona Leopoldina, esposa de Dom Pedro I, era uma princesa austríaca cultíssima, tendo papel preponderante na Independência e na condução dos rumos do recém emancipado país, em um tempo de polarização e desafios múltiplos. Ela, criada com todo luxo na Europa, veio para um Brasil quase selvagem, tendo que adaptar-se ao clima e ao povo, prestando um testemunho de amor e coragem à nossa nação.

O que dizer de José Bonifácio, tutor de Dom Pedro II, homem de confiança de Dom Pedro I, vital em momentos de decisões e conflitos, aconselhamento e direcionamento de ambos os Reis? E o Barão de Mauá, que chegou a ser tido como um dos maiores  empresários  do mundo, tendo iniciado sua vida de comerciante em uma pequena venda?

O Brasil é um país maravilhoso, repleto de gente de fé e de coragem, com brios e iniciativa. Digo, sempre, que faltaram-nos duas coisas, que forjam o caráter e a determinação de um homem: a guerra e o frio. Lidando com esses dois elementos, que trazem a fome, a miséria e a morte para sua porta, e os quais testam sua capacidade de sobrevivência, ele é capaz de superar-se e desafiar as circunstâncias.

As facilidades do clima e a abundância de alimentos, o temperamento pacífico e a ausência de grandes ameaças externas, tornaram a acomodação, a submissão e a passividade, características que rondam o nosso povo.

Podemos aprender por meio do amor ou da dor. É possível que aprendamos através do resgate da nossa História, do culto aos grandes nomes, que fizeram o nosso país avançar. Ou podemos nos deixar dominar por narrativas, as quais não nos levarão a um bom lugar.

Cabe a cada um de nós a decisão.

Texto extraído da Tribuna Diária, publicado em 12/07

A niteroiense Erika Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig