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Segurança Pública

Combustível do crime no RJ: Mapa revela 73 postos usados por quadrilhas para lavar dinheiro; veja a lista

Ezequiel Manhães | Publicado em: - Atualizado 4 meses atrás

Mapa divulga lista dos postos irregulares no estado do Rio. Foto mostra bomba de posto inteditada
Lista revela 73 postos espalhados no estado do Rio, utilizados por quadrilhas criminosas. Foto: Divulgação / Procon RJ

Um mapa com 73 postos de combustíveis distribuídos por 16 cidades do estado do Rio revela a dimensão das estratégias utilizadas por diferentes organizações criminosas para lavar o dinheiro da corrupção. Essa semana, em mais uma etapa da Operação Unha e Carne, a Polícia Federal (PF) realizou prisão e cumpriu mandados de busca e apreensão de suspeitos de usar uma rede de estabelecimentos em um esquema que faturou cerca de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

Obtido pelo ENFOCO, o levantamento aponta 56 postos com situação cadastral ativa, 16 suspensos por determinação judicial e um desativado, incluindo unidades em Niterói, São Gonçalo, Maricá, Itaboraí, Capital e outras cidades fluminenses. Todos aparecem no mapa como integrantes de redes investigadas.

A denúncia é do ex-secretário municipal de Proteção e Defesa do Consumidor do Rio, João Pires, que afirma ter cruzado informações obtidas ao longo do período em que esteve na secretaria com as investigações sobre a chamada ‘máfia dos postos’. Inclusive, o cruzamento das informações conta com dados públicos da Receita Federal.

Mafia dos postos

Posto de Combustível
Posto tradicional na Rua Gavião Peixoto, em Icaraí, fechado recentemente, aparece em mapa ligado à investigação da PF. Foto: João Victor Guedes

Entre os estabelecimentos apontados no levantamento está o Posto VIP Gavião, na Rua Gavião Peixoto, no bairro de Icaraí, em Niterói. Segundo funcionários, o local está fechado há cerca de uma semana devido ao encerramento do contrato com a rede Ipiranga e à transferência da administração para um novo proprietário.

A Ipiranga esclareceu à reportagem que o revendedor que operava o referido posto não mantém mais qualquer relação com a empresa. As operações serão retomadas futuramente com novos parceiros.

A lista

Niterói

Entre suspensos, ativos e desativados, Niterói aparece na lista com 17 postos nas seguintes regiões e bairros: Barreto, Fonseca, Maria Paula, Icaraí, Santa Rosa, São Francisco, Baldeador, Região Oceânica e Pendotiba.

São Gonçalo

São Gonçalo, aparece logo atrás, com 15 estabelecimentos, entre eles nos bairros Vista Alegre, São Miguel, Gradim, Porto Novo, Pita, e Raul Veiga, Mutondo, Neves, Porto da Pedra, Rocha, Alcântara, Zé Garoto, Rio do Ouro e Boa Vista.

Maricá e Itaboraí

Em Maricá e Itaboraí, o levantamento apontou para quatro postos envolvidos em esquemas criminosos.

Rio de Janeiro

Na Capital, o levantamento reúne 18 estabelecimentos nos bairros: Praça Seca, Piedade, Tijuca, Cidade de Deus, Penha, Olaria, Senador Camará, Barra da Tijuca, Penha, São Cristóvão, Engenho Novo, Bonsucesso, e Pedra de Guaratiba .

Outras cidades

O levantamento também identifica postos em Rio Bonito (4), Araruama (2), Campos dos Goytacazes (2), Itaguaí (2), Saquarema (2), Silva Jardim (2), Tanguá (2), além de Belford Roxo, Nova Iguaçu, Piraí e Rio das Ostras, com um estabelecimento cada.

[O levantamento é] 100% meu e eu inclusive cedi à Polícia Federal esse levantamento no início das investigações […] Eu só podia fiscalizar na cidade do Rio, mas eu sabia qual era o esquema, quem eram os laranjas, fiz um levantamento de todos os laranjas e foi exatamente o que a PF confirmou na operação”, — João Pires, ex-secretário municipal de Proteção e Defesa do Consumidor do Rio.

Segundo Pires, o objetivo do mapa não é indicar quais postos estão abertos ou fechados atualmente, mas identificar quais empresas integrariam a estrutura investigada.

João Pires explica, ainda, que alguns postos deixaram de operar por decisão das próprias distribuidoras, enquanto outros foram suspensos pela Justiça e que diversos também permaneceriam funcionando normalmente.

“Tem vários que estão suspensos e que estão de fato fechados, e tem vários ativos que estão de fato fechados. Mas têm alguns suspensos que ainda estão funcionando”, contou.

Pagamento em dinheiro

Nas redes sociais, o ex-secretário revelou que após a nova fase da Operação Unha e Carne, na última terça (7), diversos postos teriam orientado aos funcionários receber pagamentos apenas em dinheiro. Três dias após o caso, no entanto, os estabelecimentos teriam voltado a aceitar máquinas de cartão e outras formas de pagamento nesta sexta (10), de acordo com ele.

Pelas redes sociais do Enfoco, leitores também relatam que inúmeros estabelecimentos em Niterói e São Gonçalo só aceitam pagamento em dinheiro.

“Desde o dia da operação isso aconteceu. Foi o tempo deles conseguirem arrumar outros CNPJs. A venda cai muito aceitando só dinheiro. Foi o tempo de arrumarem maquininhas em outros CNPJs para continuarem operando”, afirmou João Pires.

Política, o combustível da máfia

A relação dos postos ganhou ainda mais repercussão após a Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. Segundo a investigação, a organização utilizava uma rede de postos registrados em nome de ‘laranjas’ para lavar aproximadamente R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos.

Entre os principais investigados está o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, apontado pela PF como o braço político da organização. Durante a operação, ele acabou preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil calibre .556 escondido em seu veículo. A defesa afirmou que a arma pertencia a um policial militar responsável por sua segurança.

Também é investigado o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil. A investigação ainda cita policiais civis suspeitos de controlar postos por meio de empresas registradas em nome de laranjas.

Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e contratação direta ilegal, além de outros delitos que possam ser identificados ao longo das investigações.

Fiscalização

posto de combustível
Apenas no primeiro semestre, 17 postos de combustíveis foram interditados na Região Metropolitana. Foto:Divulgação

De janeiro a julho deste ano, as ações de fiscalização do Procon-RJ e da Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor resultaram em 48 postos de combustíveis fiscalizados, sendo 27 autuados e 17 interditados na Região Metropolitana.

Na Região das Baixadas Litorâneas, foram sete fiscalizados e dois autuados. Na Costa Verde, três fiscalizados e um autuado.

Enquanto na Região Serrana, cinco fiscalizados, dois autuados e um interditado. No somatório de todos os locais, foram 63 postos fiscalizados, 32 autuados e 18 interditados.

Segundo os órgãos, as principais infrações, são: divergência entre o volume registrado na bomba e o combustível efetivamente entregue, equipamentos de medição irregulares, publicidade enganosa, descumprimento das regras de precificação e indícios de combustível adulterado, que são encaminhados aos órgãos técnicos para análise.

O Procon e a Sedcon também alertam que as fraudes estão cada vez mais sofisticadas, com equipamentos eletrônicos capazes de alterar o funcionamento das bombas, exigindo operações conjuntas com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Instituto de Pesos e Medidas (IPEM) e o Instituto Combustível Legal (ICL).

Como escapar do ‘combustível batizado’

Em meio às investigações sobre a chamada ‘máfia dos postos’ e números exorbitantes de estabelecimentos flagrados comercializando combustíveis adulterados e usando bombas fraudadas no estado do Rio, o motorista se vê no dilema de não saber em qual posto deve confiar para abastecer seu veículo.

Posto Imbassai sao goncalo enfoco
Rede funciona 24 horas e já recebeu premiação internacional pela qualidade dos serviços prestados. Foto: Arquivo / Enfoco

Premiada internacionalmente pela qualidade do combustível oferecido e por serviços prestados, a rede de postos Imbassaí, com unidades na Região Metropolitana do Rio, oferece dicas ao consumidor, através da gerente Bárbara Nunes:

“A primeira dica é escolher um posto bandeirado. Isso não significa que nunca haverá problema, mas a chance de encontrar combustível adulterado é muito menor”, pontua.

Outro ponto importante é observar a própria bomba de combustível. Bárbara explica que equipamentos de fabricantes reconhecidos oferecem maior segurança ao consumidor.

“Olhar a marca da bomba também faz diferença. A gente trabalha com bombas Wayne, que oferecem mais segurança contra fraudes. Marca Gilbarco é passiva de fraudes”, ensina.

O que diz a Gilbarco

Em relação à declaração de que seus equipamentos seriam passíveis de fraude, a fabricante Gilbarco Veeder-Root esclarece que tal afirmação é inverídica e desprovida de qualquer fundamento técnico ou factual. A empresa reitera que seus produtos são submetidos à rigorosa aprovação e fiscalização dos órgãos competentes, seguindo estritamente todos os normativos técnicos e regulatórios do setor, além de dispor dos mais elevados padrões de qualidade e segurança atestados por décadas de atuação consolidada no mercado nacional e internacional.

Diretos do Consumidor

A gerente também lembra que poucos motoristas conhecem um direito garantido ao consumidor: solicitar testes de qualidade e de volume antes do abastecimento.

“O cliente tem todo o direito de pedir o teste com a proveta e o aferidor. A proveta verifica se o combustível está dentro das especificações e o aferidor confirma se a quantidade que está indo para o tanque é exatamente aquela que está sendo cobrada”, conta.

Ela recomenda que o motorista acompanhe o abastecimento fora do veículo e não tenha receio de solicitar os testes.

“Depois que você faz esses testes e vê que está tudo certo, vale a pena fidelizar aquele posto. É uma forma de abastecer com mais tranquilidade”, garante.

Caso o combustível esteja adulterado, os reflexos costumam aparecer rapidamente no funcionamento do veículo.

“O carro começa a perder potência, engasgar e soltar fumaça. Depois disso vêm os prejuízos, como problemas na bomba de combustível e em outros componentes do motor”, frisa a gerente.

Outro sinal de confiança, segundo Bárbara, é a emissão da nota fiscal, documento que muitos estabelecimentos irregulares evitam fornecer.

“A gente sempre oferece os testes e entrega a nota fiscal. Muitos postos que têm alguma irregularidade se recusam a emitir esse documento. Aqui isso faz parte da nossa rotina”, afirma.

Desconfie do preço baixo

Ela também orienta que o consumidor desconfie de preços muito abaixo da média praticada na região.

“Preço muito baixo merece atenção. O consumidor precisa avaliar o conjunto: a procedência do combustível, a estrutura do posto e a transparência no atendimento”, destaca.

Em caso de suspeita, a denúncia pode ser feita pelos canais oficiais da Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor e do Procon-RJ, presencialmente ou por meio da plataforma digital disponibilizada pelo órgão. O site é o www.procononline.com.br e o WhatsApp (21) 98104-5445.

Os órgãos orientam que as queixas devem ser acompanhadas de nota fiscal, comprovante de pagamento, fotos, vídeos e outros documentos que auxiliem na investigação.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

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