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Rio

Menino com doença rara está há 3 meses sem remédio e mãe faz apelo: ‘A hemofilia não espera’

Ezequiel Manhães | Publicado em: - Atualizado 3 meses atrás

A medicação já foi comprada e deve chegar em até 20 dias. Foto: Arquivo Pessoal

Há três meses sem receber um medicamento que, segundo a família, mudou sua qualidade de vida, o pequeno Heberth Wallace Silva Chagas, de 8 anos, voltou a conviver com sangramentos espontâneos, fortes hematomas e dificuldades para andar. Portador de hemofilia A grave, ele depende do Emicizumabe, medicamento de alto custo obtido por decisão judicial, mas que deixou de ser fornecido. Agora, a mãe faz um apelo para que as autoridades restabeleçam o tratamento.

A dona de casa Tayná Andrade, de 35 anos, conta que o filho foi diagnosticado com hemofilia aos 2 anos e meio. Antes do Emicizumabe, o tratamento era feito com infusões intravenosas do fator de coagulação no Hemorio, um procedimento que, segundo ela, era traumático, considerando que o pequeno também tem diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD).

“Para conseguir aplicar o remédio, precisava ser contido. Não é de primeira que acha o acesso. Era muito difícil, tanto para ele quanto para mim”, relembra.

A hemofilia é uma doença genética rara que compromete a coagulação do sangue, provocando sangramentos prolongados, hematomas frequentes e, em casos mais graves, hemorragias espontâneas e nas articulações.

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Foi durante o acompanhamento médico que Tayná conheceu o Emicizumabe, avaliado em mais de R$ 300 mil. Com auxílio da Defensoria Pública da União, a família conseguiu uma decisão judicial que garantiu o fornecimento do medicamento.

Segundo a mãe, a mudança foi significativa. No entanto, há cerca de três meses, o tratamento foi interrompido. Tayná afirma que ainda não sabe exatamente o motivo da suspensão.

“Não sei se é a Justiça que está demorando ou outro problema. Só sei que meu filho está sem o remédio e a hemofilia não espera”, reforça.

Desde então, o estado de saúde de Heberth voltou a preocupar a família, que mora no bairro Largo da Batalha, em Niterói.

“Ele já ficou sem conseguir andar, teve sangramentos espontâneos e está com um hematoma na perna”, diz aflita.

Critérios do SUS

Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o Emicizumabe para crianças de até 6 anos e para pacientes com hemofilia A que desenvolveram inibidores contra o fator VIII. Heberth tem 8 anos e não possui inibidor, o que, segundo a mãe, dificulta o acesso ao tratamento pela rede pública.

Mesmo com uma ação judicial em andamento, patrocinada pela Defensoria Pública da União, a família afirma que o medicamento não é entregue há três meses.

Apelo

Além de pedir o restabelecimento imediato do tratamento do filho, Tayná defende que outras crianças também sejam contempladas.

“Meu pedido é que não olhem só para o Heberth. Tem outras crianças passando pela mesma situação. Acho muito injusto limitar o medicamento para crianças de até 6 anos. E as outras? […] Há algum tempo atrás eu consegui pegar umas duas ou três vezes no Ministério da Saúde no Rio, depois não conseguimos mais, aí voltamos pela Justiça mesmo. A medicação é avaliada em mais de R$ 300 mil, então aqui em Niterói não disponibiliza”, ressalta.

O que diz a DPU

A Defensoria Pública da União (DPU) informou, por meio de nota, que acompanha o caso desde novembro de 2020, quando ajuizou ação para garantir o fornecimento do Emicizumabe ao menino.

‘Ainda naquele mês, a Justiça Federal deferiu tutela de urgência determinando que a União, o Estado do Rio de Janeiro e o Município de Niterói fornecessem o medicamento. Posteriormente, a decisão foi confirmada e o processo passou à fase de cumprimento de sentença’, diz a nota.

Segundo a DPU, em 18 de junho de 2026 a representante legal da criança comunicou que o remédio não era entregue havia cerca de dois meses e relatou agravamento do quadro clínico. No mesmo dia, o órgão diz que informou o descumprimento da decisão judicial à Justiça Federal e pediu providências urgentes para restabelecer o tratamento.

A DPU afirmou que, desde o início da ação, vem adotando medidas para garantir o fornecimento contínuo da medicação. E que em 21 de julho, apresentou nova manifestação com relatório médico atualizado, reiterando o pedido de medidas para assegurar a entrega imediata do Emicizumabe.

Nos autos, de acordo com a DPU, a União alegou falta de estoque e solicitou autorização para aquisição do medicamento.

‘Em 8 de julho de 2026, a Justiça Federal voltou a intimar a União para comprovar o cumprimento das determinações judiciais. Como a medicação continuou sem ser disponibilizada ao assistido, a DPU reiterou seus pedidos para garantir a efetiva execução da decisão. A DPU seguirá acompanhando diligentemente o caso e espera que a decisão judicial seja efetivamente cumprida, com a imediata retomada do tratamento’, finalizou.

O que dizem os demais órgãos citados

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) informa que o paciente está devidamente cadastrado no banco de dados de mandados judiciais.

‘Em consulta aos autos, foi verificado que a União Federal, também ré na ação, realizará o depósito judicial para que o paciente possa obter o medicamento. No momento, o Emicizumabe não está disponível em estoque na Central de Mandados Judiciais.
As providências já foram adotadas e o processo licitatório para aquisição encontra-se em andamento’, informou a pasta.

Já o Ministério da Saúde garantiu que depois que o Estado do Rio de Janeiro interrompeu a entrega do medicamento, o órgão ‘realizou na semana passada um depósito judicial no valor de R$ 715.614,90 para garantir o tratamento do paciente pelos próximos seis meses’.

A reportagem também procurou o Hemorio e a Justiça Federal, por meio da 4ª Vara Federal de Niterói, responsável pelo processo que trata do fornecimento do medicamento, mas ainda aguarda posicionamento.

Ezequiel Manhães

Jornalista com experiência em hard news e produção audiovisual, tendo como foco reportagens factuais, especiais e conteúdos multimídia. Atua com rapidez, comprometimento e precisão na apuração, tendo como destaques coberturas de temas como política, economia, cidades, segurança pública e comportamento. LinkedIn: @ezequiel-manhães-b073921b3

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