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Niterói

Cresce o número de tartarugas encontradas mortas em praias de Niterói; entenda

Tayná Ferreira | Publicado em:

tartarugas mortes em niterói

O número de tartarugas marinhas encontradas mortas nas praias de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, nos sete primeiros meses deste ano revela um cenário preocupante e acende um alerta ambiental. De acordo com o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), entre 1º de janeiro e 30 de julho deste ano, foram registradas 100 tartarugas marinhas na orla do município. Desse total, 91 foram encontradas sem vida e apenas nove estavam vivas.

Segundo o projeto da Coordenação Geral de Licenciamento Ambiental de Empreendimentos Marinhos e Costeiros (CGMAC), órgão ligado ao Ibama, ‘o elevado número de tartarugas marinhas encontradas mortas é um importante indicador da pressão que sofre o ambiente costeiro. Em muitos casos, esses animais apresentam sinais de interação antrópica, como emalhamento em redes de pesca, ingestão de resíduos sólidos e colisões com embarcações’.

Ainda de acordo com o projeto, o cenário reforça a necessidade de ações voltadas à conservação marinha, incluindo o descarte adequado de resíduos, o uso de práticas pesqueiras mais sustentáveis e a conscientização da população.

Praia da Eva

O caso mais recente ocorreu no último dia 26 de julho, quando uma tartaruga juvenil da espécie Chelonia mydas, mais conhecida como tartaruga-verde, foi encontrada morta na Praia da Eva, no bairro de Jurujuba, Região das Praias da Baía, em Niterói. A cena chamou a atenção de banhistas, que perceberam que o animal estava com um plástico preso na boca, levantando a suspeita de que o resíduo pudesse ter contribuído para a morte.

De acordo com a médica-veterinária Daphne Wrobel Goldberg, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a presença de plástico na boca do animal, por si só, não permite afirmar que o material tenha causado a morte.

“A presença de resíduos sólidos no ambiente marinho é um problema relevante, especialmente para a tartaruga-verde (Chelonia mydas), que apresenta hábitos predominantemente costeiros e, portanto, maior exposição às atividades humanas. Contudo, apenas a presença de plástico na boca do animal não permite afirmar que esse material tenha causado sua morte; essa associação dependeria de avaliação veterinária e necropsia.”

Segundo o PMP-BS, as cinco espécies de tartarugas marinhas que habitam o litoral brasileiro já foram registradas nas praias de Niterói.

No município da Região Metropolitana, cinco espécies de tartarugas que habitam o litoral brasileiro já foram identificadas, com destaque para a tartaruga-verde (Chelonia mydas) e a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta).

Praias com mais registros

De acordo com dados extraídos do Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (SIMBA), as praias de Niterói com maior número de encalhes de tartarugas mortas são Charitas, com 19%, seguida por Piratininga, com 16%, e Boa Viagem, com 15%.

Conforme o projeto, as praias localizadas na região da Baía concentram o maior número de registros de tartarugas marinhas no município.

Especialista do projeto explicam que ‘a maior concentração de registros na região da Baía pode ser explicada pela combinação de fatores ambientais e da intensa atividade humana’.

Segundo o projeto, se trata de uma área com grande circulação de embarcações, atividade pesqueira, ocupação costeira e maior aporte de resíduos, o que aumenta as chances de interação entre as tartarugas marinhas e essas atividades. Além disso, as correntes e marés podem favorecer o transporte de animais debilitados ou mortos até as praias. Outro fator importante é o monitoramento constante da região, que contribui para um maior número de registros.

Perfil predominante das tartarugas

Segundo o projeto, entre as ocorrências registradas, cerca de 87% correspondem à tartaruga-verde (Chelonia mydas), refletindo a predominância da espécie na região.

Além disso, aproximadamente 95% dos indivíduos são juvenis, o que reforça a importância do litoral fluminense como área de alimentação e desenvolvimento desses animais. Em relação ao sexo, cerca de 62% dos registros são de fêmeas.

Niterói fora da rota das tartarugas

O número de tartarugas marinhas registradas nas praias de Niterói caiu nos sete primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.

Segundo o PMP-BS, entre janeiro e julho do ano passado foram contabilizados 157 registros. Neste ano, o número caiu para 100, uma redução de aproximadamente 36,3%.

‘A redução no número de registros pode estar relacionada a diferentes fatores, e ainda é cedo para atribuir uma causa específica. Variações nas correntes marinhas, condições climáticas, oferta de alimento e distribuição dos animais podem influenciar esses números, assim como a própria dinâmica dos encalhes. Por isso, é importante analisar esses dados em séries históricas mais longas antes de tirar conclusões’, explica o PMP-BS.

A médica veterinária Daphne Wrobel Goldberg, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também ressalta que oscilações anuais no número de encalhes são esperadas.

“De forma preliminar, ressalto que oscilações anuais no número de encalhes são esperadas e não indicam, necessariamente, aumento ou redução das ameaças na região. Esses registros também são influenciados por fatores como correntes, ventos, marés, esforço de monitoramento e probabilidade de as carcaças chegarem à praia.”

Camboinhas teve 15 tartarugas mortas no ano passado

Segundo o PMP-BS, em novembro do ano passado, 15 tartarugas marinhas foram encontradas mortas na Praia de Camboinhas.

Um dos casos mais graves, porém, ocorreu em agosto, quando 16 tartarugas-verdes foram encontradas presas a uma “rede fantasma”, equipamento de pesca abandonado à deriva na Praia de Itacoatiara, na Região Oceânica.

Pesca é uma das principais ameaças

Segundo a médica veterinária Daphne, a captura incidental pela pesca é considerada uma das principais ameaças às tartarugas marinhas.

“A captura incidental pela pesca é considerada a principal ameaça às tartarugas marinhas. Ela pode causar morte imediata por afogamento ou alterações subletais, como desequilíbrios eletrolíticos, lesões musculares associadas ao esforço de fuga e síndrome descompressiva. Em termos simples, mesmo quando o animal escape vivo da rede, seu organismo pode permanecer com uma espécie de “dívida fisiológica”: o esforço extremo, a falta de oxigênio e a formação de bolhas de gás na circulação podem provocar complicações e levar à morte horas ou dias depois.”

O que fazer ao encontrar uma tartaruga marinha?

De acordo com banhistas, no caso da tartaruga encontrada morta na Praia de Eva, no dia 26 de julho, houve uma tentativa de acionar as autoridades para realizar o resgate do animal. No entanto, antes da chegada de uma equipe especializada, uma pessoa retirou a tartaruga do local e a jogou entre as pedras.

“Pegou ela e tacou no meio das pedras. Aí eu nem tentei mais também (entrar em contato com as autoridades), porque ia ser bem difícil de alguém conseguir pegar onde ele jogou”, relatou a banhista Ana Carolina Lopes ao ENFOCO.

Especialistas orientam que, ao encontrar uma tartaruga marinha debilitada ou morta, a população entre em contato imediatamente com a central de resgate pelo telefone 0800-999-5151.

No caso de um animal vivo, a recomendação é não tocá-lo, a menos que seja realmente necessário.

‘Se for uma tartaruga viva, pedimos para que não toque no animal se não houver necessidade. Mas, caso precise, recomendamos colocar uma toalha ou um pano molhado sobre o animal. Também pedimos para que não devolva o animal à água, mas que o deixe abrigado em um local seguro e com sombra até a chegada da equipe. Além disso, se possível, pedimos que nos envie a localização do animal, junto de uma foto’, orienta o PMP-BS.

Tayná Ferreira

Jornalista formada, apaixonada por contar histórias e dar voz a diferentes realidades. Atua principalmente na produção de reportagens especiais e na cobertura de temas relacionados a segurança pública e cidades. Estudante de Libras e defensora da causa animal. Instagram: @taynafjornalismo

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