A morte do vidraceiro e motorista de aplicativo Eduardo de Castro Ornellas, de 26 anos, durante uma perseguição policial em São Gonçalo ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (24). O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou o policial militar Vinicius Vieira Moraes por homicídio qualificado. A denúncia foi recebida pela 4ª Vara Criminal da Comarca de São Gonçalo.
Segundo o MPRJ, Eduardo estava desarmado e fugia a pé quando foi atingido por dois disparos efetuados pelo policial. O segundo tiro acertou a região do pescoço e provocou a morte do jovem. O caso ocorreu na Rua Monsenhor Benedito Marinho, no bairro Pacheco, na tarde do dia 31 de maio deste ano.
A denúncia aponta ainda que, durante a perseguição, o policial teria gritado “vai morrer” mais de uma vez antes de efetuar os disparos.
Para o Ministério Público, imagens, perícias e depoimentos reunidos na investigação indicam que Eduardo foi atingido pelas costas e não tinha condições de se defender.
Vídeo mostra correria e disparos
Imagens de uma câmera de segurança mostram momentos de correria, gritos de desespero e disparos registrados segundos antes da morte de Eduardo.
De acordo com o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (GAESP/MPRJ), Eduardo estava em uma motocicleta, com a namorada na garupa, quando os dois foram alvo de uma tentativa de abordagem policial.
O homem acelerou, caiu com a moto e passou a fugir a pé. A namorada permaneceu no local, ferida, enquanto Vinicius e outros policiais seguiram na perseguição.
De acordo com a família, Eduardo estava a aproximadamente 300 metros da casa da mãe quando recebeu ordem de parada. O tio da vítima, Dihm Peterson, contou que o sobrinho teria ficado nervoso porque o documento da motocicleta estava atrasado e o veículo era usado para trabalhar.
Após a queda da moto, Eduardo teria visto a namorada ferida e fugido correndo. A mulher recebeu atendimento médico e teve alta. Mas o jovem não resistiu aos ferimentos.
Família contesta versão da abordagem
A família afirma que Eduardo nunca teve envolvimento com crimes. Segundo o tio, o jovem trabalhava como vidraceiro e fazia corridas como motorista de aplicativo nas horas vagas.
Dihm também relatou que o policial responsável pelos disparos teria admitido ao pai de Eduardo que confundiu um celular na cintura do jovem com uma arma. De acordo com o MPRJ, “o próprio policial admitiu ter efetuado os dois disparos”.
“A desculpa do policial para o pai, com o corpo do filho ao lado, foi que confundiu o celular na cintura com uma arma. Disse: ‘eu matei porque ele colocou a mão na cintura, depois fui ver que era um celular’. Falou isso para o pai dele, que estava chorando aos prantos”, relatou o tio da vítima, ao Enfoco, na ocasião.
PM afastou policial
Procurada, a Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que à época dos fatos o Comando da Corporação determinou o afastamento imediato do policial envolvido.
‘Vale informar ainda que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou um procedimento para analisar as circunstâncias da ocorrência envolvendo equipes do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (Recom)’, disse.
A PM também esclareceu que o agente já responde a um procedimento administrativo disciplinar (PAD), cujo objetivo é avaliar a possibilidade de permanência do acusado nos quadros da Corporação.
‘O Comando da Corporação reitera que não compactua com quaisquer desvios de conduta ou com o cometimento de crimes praticados por seus integrantes, punindo com rigor os envolvidos sempre que os fatos forem devidamente constatados’, finaliza.
Homicídio qualificado
De acordo com o MPRJ, Vinicius responderá por homicídio qualificado pelo recurso que dificultou a defesa da vítima e pelo emprego de arma de fogo de uso restrito. A pedido do GAESP/MPRJ, o policial foi afastado cautelarmente das atividades operacionais armadas.