A transferência de crianças atendidas há quase seis meses pela Clínica Contingente ABA, credenciada à Unimed Leste Fluminense, em Niterói, tem preocupado diversas famílias que temem novas interrupções nos tratamentos e prejuízos ao desenvolvimento dos pacientes. Responsáveis realizaram um ato na manhã desta quinta-feira (29) na Rua Dr. Borman, no Centro da cidade, pedindo uma solução para o caso.
Após um comunicado informar que a realocação começará em 30 de outubro, com prazo de 120 dias, por determinação do plano de saúde, mães e pais afirmam que ainda não sabem para onde os filhos serão encaminhados nem como será garantida a continuidade das terapias.
A preocupação envolve crianças que precisam de acompanhamento multidisciplinar contínuo, incluindo pacientes com transtorno do espectro autista (TEA). As famílias também relatam possíveis atrasos nos pagamentos da Unimed Leste Fluminense à clínica, com reflexos nos atendimentos e na permanência de profissionais nas equipes.
Uma das mães que vive essa situação é a professora Rachel dos Reis Villela, de 52 anos, mãe de Cezar Villela Lima, de 10. O menino tem autismo nível 3 de suporte e precisa de acompanhamento especializado em diferentes áreas.
“Ele precisa dessa equipe multidisciplinar porque todo mundo na clínica sabe das necessidades dele”, relata Rachel.

‘Começar tudo do zero’
Assim como outras crianças, Cezar passou cinco anos em tratamento em uma outra clínica em Icaraí, antes de ser encaminhado à Contingente ABA, no Centro da cidade, onde estava havia cerca de cinco meses. Agora, a família teme enfrentar novamente o processo de adaptação a uma nova equipe.
Segundo Rachel, o filho realiza acompanhamento com fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos, musicoterapeutas, psicopedagogos e terapeutas ocupacionais. O trabalho conjunto é importante para atender às necessidades específicas do menino, que não é verbal e também tem deficiência intelectual, epilepsia, hipotonia e restrições alimentares importantes.
A mãe explica que a troca de clínica não significa apenas mudar de endereço. É preciso que os novos profissionais conheçam a criança, compreendam suas necessidades e estabeleçam uma relação de confiança.
“A gente já sofreu muito quando saiu da outra clínica, porque as pessoas já estavam acostumadas com ele, já sabiam lidar. Quando a gente passa para a clínica, tem que começar do zero”, conta.
Rachel afirma que o acompanhamento atual estava mais organizado, inclusive com assistência terapêutica na escola, quando a família recebeu a notícia de uma nova transferência.
“Agora que eu tinha conseguido encaminhar, com os profissionais e tudo, acontece essa situação. Puxam o nosso tapete como se fosse uma coisa simples”, desabafa.

Janaína Vieira, moradora de São Gonçalo, conta que o filho, de nove anos, faz terapia desde os dois e apresentou avanços importantes no desenvolvimento, como aprender a falar, ler e escrever. No entanto, ela teme que as constantes mudanças na rede credenciada prejudiquem o tratamento do menino, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
“Ele evoluiu muito nesse tempo. Já está alfabetizado, já lê, escreve e fala. Só que, há um tempo, ficamos sem terapia. Agora, está acontecendo a mesma coisa e, daqui a pouco, não vamos ter mais clínica para fazer o tratamento”, relatou. Segundo Janaína, recentemente uma consulta com endocrinologista também foi cancelada após a clínica informar que havia sido descredenciada.

Moradora de Icaraí, em Niterói, Rejane Passeri, mãe de uma menina de nove anos com TEA, afirma que as interrupções e transferências entre unidades se repetem há cerca de quatro anos. Segundo ela, as famílias passam meses em uma clínica até precisarem mudar novamente, o que compromete a continuidade do atendimento.
“Estamos de novo com problemas com a Unimed em relação ao tratamento das crianças com autismo, síndrome de Down e outras necessidades especiais. As crianças precisam de tratamento contínuo, mas as clínicas deixam de receber e não têm como continuar trabalhando”, afirmou.
Rejane também critica a falta de pagamentos às clínicas e diz que as famílias mantêm as mensalidades dos planos em dia, mas enfrentam dificuldades para garantir o atendimento. “Vai chegar um momento em que não haverá mais clínicas para alocar nossas crianças, porque, em todas, a Unimed deve”, declarou.
Para ela, as mudanças frequentes prejudicam a evolução dos pacientes, que precisam de tempo para estabelecer uma relação de confiança com os profissionais. “Quando esse vínculo começa a acontecer, eles tiram a gente da clínica, e as crianças não conseguem progredir”, lamentou.
Mães relatam impasse sobre pagamentos
Além da preocupação com os tratamentos, as famílias questionam a situação financeira entre a operadora e a clínica. Rachel afirma que ela e outras duas mães estiveram presencialmente na Unimed Leste Fluminense na última segunda-feira (26) para cobrar providências.
Segundo a professora, elas foram informadas de que havia um acordo para o pagamento de 50% de uma parcela referente a agosto, com previsão de solução até o fim daquele dia. Posteriormente, Rachel diz ter recebido uma ligação e uma mensagem de uma representante da operadora informando que a situação estava encaminhada.
No entanto, de acordo com o relato, outra mãe esteve na clínica na terça-feira (27) e ouviu do responsável pela unidade que não havia ocorrido contato da operadora. Durante uma chamada de vídeo, teria sido discutida a possibilidade de parcelar valores referentes a setembro, desde que fosse pago o percentual pendente de agosto.
Ainda segundo Rachel, ao fim daquele dia, a clínica recebeu um documento informando o descredenciamento.
A professora também relata atrasos nos salários de profissionais e a saída de integrantes das equipes, o que, segundo ela, aumenta a instabilidade nos atendimentos.
Reclamações chegaram à ANS
Rachel afirma que várias mães já recorreram à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para reclamar dos problemas. Ela questiona a efetividade das negociações anteriores, alegando que as famílias recebem informações sobre tratativas em andamento, mas os atrasos voltam a ocorrer.
Em 15 de outubro, a professora registrou uma reclamação na agência. O documento informa que o tratamento de Cezar, custeado pela operadora por determinação judicial, havia sido interrompido naquele dia. O registro também menciona a alegação de irregularidades nos pagamentos desde 30 de setembro.
A transferência anunciada agora aumenta a apreensão das famílias, que cobram informações sobre as novas unidades e garantias de que os tratamentos não serão interrompidos durante a transição.
O que diz a Unimed Leste Fluminense
Procurada pelo Enfoco, a Unimed Leste Fluminense esclarece “que vem enfrentando desafios, muitos causados pela operacionalização de beneficiários provenientes do compartilhamento de risco firmado entre a Unimed Ferj e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que trouxe impactos às relações comerciais com alguns prestadores de serviço”.
No caso da Clínica Contingente ABA, de acordo com a operadora, “após diálogo e tratativas entre as instituições, foi acordado o encerramento da parceria existente”.
“Ciente da importância da continuidade dos tratamentos em curso, especialmente para crianças que necessitam de acompanhamento terapêutico regular, a Unimed Leste Fluminense, em comum acordo com a clínica, estabeleceu um período de transição gradual de 120 dias, buscando assegurar uma reorganização assistencial responsável, cuidadosa e com o menor impacto possível para os pacientes e suas famílias”, informou.
Durante esse período, a cooperativa diz que “trabalhará na identificação de alternativas de atendimento que respeitem as necessidades individuais de cada beneficiário, considerando a manutenção da grade terapêutica, as particularidades de cada criança e a localização dos ambientes de cuidado”.
Para orientar e acompanhar as famílias durante este processo, a Unimed Leste Fluminense reforça que disponibiliza todos os seus canais de atendimento, incluindo a Central de Atendimento (21) 4020-7200.
“A Unimed Leste Fluminense reafirma seu compromisso com a qualidade da assistência, a segurança dos pacientes e o respeito às necessidades das crianças e de suas famílias, mantendo o cuidado e o bem-estar dos beneficiários como prioridades em todas as etapas desse processo”, finalizou.
O que diz a Clínica Contingente ABA
Já Ale Bernardo, supervisor ABA e diretor clínico da Clínica Contingente ABA, afirmou que o encerramento da parceria partiu da Unimed Leste Fluminense, após a clínica cobrar os pagamentos em atraso. Segundo ele, a operadora comunicou por telefone que encerraria a parceria e, no fim do expediente, encaminhou uma minuta prevendo a transferência de todos os pacientes em 120 dias.
“Minuta que não assinamos por terem condições inaceitáveis que trazia condições administrativas sem a menor coerência. Aé parcelamentos de débitos de maneira que não levava em consideração a manutenção dos custos gerados pela manutenção dos atendimentos nesse período. Então, estamos tratando o documento para enviar a operadora uma contra proposta para a Confissão de Dívida deles”, revelou.
O diretor clínico informou ainda que os atendimentos foram suspensos em 26 de outubro, após tentativas de contato do setor financeiro com a Unimed. Segundo ele, havia valores referentes à competência de agosto em aberto, vencidos em 30 de setembro, relativos a serviços prestados em julho. A parcela teria sido paga apenas parcialmente.
Ale relatou que, após uma conversa com uma representante da Unimed e uma mãe e a promessa de pagamento do valor restante de agosto, além de parte da competência de setembro, a clínica retomou os atendimentos em 28 de outubro. No entanto, segundo ele, os valores não foram quitados, e existe o risco de novas suspensões.
Sobre a transferência dos pacientes, Ale afirmou que a clínica ainda não recebeu informações sobre as unidades que receberão as crianças nem sobre a organização da transição entre as equipes técnicas.
“Não fomos informados. Em tese, deveria ser feito uma tratativa entre as equipes técnicas, mas nada disso foi proposto ainda por eles. Minha opinião é que nem eles sabem para onde vão transferir, por isso pediram 120 dias. O único motivo real que a operadora tem com relação à clínica foi a insatisfação de ter sido cobrada e exposta. As famílias querem permanecer na Contingente pela qualidade do atendimento e serviço prestado, mas em momento algum a operadora levou isso em consideração”, lamenta.
Segundo o diretor clínico, aproximadamente 179 famílias das unidades do Centro de Niterói, Icaraí, São Gonçalo e Itaboraí podem ser afetadas. Ele confirmou atrasos salariais e a saída de profissionais, que atribuiu ao impacto financeiro provocado pelos atrasos e parcelamentos sem datas definidas para pagamento.
“Tivemos um impacto gigante no nosso fluxo de caixa, pois nossas reservas acabaram sendo utilizadas para cobrir custos operacionais e com os atrasos e parcelamentos sem datas previstas muitos profissionais buscaram outras oportunidades visto que o impacto é muito grande”, pontuou.
Ale afirmou que a clínica vinha mantendo os atendimentos nos últimos meses, apesar das incertezas, e que procurou manter a equipe informada sobre a situação. Segundo ele, a prioridade é reduzir os impactos sobre as crianças e suas famílias.
“Estamos já há alguns meses atendendo neste cenário de incertezas sem qualquer suspensão dos atendimentos. Para minimizar o impacto, sempre trabalhamos de forma muito honesta e transparente com a equipe de profissionais, pois a sensação de ‘ficar no escuro’, sem saber o que está acontecendo, creio que seja o maior problema. Chegamos a fazer uma reunião com eles para falar dos pagamentos parcelados, pois achamos que os pagamentos seriam feitos parcelados como a própria operadora informou. Mas na semana seguinte, já não foram feitos os pagamentos devidos. Ressaltamos que em nenhum momento recebemos um comunicado formal da situação e nem proposta de datas ou parcelamentos e tudo sempre foi feito por ligações telefônicas como forma de não registrar os acordos”, esclareceu.
O que diz a ANS
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) também foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.